O cirurgião italiano Sergio Canavero disse à revista New Scientist que o transplante de corpo inteiro será possível num futuro próximo. Para esclarecer: trata-se de transplantar uma cabeça humana de um corpo para outro. Tecnicamente o desafio é gigantesco e muitos especialistas dizem que não é possível (para já) executar, mas as questões éticas tornam este tema particularmente sensível.

O cenário é o seguinte: de um lado, um doente com uma doença terminal, e do outro uma vítima de morte cerebral. Transplantar a cabeça de um corpo para outro pode ser a salvação do primeiro paciente. O objetivo do médico italiano é então o de prolongar a vida a doentes terminais, mas afirmou que só o fará “se a sociedade assim quiser”.

A ciência segue muitas vezes por caminhos polémicos, a manipulação laboratorial de embriões é disso exemplo. Ao longo de anos foi motivo de acessos debates científicos, éticos e legais. Mas um transplante desta dimensão abre uma discussão completamente nova: como será viver no corpo de outra pessoa? Já é possível ter uma pista da complexidade do assunto com os exemplos de transplantes de rosto (pele) em grandes traumatizados. A reabilitação psicológica é demorada e nem sempre isenta de traumas de identidade.

Os problemas deste desafio são de ordem ética e técnica. Por um lado, os procedimentos cirúrgicos de transplante de corpo vão ter de começar por ser experimentados em macacos e logo aí o assunto será barrado pela maioria dos legisladores, como nota o The Guardian. Por outro, são muitos os cientistas que afirmam que ainda não se sabe como ligar de forma eficaz as células da espinal medula e que “não existe evidência que essa ligação permita restabelecer a função motora”, como explica Richard Borgens, diretor do Centro de Paralisia da Universidade de Purdue (EUA).

É que, biologicamente, o nosso cérebro está “programado” para desencadear funções motoras específicas para o nosso corpo e apenas para ele e essa aprendizagem demora muitos anos (veja-se o tempo que uma criança necessita para desenvolver o movimento corporal na sua plenitude). Os cientistas dizem não haver garantias de que o cérebro consiga comandar o novo corpo, caso o transplante seja tecnicamente possível.

O debate está lançado e a história parece ter sido tirada de um livro de ficção científica. Mas não: uma equipa da Universidade de Harbin, na China, já começou a testar o procedimento em ratos. Dizem que estão a aperfeiçoar a técnica cirúrgica e que este “será um marco histórico na medicina, capaz de salvar milhões de pessoas”.