O ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, disse esta quinta-feira que foram os parceiros europeus que impediram Atenas de já ter começado a legislar as “muitas reformas” necessárias, por exigirem primeiro “um acordo mais amplo”. E sublinhou que só assinará esse um acordo se for no sentido de garantir a sustentabilidade da economia.

“Até agora não se aplicou nenhuma das reformas que temos previsto, porque os parceiros querem primeiro um acordo amplo e completo e consideram que qualquer legislação constituiria um ato unilateral, e portanto um ‘casus belli’, disse, numa conferência organizada em Atenas pelo semanário ‘The Economist’, acrescentando que os credores recusaram desde o primeiro dia a proposta de “negociar” e “legislar” paralelamente, uma ação, que defendeu, teria servido para ir criando a confiança de que a Grécia não tem entre os parceiros europeus.

Yanis Varoufakis sublinhou ainda que a Grécia está decidida a reformar “tudo” no país, defendendo que se o país “não se reformar afundar-se-á”. Contudo, Varoufakis garante que não assinará qualquer acordo que “não seja consistente em termos macroeconómicos”, “sustentável” e que suponha regressar aos erros do passado, ou seja, aceitar condições de que “nunca” se podem cumprir e vão contra o crescimento económico.

O erro do passado, afirmou, foi que em cada negociação se olhava unicamente para o que “se devia fazer para conseguir o próximo desembolso do resgate” em lugar de procurar soluções para a recuperação económica. “O que precisamos é de investimento e reconstruir o fluxo do crédito, sobretudo, às empresas com orientação exportadora, e uma ampla reforma do Estado”, sublinhou.

Neste contexto, Varoufakis propôs a criação de um banco de investimento grego ao qual fluam fundos procedentes de propriedades estatais e de empresas privadas, que cooperem com as entidades correspondentes a nível europeu, como o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento ou o Banco Europeu de Investimento. A Grécia também precisa de “uma reforma do sistema do IVA, – não simplesmente das taxas -, do sistema de pensões, da administração fiscal, (…) para ser preciso precisamos de reformar tudo”, disse.

O ministro lamentou que não se tenha chegado a um acordo “interino” em finais de abril, como tinha ficado acordado na reunião do Eurogrupo de 20 de fevereiro, mas mostrou-se esperançado de que até junho se possa alcançar um amplo compromisso com as instituições (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional).

E mostrou-se igualmente esperançado de que o Banco Central Europeu adie o reembolso de cerca de 27 mil milhões de euros de dívida grega que detém. “É tão simples, o reembolso destas obrigações deve ser adiado. Também é claro para o BCE”, declarou o ministro.

Com as obrigações que tem em carteira, o BCE detém cerca de 27 mil milhões de euros de dívida pública grega e em janeiro Benoit Coeure, um dos diretores do BCE, advertiu que estava fora de questão qualquer alteração dos prazos de reembolso das mesmas. Em julho e agosto, Atenas deve reembolsar mais de seis mil milhões de euros ao BCE, recordou Varoufakis.

Num debate depois de ter proferido o discurso, Varoufakis negou-se a fixar uma data para o fim da liquidez do Estado e recusou ter dito que esta ocorreria nas próximas semanas, como lhe atribuíram alguns meios. “Nunca disse que temos duas semanas, o problema é que alteram sempre o sentido das minhas palavras. O que disse é que a liquidez é um problema, e imediatamente depois à pergunta de quando é que haveria um acordo respondi no prazo de duas semanas”, explicou.

Antes, falando no Parlamento grego, Varoufakis já tinha dito que a intenção é “concluir o programa de resgate o mais rápido possível”, mas deixou claro que não pode ser a todo o custo, nem a toda a pressa: “É realmente difícil assinar um acordo à volta de centenas de questões duvidosas que irão prejudicar o país”, disse.