Mariana Monteiro discursa no palco. Coloca convicção na voz e fita o público enquanto vai espreitando os apontamentos que tem à sua frente. Não são os textos de uma nova novela. São frases do depoimento que preparou para que, ao chegar este dia, conseguisse passar a mensagem sem hesitações.

O depoimento inicial do debate “A Violência contra as Mulheres – Prevenção e Proteção” pertenceu à atriz que foi nomeada Champion da Igualdade de Género pela UN Women, no âmbito do projeto Beijing+20 — um projeto que assinala 20 anos da Plataforma de Pequim para a Ação, criada durante a Conferência das Nações Unidas sobre a Igualdade de Géneros.

Este é o segundo de quatro debates que a Assembleia Municipal de Lisboa está a organizar em todas as terças-feiras de março. O tema é a Erradicação da Violência Contra as Mulheres. Em casa semana, há um novo tópico para discutir. A iniciativa é uma proposta do PAN – Pessoas-Animais-Natureza, aprovada pela Assembleia Municipal de Lisboa. São convidadas associações, personalidades do meio académico e outras ligadas à causa para debater.

Os 26 anos de Mariana Monteiro fizeram dela a personalidade mais nova que discursou esta terça-feira no auditório do Fórum Lisboa. Mas a atriz já tem alguns carimbos no currículo da defesa da igualdade de género. Em 2009, participou numa campanha da CIG (Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género). O slogan: “De todos os homens que fazem parte da minha vida, nenhum será mais do que eu”.

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Deu a voz a uma campanha contra o tráfico humano e participou na Girl Summit, uma iniciativa do governo britânico para acabar com a mutilação genital feminina e com os casamentos forçados. Para ser nomeada uma das Champions, também contou a participação da atriz na série “Mulheres de Abril”, transmitida na RTP. “Os representantes das Nações Unidas classificaram a série de feminista”, conta ao Observador. E porquê? “Porque foi a primeira vez que se falou do 25 de abril sob um prisma feminino. A minha personagem diz à mãe: ‘vai ser bom, mãe. Nós vamos ter direitos, mãe. Nós vamos poder falar.'”

As Nações Unidas analisam atentamente o percurso das figuras que tencionam convidar para embaixadores, representantes ou outras distinções. Só depois chega o convite. Com Mariana não foi diferente, mas os desafios começam agora. A partir de agora há obrigações a cumprir. “Todos os meses tenho de fazer alguma coisa: pode ser um post nas redes sociais, uma entrevista, um vídeo, um debate, posso ir a uma escola. Posso fazer qualquer coisa, desde que promova este tema: a igualdade de géneros”. Mariana já tem coisas programadas para os próximos meses seguintes, mas “as ideias vão surgindo”

Dias antes, a atriz fez uma espécie de teste para perceber a quantas pessoas este tema chegaria. Partilhou com os fãs nas redes sociais que iria discursar sobre a violência contra as mulheres numa conferência. Depois, perguntou no Instagram: “Como encaram este problema? Quais consideram ser as melhores formas de prevenção?” No Facebook escreveu: “Acham o tema da violência contra as mulheres atual e socialmente preocupante? Que medidas devem ser implementadas para a prevenção do problema?” No Instagram, teve mais de 3,000 likes nesse post. No Facebook, teve mais de 6,800. No total teve mais de 200 comentários àquele assunto. “Se virmos, atingimos quase 10 mil pessoas sobre esta temática”, diz Mariana Monteiro. Uma prova de que as pessoas são próximas a estes temas.

Ainda assim, Mariana fez as contas quanto à proporção: 74% das pessoas que comentaram eram mulheres e 26% eram homens. “Gostava que os homens percebessem que eles são tão importantes nesta temática quanto as mulheres. Isso é que faz a igualdade”, considera a atriz.

Qual o balanço da sessão desta terça-feira? “Percebe-se que há uma necessidade de aprofundar a ligação deste tema com as escolas e promover uma sensibilização maior”, refere Helena Roseta, presidente da Assembleia Municipal de Lisboa. Considera que esta “é uma matéria prioritária e a Assembleia Municipal terá de se posicionar”. No final das quatro sessões, haverá um relatório final e “uma proposta política que depois é sujeita à aprovação dos deputados municipais”, adianta Helena Roseta.

Debater, conversar, fazer campanhas. “Por exemplo, no outro dia vi uma imagem que dizia ‘não diga à sua filha para não sair de casa, diga ao seu filho para ele se saber comportar'”, conta Mariana Monteiro. A violência contra as mulheres volta à discussão na próxima semana, em que o tópico se centrará nos processos judiciais. Na última semana, é a vez de pensar a monitorização e as conclusões no Fórum Lisboa.

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