Era dia de festa. E de vingança. Nuestros hermanos, os então campeões do Mundo, vinham a Lisboa e, num amigável, foram piores que Portugal. Os números deram para celebrar até mais não: a seleção espanhola, a mestre do tiki-taka, perdia por 4-1 contra os portugueses. Durante hora e meia dia 17 de novembro de 2010 lá esteve José Bosingwa em campo, a correr e a fechar espaços da lateral esquerda. Nunca mais o voltou a fazer. Ali, à direita ou onde quer que fosse. Paulo Bento riscou-o, fulo por, segundo ele, Bosingwa ter simulado uma lesão.

O defesa nunca mais espreitou na seleção. Até esta sexta-feira, quando o seu nome foi um dos 24 ditos por Fernando Santos, quando o selecionador se sentou na cadeira, ajeitou o microfone e disse “vamos lá a isto”. O jogador, hoje com 32 anos e a correr pelo Trabzonspor, da Turquia, regressa assim à equipa nacional por para “dar mais experiência às alas” e por “há sete jogos seguidos jogar 90 minutos”. Tudo junto, aos olhos de Fernando Santos, dá um jogador que “pode dar coisas positivas” à seleção.

Os jornalistas, lembrando-se da polémica entre Bosingwa e Paulo Bento — o antigo selecionador chegou a dizer que um jogador “não pode, não deve, simular uma lesão para não jogar na seleção nacional” –, questionaram Fernando Santos sobre a opção de reabrir a porta ao defesa do Trabzonspor. E o selecionador suspirou e não gostou. “Se não cada vez que houver um jogador a voltar à seleção vamos ter esta conversa, também temos que deixar o Paulo [Bento] descansado”, defendeu.

Os 24 convocados de Fernandos Santos para os jogos frente à Arménia (14 de novembro) e a Argentina (18 de novembro):

Guarda-redes: Anthony Lopes (Lyon), Beto (Sevilha) e Rui Patrício (Sporting).

Defesas: Bruno Alves (Fenerbahce), Cédric Soares (Sporting), Bosingwa (Trabzonspor), José Fonte (Southampton), Pepe (Real Madrid), Raphaël Guerreiro (Lorient), Ricardo Carvalho (AS Monaco) e Tiago Gomes (Sporting de Braga).

Médios: Adrien Silva (Sporting), André Gomes (Valência), João Moutinho (AS Monaco), João Mário (Sporting), Tiago (Atlético de Madrid) e William Carvalho (Sporting).

Avançados: Vieirinha (Wolfsburg), Cristiano Ronaldo (Real Madrid), Danny (Zenit São Petersburgo), Éder (Sporting de Braga), Hélder Postiga (Deportivo da Corunha)), Nani (Sporting) e Ricardo Quaresma (FC Porto).

Na defesa, mas para o outro lado do relvado, há duas novidades. E, pelo que Fernando Santos disse, uma delas vai estrear-se pela seleção contra a Arménia. Raphaël Guerreiro, novato lateral esquerdo, de 20 anos, nascido em França e jogador do Lorient, foi chamado após se mostrar na seleção de sub-21 de Rui Jorge que só sabe ganhar. Depois há Tiago Gomes, lateral do Sporting de Braga, de 28 anos, que “tem mais de 50 internacionalizações até aos sub-21”, lembrou Fernando Santos.

Nenhum deles tem internacionalizações. Mas um vai passar a ter. Porquê? “Não sou um grande adepto de adaptações posicionais”, explicou o selecionador. Ou seja, em princípio, não pegará em Bosingwa para o colocar no lado esquerdo da defesa. Qualquer escolha foi considerada “perfeitamente normal” por Fernando Santos, que andou “um mês de um lado para o outro”, a observar “40 e tal jogadores” para chegar a esta lista de 24.

Onde não estão Raúl Meireles, Miguel Veloso, Ricardo Costa ou Manuel Fernandes. Não podem ir todos, já se sabe. “Podemos falar sempre de muitos jogadores que não estão aqui”, explicou o treinador, rejeitando a ideia de que haja nomes com ciclos terminados na seleção e conformando-se com o facto de, “quando todos estão em forma, aí é que se tem de escolher”.

De volta também está Hélder Postiga, com o pé, o direito, ainda morno do primeiro golo que marcou pelo Deportivo da Corunha, no fim de semana passado. Chega para fazer concorrência a Éder, único avançado que Fernando Santos convocara para as partidas com a França e a Dinamarca. “O Hélder é um avançado com posicionamentos diferentes e pareceu-me importantes ter mais opções em termos ofensivos”, explicou o técnico que, porém, poderá continuar a optar por Danny, Nani e Cristiano Ronaldo como o trio virado para as balizas contrárias.

A prioridade, vincou, por mais que uma vez, o selecionador, está no encontro frente à Arménia, a 14 de novembro, no Estádio do Algarve, “que não recebe um encontro oficial [da seleção nacional] há dez anos”. Depois há outro jogo, outro espetáculo, em Manchester, no dia 18, diante da Argentina. Um planetário amigável que no mesmo relvado juntará os extraterrestres Ronaldo e Messi (um tem 22 golos esta época, o outro vai com 11).

Mas Fernando Santos não quer ouvir nem falar disso, por enquanto. “O que é mais importante afinal? O que vai decidir a presença no Europeu de França? É a Argentina? Não. Portanto os meus jogadores têm de estar 200% focados na Arménia. Não me interessa o que o resto do Mundo vai pensar. Eu quero é estar em França em 2016”, atirou, ao sublinhar a “importância” do jogo de qualificação contra a Arménia e lembrando que Portugal “tem tendência a desvalorizar este tipo de equipas”. E cuidado, porque “seguramente não vai ser fácil”.