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O PS saiu unido do congresso do último fim de semana mas não há unanimidade sobre a estratégia de António Costa. Entre a ala segurista, o discurso do novo líder virado para a esquerda, fechando a porta a qualquer entendimento com os partidos de direita, merece críticas abertas.

Por um lado, isso é visto com preocupação pelo facto de o partido precisar de uma maioria absoluta para governar e, à partida, essa maioria ser mais facilmente alcançada falando para o centro. Por outro, o convite ao Livre, o novo partido de Rui Tavares, para estar presente no congresso, foi visto como “uma promoção” a um pequeno partido que pode roubar votos ao PS.

Essa é a opinião de seguristas e ex-deputados como Ricardo Gonçalves ou Vítor Baptista, na linha do que o eurodeputado Francisco Assis já defendera, em entrevista ao Observador, antes do congresso:

Essa entrevista foi polémica, Assis acabou por não falar no congresso, por ter sido desrespeitada a ordem de inscrições, e uma das principais questões para o futuro do PS ficou fora da discussão coletiva: deve o partido admitir apenas entendimentos à esquerda ou deve admitir a possibilidade de acordos com a direita?

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“É um erro Costa não preparar o partido para eventuais acordos à direita”, afirma ao Observador o ex-deputado Ricardo Gonçalves e um dos conselheiros de Seguro. Assis chamou-lhe “um absurdo”, em declarações ao DN. “O PS não pode esquerdizar-se. Temos que ir buscar os descontentes do centro direita”, afirma, acrescentando: “Nunca pensei que Costa fosse montar esta estratégia”.

“Esta esquerdização contraria aquilo que tem sido o PS ao longo da sua vida, que foi sempre um partido moderado. É uma surpresa”, declara Vítor Baptista, preocupado com a “governabilidade” do país. “É um péssimo começo”, diz, acrescentando nessa avaliação “as exclusões e saneamentos” de alguns seguristas. Tanto Baptista, como Ricardo Gonçalves ficaram sem assento nos órgãos nacionais do partido.

No que diz respeito à estratégia de Costa, Álvaro Beleza, um dos principais rostos do segurismo, desdramatiza. Lembra que foi por iniciativa sua que Seguro foi reunir com o BE à sede deste partido e considera que Costa quer repetir no país aquilo que, com êxito, conseguiu fazer em Lisboa: aglutinar várias esquerdas para crescer. Foi assim que conseguiu ter maioria absoluta depois de acordos com José Sá Fernandes ou Helena Roseta.

Outra característica de Costa é o “pragmatismo”. Pode estar agora a seduzir o eleitorado de esquerda para mais próximo das eleições apelar ao centro, acredita Beleza.

De qualquer forma, este dirigente (foi eleito para a Comissão Política) concorda “em parte” com o que Assis defende, pois em matéria de dívida, finanças públicas e reforma do Estado “o PS tem que estar aberto ao centro”.

A história, contudo, mostra que existe um fator a ter em conta na equação. Todas as vezes que o PS cresceu (obtendo maioria absoluta ou chegando lá perto, como aconteceu com António Guterres), cresceram também os partidos à sua esquerda, mostrando, assim, que os votos determinantes para os socialistas vieram do centro.