Há quatro botões que se têm de controlar como a respiração: um serve para fazer um passe com a bola na relva, para o pé, outro com ela no ar, o terceiro equivale a um remate e o que sobra serve para atirar um passe para o espaço, para desmarcar um jogador. Estar de comando nas mãos, com uma playstation à frente e a olhar para um ecrã de televisão não é fácil. Mas dominar o que simula ser futebol não é tão difícil como jogá-lo na realidade. Traduzindo: vencer o Benfica num jogo de consola é mais fácil do que fazê-lo num relvado a sério.

Não era preciso Paulo Fonseca a sugeri-lo. “Aqui há uns tempos alguém disse que, para ganhar ao Benfica, só na playstation, disse, antes de a bola começar a rolar, ao recordar palavras que o próprio Jorge Jesus dissera, há anos, quando ainda treinava o Braga antes de ir mandar sobre os encarnados. Mas consolas não são com Paulo. “Eu nem jogos de computador jogo”, admitiu. Mal sabia ele que, durante toda a primeira parte, e fosse mesmo tudo na playstation, veria quem controlaria o Benfica a carregar muitas e muitas vezes no botão marcado com um “x”.

Paços de Ferreira: Rafael Defendi; Rodrigo Galo, Ricardo, Romeu Rocha e Hélder Lopes; Seri, Sérgio Oliveira e Vasco Rocha; Edson Paraíba, Minhoca e Cícero.

Benfica: Júlio César; Maxi Pereira, Luisão, Jardel e Eliseu; Samaris, Anderson Talisca, Salvio e Ola John; Jonas e Lima.

É esse, no comando, que serve para dar ordem de passe. Curto e pela relva. Foi isso, passes e mais passes, que os encarnados fizeram até ao intervalo. Na defesa nem precisavam de ter cuidado e a partir do último terço do campo é que Talisca, Ola John ou Salvio se distraiam. O Paços não estava encolhido, mas só pressionava depois de a bola cruzar a linha do meio campo e reservava alguns homens para a vigia a Jonas, o avançado que tem por hábito fugir dos defesas e pedir que lhe atirem a bola para o pé.

Escrito e feito aos 7’, mas dentro da área, quando o brasileiro apareceu a correr perto do primeiro poste e desviou a bola cruzada por Salvio, desde a direita. Não acertou na baliza. Mas aos 18’, também na área, acertaria no braço de Ricardo, central e capitão do Paços de Ferreira, quando tentou cruzar a bola para Lima. Era penálti e a oportunidade para a equipa embalar para uma vitória que, a confirmar-se, aumentaria para nove os pontos de vantagem para o FC Porto, na liderança do campeonato. Mas não. Lima colocou a bola no sítio, deu uns passos atrás antes de os voltar a dar para a frente e rematou a bola contra a barra.

Foi tempo de mais a carregar no botão com um símbolo quadrado, o do remate, pois o pontapé saiu com força a mais. E demais era também a confiança que a equipa de Jesus colocava ora em Salvio, ou Ola John, pois os restantes jogadores pouco se mexiam quando os extremos tinham a bola e deixavam-nos entregues à sorte de um drible contra um ou dois adversários ou de um cruzamento para a área. Mas aos 24’ uma dessas bolas cruzadas (pelo argentino) ia dando golo, após desviar no pé de um defesa e bater no poste esquerdo da baliza de Rafael Defendi.

Aqui o Paços acordou. A equipa pegou no comando e aprendeu a mexer nele. Sérgio Oliveira e Seri, a dupla do meio campo, começou a tocar mais na bola e a usá-la para, com passes pelo ar, tentar aproveitar a velocidade de Minhoca e Edson pelas alas. O Paços queria ter a bola, matutá-la e abusar do tempo para pensar o que lhe fazer. Mas a pressão encarnada obrigava-o a, lá está, jogar rápido. Começou a farejar a área e conseguir cantos. Oportunidade para tocar no botão com um círculo desenhado no seu interior — o que ordena cruzamentos.

E num canto lá criou perigo, aos 30′, quando Sérgio Oliveira atirou a bola para a área, Hélder Lopes a desviou de cabeça e Cícero, só com Júlio César entre ele e a baliza, na pequena área, viu o guarda-redes desviar a bola rematada pelo avançado. Parecia automático: o brasileiro saiu da baliza, agigantou-se e tapou caminhos, tal como na playstation, em que o guarda-redes é o único jogador que quem segura no comando não controla. Até ao intervalo, nada mais. A companhia da bola dividiu-se mais irmãmente entre as duas equipas e perigo foi coisa que não mais se aproximou das balizas.

