“Tu abre-me bem esses olhos!”, costumamos dizer às pessoas que estimamos e que vemos que estão a ser imprudentes, ingénuas ou néscias, que vão tomar uma decisão errada, fazer um disparate, meterem-se numa alhada. Se a pintora americana Margaret Keane (Amy Adams, que tem uns lindos olhos, a propósito, e que o realizador aproveita bem) tivesse os olhos tão abertos como os das crianças tristonhas que pintava, teria percebido que o seu segundo marido, Walter (Christoph Waltz), não era boa rês. E que a estava a enganar quando a convenceu a manter como um segredo blindado entre ambos a verdadeira autoria das telas, e a assinar com o nome dele os quadros de meninos e meninas de olhos arregalados que, reproduzidos em massa e sob vários formatos, se vendiam como pãezinhos quentes nos EUA, nos anos 60.

É claro que se Margaret não fosse tão ingénua e tivesse percebido que o marido estava de má-fé e aberto bem os olhos, a sua espantosa história nunca teria acontecido e Tim Burton nunca teria realizado o filme “Olhos Grandes” (estreia-se hoje), que a conta com todos os efes e erres, e com uma abundante exibição de quadros de Margaret Keane, de quem o realizador é admirador desde novo, e coleccionador há bastantes anos, possuindo inclusivamente um retrato da sua ex-namorada Lisa Marie pintado por ela.

“Trailer” de “Olhos Grandes”

Escrito pelos mesmos argumentistas de “Ed Wood”, Scott Alexander e Larry Karaszewski, “Olhos Grandes” é um filme onde Tim Burton faz um refrescante feriado das paisagens fantásticas, da sua modalidade de terror gótico melancólico, da sua poesia lúgubre e mórbida, e de Johnny Depp. Aqui não há vampiros centenários, cães-Frankenstein, barbeiros degoladores, noivas-cadáver, terras de fantasia. Este é um filme com os pés bem assentes na realidade, sobre pessoas que existem. Se bem que as criancinhas com olhos invulgarmente grandes dos quadros de Margaret Keane (nome artístico de Peggy Doris Hawkins) tenham o seu quê de sinistro (há uma cena em que, quando está a fazer compras no supermercado, Margaret tem uma visão em que toda a gente tem olhos como os das personagens dos seus quadros), parecendo primas direitas das do clássico de ficção científica “A Aldeia dos Malditos”, de Wolf Rilla, adaptado do livro de John Wyndham.

Entrevista com Tim Burton

Se pensarmos bem, até existe um vampiro chupista em “Olhos Grandes”, embora não use capa, não tenha dentes aguçados, não se metamorfoseie em animais noctívagos nem escale paredes na vertical. É Walter Keane, o marido de Margaret, que durante anos se aproveitou da ingenuidade e da passividade da mulher para lhe vampirizar o talento, construir uma falsa reputação artística e engordar a conta bancária. Foi só em 1970, quando já estava divorciada dele, que a pintora decidiu libertar-se do jugo bem-falante e oleoso do ex-marido e vir a público reivindicar a autoria dos quadros, o que lhe valeu um processo em tribunal, de que viria a sair vencedora, e milionária (ainda hoje está viva, e pinta).

A verdadeira Margaret Keane fala

Tim Burton está mais interessado na insólita história de Margaret e Walter do que em fazer juízos críticos ou de valor sobre os dotes artísticos da pintora (mas lá vai gozando com os críticos de arte institucionais, na pessoa de personagem de Terence Stamp, e com os galeristas de vanguarda, dando assim uma “pontinha” a Jason Schwartzman), e também em registar, “en passant”, o início da reprodução e da comercialização maciça e multiforme de quadros, anunciando o advento da “pop art” e uma revolução no mundo da arte.

Tão grandes como os olhos das figuras representadas nas telas de Margaret Keane são as interpretações de Amy Adams (que tem uns lindos olhos, a propósito, e de que o realizador tira dividendos cinematográficos)  na pintora que viaja da candura algo provinciana e da credulidade temerosa , para a consciência plena da sua identidade, do seu valor e da sua autonomia (e isto sem que Tim Burton a transforme num qualquer cartaz proto-feminista ambulante), e de Christoph Waltz no marido a escorrer azeite de charme duvidoso, e descarado ladrão do nome e sanguessuga criativo da mulher.

Entrevista com Amy Adams

http://youtu.be/0ulBdqt98u8

Entrevista com Christoph Waltz

Tim Burton regressou, entretanto, ao seu “habitat”. Está a rodar “Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children” (ilha misteriosa, escola particular abandonada e fantasmagórica, antigos ocupantes e ex-alunos com estranhos poderes), com estreia marcada em Portugal para daqui a um ano.  A que se seguirá “Beetlejuice 2”, continuação de “Os Fantasmas Divertem-se” (1988), a sua segunda longa-metragem. Enquanto não estão prontos, é saborear este interregno de realidade que é “Olhos Grandes”.