Dizem que o dinheiro não traz felicidade, mas a verdade é que a falta dele também não. Foi com base nesta ideia que o jovem norte-americano Dan Price, presidente executivo da empresa Gravity Payments, resolveu revolucionar as práticas salariais da empresa que fundou em Seattle há mais de dez anos. E tomou uma decisão: aumentar nos próximos três anos o salário de todos os seus trabalhadores para 70 mil dólares anuais (cerca de 66 mil euros por ano, mais de 5 mil por mês).

Como? Cortando o seu próprio salário, que passa assim de um milhão de dólares igualmente para o patamar dos 70 mil.

Tudo começou quando leu um artigo sobre felicidade, que dizia basicamente que para as pessoas que ganhavam menos de 70 mil dólares anuais, um dinheiro extra fazia uma grande diferença nas suas vidas.

E tomou a decisão. A notícia foi recebida pelos seus 120 colaboradores primeiro com um pesado silêncio de incredulidade, depois com uma onda de euforia por parte da maioria. É que, segundo o porta-voz Ryan Pirkle, o salário vai duplicar para 30 pessoas e aumentar para cerca de 70. A média dos salários era, até aqui, de 48 mil dólares por ano.

A ideia, diz, é fazer com que os seus colaboradores tenham a possibilidade de viver o velho ‘sonho americano’, comprar casa, constituir famílias, e poder providenciar uma boa vida e educação para os filhos.

Mas a forma de concretizar a ideia simples é que foi mais complicada. “Deixou-me realmente nervoso”, admitiu, porque tinha de encontrar uma solução que não passasse por aumentar os preços dos serviços aos clientes nem diminuir a oferta. Por isso a solução de cortar o seu próprio salário durante os próximos anos foi a que lhe “pareceu mais justa”.

Se tudo correr como previsto, só terá de manter o seu salário em baixo até a empresa voltar aos lucros que tinha antes do aumento salarial, que espera que leve apenas três anos.

Se foi um golpe de publicidade, está a dar certo, já que a notícia do anúncio depressa correu mundo, mas também lhe vai custar caro. Dan Price, que fundou aquela empresa de processamento de pagamentos com cartão de crédito há mais de dez anos, quando tinha apenas 19, além de se preparar para cortar o seu próprio salário milionário vai ainda ter de usar cerca de 75 a 80% do valor que foi antecipando como sendo o provável lucro da empresa este ano (2.2 milhões de dólares).

“Os salários estabelecidos no mercado para mim enquanto CEO [diretor executivo] em comparação com os estabelecidos para um funcionário são ridículos, são absurdos”, terá dito, citado pelo New York Times, o jovem de 30 anos que conduz um Audi com 12 anos e que diz que as suas principais extravagâncias são fazer snowboard e pagar a conta da mesa toda no bar ou no restaurante.

Certo é que os Estados Unidos têm uma das maiores diferenças salariais entre chefias e funcionários, com os gerentes de topo a ganharem cerca de 300 vezes mais do que os trabalhadores regulares.