As cestas não deixam adivinhar, a campanha muito menos, mas a história da Toino Abel pertence a uma longa linhagem de homens. À frente da marca está Nuno Henriques, de 30 anos, e o nome vem do avô, António – “o António do Abel”, como se dizia, e ainda se diz, em algumas aldeias onde os habitantes são sempre filhos dos seus pais, e não só no apelido. “Na verdade era o meu tetravô que fazia as cestas”, conta o empresário. “Pelo menos foi até onde conseguimos recuar, não sei se alguém antes dele já as fazia.”

Nuno cresceu com as malas de junco a serem feitas em teares, na aldeia de Castanheira, Alcobaça, mas chegou à idade adulta vendo os teares cada vez mais parados. “Gosto de tudo o que são técnicas ancestrais e trabalho manual, e tenho um fascínio pelo objeto em si, mas infelizmente via as cestas paradas num sítio, parecia que estavam entregues à morte.”

No ano em que o avô morreu, Nuno resolveu lembrá-lo com uma marca que salvasse do mesmo destino uma técnica tão antiga. “A Toino Abel nasceu porque acho que as cestas podem viver no mundo, com a ajuda da internet, e chegar a novos públicos.”

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Dos teares da Castanheira, as malas têm chegado a países tão remotos como a Nova Zelândia e a Austrália, através da loja online alojada na Etsy, e estão também em espaços físicos de cidades como Barcelona, Berlim, Londres e Porto, para além de já terem sido sugeridas na edição inglesa da revista Vogue. Há modelos tradicionais mas também em cores fortes ou com alças, para usar à tiracolo ou prender documentos, em coleções que têm o nome de igrejas da aldeia onde Nuno ainda vive: Santa Marta, Santa Rita, Senhora da Luz. Esse é o trunfo da marca: pegar numa herança tradicional, de ruralidade e nostalgia – quem não se lembra de levar a cestinha com o lanche para a escola? – e transformá-la num objeto de desejo do século XXI com um pormenor tão pequeno como um fecho em pele ou uma etiqueta onde um rapazinho (por sinal o pai de Nuno, quando era pequeno) carrega a sua própria cesta.

É tudo feito à mão por uma equipa pequena: Cidália Ricardo e Emília Pimenta começam por cortar molhos de junco com um machado, que dividem em fardos que são lavados, secos e branqueados numa arca com enxofre a arder. O junco é escolhido e dividido pauzinho a pauzinho. O que resiste e continua escuro é tingido em casa de Emília, em panelas que aquecem numa fogueira a lenha. Daí o junco passa para o tear, onde nascem os tamanhos e padrões das cestas, às riscas, ao xadrez, a fazer lembrar flores.

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“A Cidália benze-se antes de começar a tecer o junco”, diz Nuno. No final, Lurdes Rodrigues cose as diferentes partes, dando assim forma à cesta, e Fernando Sousa faz as asas com ramos de verga entrelaçados. “Têm de ficar mesmo no meio para a mala não ficar pingona”, diz.

Consciente de que tudo isto corre o risco de acabar se o ofício não passar para mãos mais novas, Nuno não se limitou a criar a marca e acabou de abrir uma oficina, também na Castanheira, onde a ideia é ensinar a técnica às gerações mais novas. De tetravô para tetraneto, e por aí fora.

Nome: Toino Abel
Data: A marca foi criada em 2010, mas começou a ser desenvolvida em 2013.
Pontos de venda: Etsy, Coração Alecrim, Sardinha Fresh
Preço: 28€-64,40€

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