Depois houve confusão. Não logo, pois aos 49’ ainda Sérgio Oliveira teve tempo e espaço, à entrada da área, para rematar a bola, com força, para as mãos de Júlio César depois de um passe de Edson. Só depois, lá está, veio a confusão. Ninguém se controlava com o comando nas mãos e parecia carregar em tudo quanto era botão. Viam-se muitos passes falhados, chutões para o ar, faltas a sucederem-se e cruzamentos mal medidos. Parecia que a bola queimava os pés de quem a tinha. Mas não a cabeça.

Pois a de Salvio, primeiro, e a de Lima, depois, voltaram aos 61’ a atirar a bola à barra de uma baliza: canto marcado por Talisca, o argentino desvia a bola perto do primeiro poste e o brasileiro, na pequena área, rematou-a contra a barra da baliza do Paços de Ferreira. Tanto aqui, como na playstation, seria azar. Mas não o que se passou aos 67’. Na consola não há treinadores expulso, mas na Mata Real houve a expulsão de Paulo Fonseca, após o treinador, com uns gritos e palavrões para o ar, protestar uma falta assinalada pelo árbitro Bruno Paixão.

Não foi isto que o Paços se desmontou. A equipa prosseguiu organizada, os jogadores juntos e, a defender, continuava a saber tapar bem os caminhos por onde a bola poderia passar. Jonas mal lhe tocava, Lima muito menos, e Talisca ou Samaris apenas serviam de passadores de bola atrás da linha do meio campo. Atacar com perigo era coisa rara, mas ainda deu para Hélder Lopes, na esquerda, cruzar a bola rasteira e ela só não encontrar Minhoca, do outro lado, porque Eliseu apareceu no meio.

Depois foi só Benfica. Aos 74’, depois de Maxi, Salvio e Pizzi inventarem duas tabelas entre eles, o português viu Talisca do outro lado do campo, para lá atirou um passe pelo ar e o brasileiro, solitário na quina da área, preferiu tentar rematar de primeira ao invés de dominar a bola. Saiu uma rosca. Na playstation isto não aconteceria. Aos 76’ seria Jonas, à entrada da área, a disparar uma bomba que rasou o poste da baliza pacense. Dez minutos depois, noutro canto, Derley rematou a bola bem por cima da baliza depois de Defendi a defender para a frente, após um remate de Lima.

Com dez minutos para o relógio contar os encarnados passaram a arriscar a sério: os dois laterais a atacarem nas mesmas jogadas, Samaris ia espreitar à área, Salvio e Talisca já não recuavam para defender e os passes já não se faziam pelo seguro. O Benfica tinha muita bola, mas quando a perdia o Paços já tinha espaço. Para quê? Contra-atacar. Aos 85′ só Luisão, vindo do nada e após cair na relva, impediu que Cícero concluísse um deles com um remate. Aos 89′ o Paços até tempo e espaço teve para transformar um contra em ataque calmo. Calmo até Ivan Hurtado e Sérgio Oliveira, na direita, inventarem uma tabela e Eliseu, que estava com o peruano, ficar parado, a olhar.

Hurtado passou, correu, Sérgio devolveu a bola, ela chegou ao peruano e o lateral do Benfica esticou a perna. Estava na beira da grande área e acabou por rasteirar o avançado do Paços. De início não se ouviu apito — até ao auxiliar avisar Bruno Paixão e o árbitro, aí sim, soprar no apito. Era penálti. E seria o 1-0, aos 90′, graças ao pontapé de Sérgio Oliveira. Soava o alarme. De repente, a organização e paciência do Paços dava frutos, o golo aparecia e o Benfica já perdia de vista os desejados nove pontos de avanço para o FC Porto. Aos 90’+3, no meio do desespero, ainda houve um cruzamento de Maxi ao qual Luisão não esticou a perna para tocar na bola, mesmo diante da baliza.

Luisão bem o disse no final: “Tivemos oportunidades para vencer o jogo.” Verdade. O Benfica rematou a bola três vezes aos ferros e teve outro par de remates que não acertaram na baliza quando deviam. O Paços preferiu a timidez à ousadia e manteve-se organizado, à espera que os encarnados arriscassem e se distraíssem. A equipa de Paulo Fonseca marcou na segunda oportunidade que teve em 90 minutos de bola a rolar, num penálti que castigou a imprudência de Eliseu. E o treinador lá tinha razão — não preciso de playstation para nada. O FC Porto, portanto, continua a seis pontos e o Sporting já está a sete.