António Costa acusou Cavaco Silva de estar a partir em defesa do primeiro-ministro no caso das dívidas à Segurança Social, pondo as culpas em cima dos partidos da oposição. “Estamos num ano eleitoral em que o Presidente da República tem especiais deveres de isenção e imparcialidade, e, por isso, quando fala, não pode agir como o comentador que diz que não é”, disse o líder socialista numa declaração à SIC, em reação às palavras de Cavaco desta tarde.

Foram declarações “muito infelizes”, disse Costa, afirmando que Cavaco Silva procurou hoje responsabilizar as forças políticas da oposição por algo que “é da exclusiva responsabilidade do primeiro-ministro”. Uma postura que vai contra o exercício das suas responsabilidades enquanto Presidente da República, atirou Costa, voltando a repetir o argumento que já tinha lançado ontem, na sua primeira reação ao caso de Passos Coelho, sobre o facto de o Presidente da República ter dado uma espécie de “imunidade política” ao primeiro-ministro.

“Como é que é possível? É muito infeliz da parte do PR, que tem de se centrar naquilo que lhe compete fazer que é presidir à República e não fazer oposição às oposições”, reforçou.

Esta tarde, à margem da comemoração dos 125 anos da Unicer, Cavaco Silva foi questionado pelos jornalistas sobre o caso de Passos que tem marcado a atualidade, resumindo-o a “lutas político-partidárias” em vésperas de “campanha pré-eleitoral”. Disse Cavaco que, enquanto Presidente, está “acima dos partidos” e não se mete em assuntos que são da “matéria dos comentadores políticos”. E pediu aos partidos da oposição para se concentrarem nos problemas do país e evitarem “crispações”.

“O que o Presidente da República fez hoje foi uma coisa muito infeliz, foi procurar desviar para as oposições o que é da responsabilidade exclusiva do primeiro-ministro”, disse Costa. “Não foi só justificar [a atitude do PM], foi procurar culpar os outros”, sublinhou.

Para Costa, que diz que o primeiro-ministro se tem escusado a dar respostas “prontas e cabais” sobre o caso, a “única questão política” que está em causa não são as lutas partidárias mas sim a necessidade de “saber se o primeiro-ministro tem autoridade para exigir aos portugueses o cumprimento dos seus deveres“, disse Costa, acrescentando que “não se trata de avaliar o cidadão Pedro Passos Coelho”, já que “não há nada mais repugnante na vida política do que transformar o debate político em julgamentos morais”.

Questionado pela jornalista sobre se o PS vai exigir a demissão de Passos, o líder socialista evitou uma resposta clara, dizendo que “essa resposta já está dada pela maioria, que o apoia na Assembleia, e pelo Presidente da República, que já lhe deu imunidade”. “Não é um bom caminho” e “é preciso parar este estado de coisas”, defende Costa, que, no entanto, põe nas mãos dos portugueses eleitores o poder de demitir o primeiro-ministro.

Sobre o facto de os partidos da oposição não estarem satisfeitos com as respostas dadas por Passos Coelho, o secretário-geral socialista disse esperar que o debate quinzenal com o primeiro-ministro que está marcado para a próxima quarta-feira no Parlamento possa ser o momento para “esclarecer tudo de uma vez por todas” e pôr uma pedra no assunto.