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Rinus Michels estaria certamente capaz de bater palmas, onde quer que ele esteja. O pai da Laranja Mecânica — melhor treinador do século XX para a FIFA — terá apreciado esta versão aproximada de “futebol total” da equipa de Jorge Jesus. Foi um festival de movimentações e liberdades: ora Lima e Jonas aparecem junto às linhas, ora Pizzi surge perto da baliza, ou então é ver Samaris em todo o campo e ainda Maxi, vagabundo sem destino, na área adversária. Podem tudo, fazem tudo, a bem de um carrossel. Era isso que defendia Michels, com a bola sempre no centro do universo e com todos os jogadores à volta dela, desafiando a teoria de Galileu Galilei. O Benfica venceu o Estoril Praia por 6-0, com golos de Luisão, Salvio, Pizzi, Jonas (2) e Lima.

Em dia de 111.º aniversário, o Benfica ofereceu aos adeptos a sua melhor versão, algo raro este ano. Luisão, o capitão encarnado, foi quem lançou o mote, logo ele que igualava o histórico António Simões, com 447 jogos. O central brasileiro até tinha colocado um tweet antes do jogo com uma imagem curiosa (celebração do golo ao Sporting em 2005). O um-zero nasceu de um canto de Pizzi, aos 16′. Antes, Jonas já havia feito tilintar o poste direito da baliza rival.

O regresso de Gaitán parece ter conectado e alegrado os colegas. A dimensão e magia de um grande jogador sente-se, e inspira os demais, e foi isso que se viu na Luz esta tarde. O Estoril surgiu no relvado num misto de coragem e suicídio: não estava fechado, nem com o autocarro e aqui e ali estendia-se no terreno. Essa é a parte da coragem, a parte do suicídio diz respeito a essa postura ser a de uma equipa pobre de espírito, sem a qualidade e o coração de outros tempos. Ainda assim, o ataque com Tozé, Sebá e Kleber prometia assustar de vez em quando. Foi raro…

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O dois-zero chegou aos 25′. Pizzi, o comandante do meio-campo, com olhos de Enzo, lançou Lima na esquerda. O brasileiro olhou e a canhota obedeceu: cruzamento para Salvio, que ganhou a frente ao rival e encostou, 2-0. O Benfica estava naqueles dias em que dava um pontapé numa pedra e saía dali um drible, passe ou jogada com pinta. Estes foram, aliás, dez minutos mágicos para a equipa da casa: Salvio marcou aos 25′, Pizzi e Jonas seguiram-lhe o exemplo aos 32′ e 35′. O médio português, depois de uma bola rechaçada pela área canarinha, colocou com um remate de alto gabarito, 3-0; Jonas, que já havia enviado uma bola ao poste e obrigado Kieszek a uma enorme defesa, encostou depois de uma história de encantar entre Lima, Maxi, Gaitán e calcanhares ao barulho, 4-0.

Quatro-zero. O Benfica tinha feito em 35′ minutos o que fez em 90′ em dezembro de 1992, quando Vítor Paneira, Isaías (2) e Yuran varreram as aspirações do Estoril de Fernando Santos. A televisão captou, nas bancadas da Luz, Mário Wilson, que parecia dizer qualquer coisa que lhe dizia respeito a ele e à história. Pois bem, recuemos na lengalenga e tentemos situar… Et voilà! Em outubro de 1979, um hat-trick de Humberto Coelho e um golo de Jorge Gomes embalaram o Benfica de Wilson contra o Estoril de José Torres, um velho conhecido. Seria isso?

E o intervalo chegou, para alívio do Estoril e José Couceiro. O treinador vive dias difíceis e tem sido cada vez mais contestado, tanto no António Coimbra da Mota como nas redes sociais. As críticas têm subido de tom. Mas, e embora não pudesse contar os dois defesas centrais titulares, a imagem do Estoril foi (e é), de facto, pálida. Foi pobre, sem agressividade, nem coração. O Benfica liderava no resultado, posse de bola e nos remates: 4-0, 71%, 11-2.

A segunda parte, como era expectável, viu um travão dos atuais campeões nacionais. Continuaram a ver-se aqui e ali alguns calcanhares, boas combinações e desenhos interessantes, mas o Benfica abrandou. Respirou fundo o Estoril, que teria algumas oportunidades para fazer mossa. Mas o compromisso dos homens da casa com o golo manteve-se: o quinto da tarde chegou de penálti. Jonas sofreu, Lima assumiu e enganou Kieszek, 5-0.

Para complicar, Esiti, um médio muito interessante do Estoril, viu o segundo amarelo depois de cortar um drible de sola de Gaitán com a mão. Devido à demora do árbitro, fica a dúvida se a expulsão se deveu à mão ou a palavras. Seja como for, a vida ficava ainda mais complicada para o Estoril.

Os quase 47 mil adeptos teriam oportunidade de ver o Estoril criar perigo. Aos 78′, Bonatini surgiu na cara de Artur, mas o guarda-redes brasileiro teve direito também ele a alguns segundos de fama e desviou a bola para o poste. Curioso ver como o avançado só enganou a defesa do Benfica porque Jardel não respeitou a linha definida por Luisão. Ainda assim, é justo referir que este Jardel é outro jogador com tanta convivência ao lado do capitão das águias.

O pesadelo de Kieszek ganharia outra expressão aos 87′, cortesia de Jonas. Outra vez. Ola John foi lançado pelo lado esquerdo, entrou na área e chutou forte. O guarda-redes polaco defendeu, mas na recarga Jonas encostou e bisou, 6-0. Há dias assim, em que quase tudo sai na perfeição, até os ressaltos.

Ponto final no Estádio da Luz. Benfica venceu o Estoril por 6-0, afastando os fantasmas do mau futebol e das arbitragens, dando um valente murro na mesa do campeonato. Os encarnados não marcavam seis golos ao Estoril na Luz, para a Liga Portuguesa, desde 13 de fevereiro de 1977: Nené (2), José Luís, Nelinho (2) e Vítor Martins deram forma ao 6-1. A equipa de Jorge Jesus chega aos 59 pontos em 69 possíveis e ganha o direito a sentar-se confortável no sofá a ver o clássico entre FC Porto e Sporting agendado para amanhã.