Apesar das notícias que começavam a surgir na imprensa durante o verão e que davam conta de que estariam em curso investigações sobre o alegado esquema de corrupção, fraude e branqueamento de capitais que o ligava a Carlos Santos Santos Silva, a João Perna e a Gonçalo Trindade, José Sócrates – como em tempos se descreveu – acreditava que não corria o risco de ser, efetivamente, preso. “Eles não têm coragem de me prender”, terá dito Sócrates a Carlos Santos Silva, de acordo com o Correio da Manhã, citando as escutas telefónicas que estão na base da “Operação Marquês”.

De acordo com a mesma publicação, o antigo primeiro-ministro sabia que estava a ser investigado, apesar de na altura ter refutado todas as notícias que iam nesse sentido. No seu espaço de comentário na RTP, o antigo secretário-geral do Partido Socialista chegou mesmo a descrevê-las “como uma verdadeira canalhice” e como “uma campanha de difamação”.

Sabe-se, agora, que José Sócrates terá sido confrontado no primeiro interrogatório com as conversas que manteve com os amigos ao longo dos meses em que esteve sob escuta. Nelas, e segundo o CM, ironizava sobre o processo, criticava abertamente os magistrados do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) e terá, mesmo, ameaçado mobilizar a opinião pública contra a Justiça.

Terá sido o comportamento do antigo primeiro-ministro ao longo da investigação e o teor dos comentários tecidos que ajudaram a fundamentar a decisão de deter e, posteriormente, aplicar a medida de coação de prisão preventiva: os magistrados do DCIAP e o juiz Carlos Alexandre acreditavam que o socialista poderia interferir no inquérito em curso e tentar fugir do país, caso se apercebesse que corria risco real de ser preso.

Já depois da detenção de João Perna, o antigo primeiro-ministro terá sido escutado a pedir a Daniel Proença de Carvalho, presidente da Controlinveste, para que arranjasse um advogado do seu escritório para defender o motorista, que transportaria o dinheiro até José Sócrates, quando este residia em Paris.

O socialista terá estado sob escutas telefónicas desde o final de 2013 até ao dia da sua detenção no aeroporto de Lisboa. Concretamente, foram ouvidas centenas de horas de conversação entre o recluso número 44 do Estabelecimento Prisional de Évora e vários dos seus contactos pessoais – incluindo outros agentes políticos – e profissionais.