Cavaco Silva afirmou esta tarde que a atual situação da PT se prende com problemas de desequilíbrios externos cometidos no passado. Apesar de começar por dizer que um presidente da República não deve comentar intenções de negócios privados, ainda por cima quando foram anunciados há apenas algumas horas, o chefe de Estado manifestou preocupação com o eventual “desmembramento da empresa” e deixou recados a erros cometidos no passado.

“Antes de ser Presidente da República escrevi e expliquei que a transferência para o estrangeiro de empresas nacionais tem normalmente um custo para o país”, disse, acrescentando que esse pressuposto nem sempre é partilhado por todos os economistas. Para o economista Aníbal Cavaco Silva (não tinha qualquer cargo na altura), no entanto, a transferência de empresas para o estrangeiro resulta, regra geral, dos “desequilíbrios das contas externas e do nosso endividamento externo”. Ou seja, se o problema se põe hoje deve-se aos desequilíbrios do passado.

E Cavaco diz que não foi por falta de aviso. “Eu sempre disse que um dia iríamos assistir à transferência de ativos nacionais para o estrangeiro”, já que, “no passado, acumulámos grandes desequilíbrios externos”.

“O que espero é que se evite o desmembramento da empresa”, disse Cavaco sobre a PT.

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Ainda sobre a questão da PT, que no domingo voltou à agenda quente depois de a empresa da angolana Isabel dos Santos ter anunciado o lançamento de uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a Portugal Telecom SGPS, Cavaco Silva disse ser “legítimo” questionar “o que andaram a fazer os acionistas e gestores desta empresa”. Isto, apesar de se tratar de uma empresa privada e brasileira, ressalvou o Presidente da República, garantindo que, mesmo assim é legítimo os portugueses fazerem essa pergunta.

PS devia “fazer o trabalho de casa”

Falando à margem de uma visita aos concelhos de Borba e Estremoz, no Alentejo, Cavaco voltou às tricas políticas em torno do calendário eleitoral que têm marcado os últimos dias para reafirmar o que já tinha dito este fim de semana em entrevista ao Expresso. “O Presidente da República tem de fixar a data das eleições de acordo com a lei eleitoral”, disse, reiterando que não vai desobedecer à lei eleitoral em vigor.

Uma lei que foi aprovada em 1999 pelo PS, com o apoio do PCP, BE e Verdes, e com os votos contra do PSD e do CDS, recordou Cavaco, convidando os “políticos” a “fazer o trabalho de casa”.

“Há momentos em que é importante lembrar alguns políticos de que quando falam de alguns assuntos devem estudá-los primeiro. Alguns políticos nem sabiam que a lei que tinha sido aprovada em 1999 tinha sido imposta e aprovada pelo PS, com apoio do PCP, BE e Verdes, e com votos contra do PSD e CDS. É bom fazerem o trabalho de casa de vez em quando”, voltou a dizer.

Já visivelmente irritado, Cavaco Silva lembrou ainda o artigo 133 da Constituição, que diz que o Presidente da República tem de fixar a data das eleições de acordo com a lei eleitoral. “Está escrito”, por isso, quem não o sabe é porque “não fez o trabalho de casa”. “Fiquei com ideia de que alguns políticos nem leram este artigo”, rematou, apontando – indiretamente e sem numa referir o partido nem os políticos a que se referia – baterias ao PS, que foi um dos mais críticos da postura do Presidente da República de não admitir eleições antecipadas.

Na origem está um comentário do líder parlamentar Ferro Rodrigues, que, sobre a eventual alteração à lei eleitoral chegou acusar a Presidência da República de não ter “bom senso”. “Para quê apresentar um projeto de lei quando a maioria de direita está contra e o bom senso está ausente ao mais alto nível?”, disse Ferro ao Diário de Notícias.