Justiça / Caso José Sócrates Seguir O que levaria Santos Silva a emprestar dinheiro a Sócrates, "potencial insolvente"? Amizade não é, certamente Para os juízes que recusaram o recurso do ex-primeiro-ministro, está-se perante um "milagre de altruísmo" se Santos Silva emprestou dinheiro a Sócrates. Mas não acreditam nisso. João Pedro Pincha Texto 19 Mar 2015, 09:02 942 i ▲Tribunal da Relação considerou "completamente descabida" a ideia de que os direitos do ex-governante foram violados AFP/Getty Images ▲Tribunal da Relação considerou "completamente descabida" a ideia de que os direitos do ex-governante foram violados AFP/Getty Images “Completamente inaceitável”. É assim que o Tribunal da Relação de Lisboa vê o argumento da defesa de José Sócates de que os empréstimos de Carlos Santos Silva ao ex-primeiro-ministro eram motivados unicamente pela amizade que une os dois. O jornal i traz na sua edição desta quinta-feira algumas passagens escolhidas do acórdão da Relação que determinou a recusa do recurso apresentado por Sócrates, na terça-feira, e aí é destrinçada exaustivamente a estratégia de defesa de Sócrates. De acordo com o i, os dois juízes desembargadores do Tribunal da Relação manifestam dificuldade em entender a amizade entre Sócrates e Santos Silva. “Diríamos, amizade sim, porque não? Mas tanto assim, também não! E amizade assim, por que razão? O arguido Carlos é um empresário, um homem de negócios. Até pode ser uma pessoa altruísta. Mas é empresário, vive de e para o dinheiro, para o reproduzir, multiplicar e ter lucros”, lê-se.Mais à frente, escreve o matutino, sempre a citar o acórdão:“Qualquer cidadão normal ficaria estupefacto perante o deslumbre de tanto dinheiro dito ’emprestado’ mas afinal sem intenção de retorno. Um verdadeiro milagre de altruísmo pelo amigo!”Nesta passagem está sobretudo em causa o facto de Sócrates nunca ter pago a Santos Silva os montantes que este alegadamente lhe emprestava. E aqui põe em causa as motivações do empresário. “O certo é que, seguramente, não deveria ter muito gosto ou interesse em correr riscos de investimento elevados, mesmo que por amizade, ainda por cima envolvendo uma pessoa como o arguido José Sócrates, que, a ser verdade não ter outro património, então seria um potencial insolvente”Ora, se Sócrates era um “potencial insolvente” e não era amizade o que levava Carlos Santos Silva a emprestar dinheiro ao ex-primeiro-ministro, ficam justificadas, no ponto de vista da Relação, as suspeitas sobre práticas ilegais. “Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vêm”, escrevem os juízes desembargadores Agostinho Torres e João Carola. Perigo de fuga a curto prazo não, mas…No acórdão, a Relação defende a tese de que o juiz Carlos Alexandre, do Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa, atuou de acordo com a lei quando determinou a prisão preventiva a José Sócrates, em novembro passado. Segundo o i, que cita o documento, é “completamente descabida” a ideia de que os direitos do ex-governante foram violados, dado que, em novembro, Sócrates foi imediatamente confrontado pelo juiz com as suspeitas que o Ministério Público tinha sobre si.E as motivações alegadas por Carlos Alexandre para essa medida de coação também colhem apoio junto da Relação. “A colocação do arguido em liberdade poria em sério risco a investigação”, concluem os redatores do acórdão, concordando que havia um perigo real de Sócrates poder perturbar o decorrer do processo, como aliás já havia feito quando escondeu um computador na casa de uma vizinha.Quando Carlos Alexandre aplicou a prisão preventiva a Sócrates, foram invocados os argumentos de perigo de perturbação da investigação e de perigo de fuga. Apenas este perigo de fuga é que carece de mais fundamentação, alega a Relação, que no entanto admite que tal pudesse acontecer, ainda que não imediatamente.“Ao arguido são conhecidas e públicas excelentes relações políticas em África e, sobretudo, no Brasil e Venezuela”, escrevem os desembargadores, lembrando que Sócrates tem “manifesta capacidade intelectual e de relacionamentos multifacetados”, pelo que não lhe seria difícil fugir para o estrangeiro, caso quisesse. Ler mais Tribunal da Relação arrasa Sócrates no acórdão a que o i teve acesso Factos, dúvidas e contradições do caso Sócrates