Nigéria

Os três dias de terror de um sobrevivente ao massacre do Boko Haram

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O grupo extremista dizimou uma cidade inteira do nordeste da Nigéria, assassinando cerca de duas mil pessoas. Mas houve quem conseguisse fugir e contar o que se viveu em Baga.

Baga já tinha sido palco de ataques anteriores do Boko Haram

PIUS UTOMI EKPEI/AFP/Getty Images

Autor
  • João Pedro Pincha

Foram três dias de pânico e terror. Yanaye Grema, um pescador nigeriano de 38 anos, foi uma das pessoas que sobreviveu ao sangrento massacre do grupo terrorista Boko Haram na cidade de Baga e conseguiu fugir. Antes, passou três dias escondido, enquanto os militantes do grupo de inspiração islâmica extremista dizimavam milhares de mulheres, crianças e idosos.

“Durante cinco quilómetros, não parei de andar no meio de cadáveres”, conta Yanaye à AFP, já depois de ter fugido de Baga e chegado a Maiduguri, cidade que, entretanto, foi também palco de um atentado terrorista, quando uma menina de 10 anos se fez explodir no mercado local e matou 19 pessoas.

Yanaye pertencia a um grupo de autodefesa de Baga que foi derrotado a 3 de janeiro pelo Boko Haram, que ali terá assassinado duas mil pessoas. Depois de desfeito esse grupo, o pescador escondeu-se entre um muro e a casa do vizinho, oculto por folhagem, onde ficou até lhe parecer que a situação estava mais calma. “Tudo o que eu ouvia eram tiros de armas de fogo, explosões, gritos, os ‘Alá Akbar’ [“Deus é grande”] dos combatentes do Boko Haram”, diz.

“Uns grãos de mandioca e água”

Para sobreviver os três dias naquele esconderijo, Yanaye só dispunha de alguns momentos para se alimentar. “Todas as noites eu subia o muro até minha casa para comer rapidamente uns grãos de mandioca e beber água, e voltava logo ao meu esconderijo”, relembra. Uma operação delicada, tendo em conta que alguns dos combatentes do Boko Haram tinham montado acampamento perto do mercado de Baga, a escassos 700 metros do local onde Yanaye Grema estava escondido.

Na segunda-feira seguinte, 5 de janeiro, o número de membros do Boko Haram nas redondezas começou a diminuir e, ao longo de terça-feira, os restantes combatentes estavam concentrados em pilhar e pegar fogo às casas abandonadas. Foi aí que o homem viu uma oportunidade para fugir. “Decidi que era tempo de partir antes que eles viessem na minha direção. Pelas 19h30, arrisquei sair do meu esconderijo e comecei a andar na direção oposta à do barulho dos islamistas. Estava escuro, ninguém me podia ver”.

Só nesse momento é que Yanaye se pôde aperceber completamente da dimensão do ataque. Baga, a última cidade do nordeste da Nigéria que ainda não estava sob controlo do Boko Haram, foi tomada, passando aquele grupo extremista a dispor de um importante bastião junto ao Lago Chade, para onde pelo menos dez mil pessoas terão fugido antes do ataque dos terroristas. Além das duas mil pessoas assassinadas, muitas, ao fugirem, afogaram-se enquanto tentavam atravessar o lago, enquanto um pequeno número terá conseguido chegar aos países vizinhos.

Na fuga, Yanaye encontrou-se com um membro da tribo Fula, que lhe indicou o melhor caminho para evitar dar de caras com o Boko Haram. Mais à frente, encontrou também um grupo de quatro mulheres fugidas de Baga, mas acabou por seguir sozinho até Maiduguri, onde chegou na quarta-feira. “Estou eternamente grato àquele velho Fula, o seu conselho salvou-me a vida”, resume.

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