A Igreja chama-lhe “evento prodigioso”, os crentes mais fervorosos chamam-lhe “milagre”. Em três dias específicos no ano, o sangue de São Januário liquidifica-se. Este sábado, o fenómeno parece ter-se repetido, mas com uma particularidade: deu-se nas mãos do Papa Francisco – a primeira vez desde 1848 que acontece na presença de um Papa.

O fenómeno não tem uma explicação científica clara e a própria Igreja é cautelosa na forma como o aborda. Januário, que viveu no século III, é considerado santo e é o padroeiro católico de Nápoles, cidade que Francisco visitou este sábado durante algumas horas. Uma pequena quantidade de sangue, que se diz ser de Januário, está guardada num relicário na catedral napolitana, em estado sólido, só se tornando líquido em três ocasiões anuais: no primeiro domingo de maio, a 19 de setembro (festa do santo) e a 16 de dezembro.

Este sábado, pela primeira vez em 167 anos, metade do sangue guardado no pequeno recipiente liquefez-se depois de o Papa o ter beijado. A última vez tinha sido em 1848, nas mãos de Pio IX, quando o chefe da Igreja Católica se viu obrigado a fugir de Roma e se refugiou em Nápoles. “São Januário quer bem ao Papa”, declarou o cardeal Crescenzio Sepe, depois de Francisco ter visto metade do sangue a boiar. O Papa, por seu turno, brincou com a situação: “Vê-se que o santo me quer bem pela metade.”

O fenómeno da liquefação do sangue de São Januário não ocorreu quando os Papas Bento XVI e João Paulo II visitaram Nápoles, em 2007 e 1979, respetivamente. Para os católicos napolitanos, o acontecimento está carregado de simbolismo, uma vez que o consideram como sinal de boa sorte. Quando não acontece, temem que algo mau aconteça.

A primeira liquefação documentada do conteúdo do relicário deu-se em 1389 e, desde aí, tem sido alvo de muita especulação e pesquisa científica. Em 1902, comprovou-se que havia oxiemoglobina, um componente do sangue, no recipiente. Em 1991, um comité de análise de fenómenos paranormais tentou explicar a liquidificação com um processo chamado tixotropia, através do qual uma qualquer substância pode passar do estado sólido ao líquido abanando o recipiente em que se encontram. Mas também essa teoria foi posta em causa.

No encontro em que este “prodígio” se deu, Francisco esteve reunido com padres, diáconos e religiosas, a quem alertou para os perigos da bisbilhotice. Já antes, o Papa se tinha mostrado preocupado com o desemprego jovem e com a Máfia, que em Nápoles tem uma grande influência.