Ariana estava prometida ao deus Larouco, mas a bela jovem deixou-se enamorar por um mortal – Valentim -, fazendo com que o deus ficasse furioso. O deus celta, de voz grave e ar severo, jurou vingança. “Tudo o que fizeres, a ti voltará, a triplicar.” A encenação que esta sexta-feira, 13 de março, se apresentou em Montalegre (Trás-os-Montes), representava a vingança do deus que deu nome à Serra do Larouco e dava continuidade à apresentação de 13 de fevereiro, também sexta-feira, quando Ariana e Valentim se apaixonaram. É assim todas as sextas-feiras 13 em Montalegre, um evento dedicado às bruxas e ao profano que reúne milhares de pessoas. “E se fosse verão seriam muitos mais”, comentavam os comerciantes enquanto as pessoas enchiam as ruas em direção ao castelo.

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O deus Larouco queria que Ariana sofresse tanto ou mais com uma traição, como ele tinha sofrido. A jovem, alheia à maldade do deus, fazia planos de amor eterno com Valentim. No palco, a felicidade do amor dos dois jovens era representada com as cores e a música, a dança das flores ou as acrobacias de um pássaro. Mas o deus Larouco tinha enviado uma figura feminina para seduzir Valentim, que se deixou enfeitiçar pelos encantos desta mulher, tão tentadora como a serpente que ofereceu a Eva a maçã do pecado. Na encosta do castelo, a audiência observava com expectativa o desenlace desta história.

São cada vez mais aqueles que acorrem a Montalegre para assistir ou participar nos festejos de sexta-feira 13, que começam às 13h13. Pelas ruas ouve-se que chegam a ser 40 mil pessoas, mas esta noite fria convidou menos gente. Esta noite de bruxas é inspirada no Halloween norte-americano, mas é celebrada nas sextas-feiras 13. Só este ano, são três. Começou com um jantar de bruxas numa destas “noites de azar”, mas o sucesso levou a que a Câmara Municipal de Montalegre a estende-se a outros restaurantes, explica David Teixeira, vice-presidente da autarquia. Há quem conte que a primeira vez foi numa sexta-feira 13 que coincidiu com o Congresso de Medicina Popular em Vilar de Perdizes, um evento que junta ervas medicinais, mezinhas e rezas, bruxas, curandeiros e charlatães. Mas a história da origem desta festa das bruxas, tal como as lendas da região, vai variando conforme quem a conta.

David Teixeira conta que o sucesso foi tanto e tão crescente que a Câmara Municipal sentiu necessidade de tirar as pessoas dos restaurantes para as ruas. Há mais de 10 anos, desde o início dos anos 2000, que a cidade se veste a rigor. À chegada foi possível encontrar as rotundas cheias de bruxas gigantes, vassouras de giesta e lápides de sepulturas. Nos restaurantes, hotéis e lojas multiplicavam-se as decorações que fazem lembrar o Halloween: gatos pretos, chapéus de bruxa, morcegos, aranhas e teias. Segundo disse ao Observador Orlando Alves, presidente da Câmara de Montalegre, os 150 mil euros investidos na preparação da festa são largamente compensados pelos cerca de 1,5 milhões de euros faturados pelos comerciantes. Os restaurantes ficam com a lotação esgotada nestas noites e os hotéis do concelho já estão esgotados nas sextas-feiras 13 até 2017.

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Quando Ariana percebeu que o amante se tinha deixado encantar por outra mulher encheu-se de fúria, deixou-se consumir pelo fogo da vingança e jurou ódio eterno aos homens. Ao ver como o mal tinha transformado a doce Ariana, até o magoado deus Larouco se arrependeu da severa vingança que impôs. “O mal está presente em todos nós e a qualquer momento desperta”, dizia o deus referindo-se à jovem transformada. Felizmente, o concelho de Montalegre e todos os que o visitam podem contar com o Padre Fontes para afastar o mal. António Lourenço Fontes, de 75 anos, foi pároco em muitas aldeias da região barrosã e é um dos promotores do evento desde o primeiro jantar. “Sinto-me no Paraíso entre deuses e demónios”, disse durante o espetáculo, enaltecendo o “deus Larouco que nos une a todos”. Sem que as “bruxas que voam a cavalo nas suas giestas” o atrapalhassem, o Padre Fontes começa o esconjuro enquanto prepara a Queimada – uma bebida aquecida de sabor adocicado e consistência de licor, feita com aguardente, fruta e grãos de café. “São mais de mil litros de Queimada”, disse Orlando Alves, para servir a todos os presentes.

Excerto do esconjuro do Padre Fontes na sexta-feira, 13 de março, em Montalegre

ESCONJURO DO PADRE FONTES, O BRUXO-MOR

Sapos e bruxas, mouchos e crujas,
demonhos, trasgos e dianhos,
espíritos das eneboadas beigas,
corvos, pegas e meigas,
feitiços das mezinheiras,
lume andante dos podres canhotos furados,
luzinha dos bichos andantes, luz de mortos penantes,
mau olhado, negra inveija,
ar de mortos, trevões e raios,
uivar de cão, piar de moucho,
pecadora língua de má mulher
casada cum home belho.
Vade retro, Satanás,
Prás pedras cagadeiras!
Lume de cadávres ardentes.
mutilados corpos dos indecentes peidos de infernais cus.
Barriga inútil de mulher solteira,
miar de gatos que andam à janeira,
guedelha porca de cabra mal parida!
Com esta culher levantarei labaredas deste lume,
que se parece co do Inferno.
Fugirão daqui as bruxas,
por riba de silbaredos e por baixo de carbalhedos,
a cabalo na sua bassoira de gesta,
pra se juntarem nos castelos de Montalegre.
Oubide! Oubide
os rugidos das que estão a arder nesta caldeira de lume.
E cando esta mistela baixe polas nossas gorjas,
ficaremos librés de todo o embruxamento
e de todos os males que nos atormentam
e deste frio que nos arrefece.
Forças do ar, terra, mar e lume,
do Larouco e do Gerês,
a vós
requero esta chamada:
Se é verdade que tendes mais poder
que as humanas gentes,
fazei que os espíritos ausentes dos amigos que andam fora
participem connosco desta queimada!

O padre católico sempre se mostrou interessado pelas tradições populares, lendas e medicina popular – para a qual promove o congresso anual em Vilar de Perdizes. Percebeu que eram as raízes das tradições pagãs que ajudavam o povo barrosão a enfrentar a vida dura nos montes e achou que não podia ficar indiferente enquanto o povo sofria. O Padre Fontes participa nestes eventos populares que promove para alertar as pessoas para terem cuidados com bruxas, curandeiros e charlatães. Mistura o sagrado e o profano, mesmo que a Igreja Católica mostre por vezes o desagrado com a situação. Fica no ar a expectativa sobre o que se passará no próximo ano em que a sexta-feira 13 calha em maio, no dia da Nossa Senhora de Fátima.

A Queimada, já a mãe do Padre Fontes a fazia. Na Galiza também existe uma bebida semelhante à base de aguardente, mas a receita que serve o esconjuro das sextas-feiras 13 difere dos restantes. Terminado o esconjuro e servida a Queimada, o fogo-de-artifício marca o fim da apresentação na encosta do castelo. Mas nas ruas de Montalegre a festa continuou até o sol raiar, completamente alheia ao frio que se fazia sentir.

O Observador esteve em Montalegre a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos e contou com a colaboração do Município de Montalegre.

Texto: Vera Novais
Fotografia: Lara Soares Silva