Qual é a primeira coisa que ensina aos seus alunos?, perguntamos-lhe. Ela sorri levemente. “Falo-lhes sobre as portas da casa de banho. Cada aula dura três horas, por isso faço um intervalo a meio. Na altura da pausa digo-lhes: descansem um pouco, podem ir à casa de banho. Se forem à casa de banho, depois de entrarem pela porta, pensem em como sabiam em que porta entrar. A maioria de nós nem sequer pensa duas vezes em que porta entrar. Entra e pronto. Mas as casas de banho balizam e definem o género. Faço este exercício para os fazer pensar sobre a evidência do género. As casas de banho são um elemento preocupante para as pessoas transgénero, por exemplo. Se entrarem na casa de banho que os outros consideram a errada, podem ser importunados e violentados pelos outros.”

São os alunos de Estudos de Performance e Análise Social e Cultural na Universidade de Nova Iorque (EUA) que são desafiados pela professora Ann Pellegrini. A investigadora de 51 anos esteve em Portugal pela primeira vez para dar a conferência “Sex, Sacrilege and the trouble with performance”, integrada no festival Gender Trouble. O ciclo de performances, espetáculos e conferências assinala os 25 anos da publicação do livro “Gender Trouble. Feminism and the Subversion of Identity” da filósofa e professora Judith Butler, que estará também em Portugal a 2 de junho.

O Teatro Maria Matos é o palco de desconstruções sobre a política de género, reflexões sobre o corpo, sobre o feminismo e sobre as concepções ligadas à comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero). Esta terça-feira foi a vez de Ann discutir com a plateia, ela que é também diretora do Centro de Estudos de Género e de Sexualidade da mesma universidade. Antes disso, sentou-se com o Observador.

Primeiro, o que é significa exatamente a palavra “performance”?

“A palavra performance comporta comportamentos ou expressões, como escolher a casa de banho. É a performance que traduz o género, porque entras numa porta que ou diz “mulheres” ou “homens” e foste ensinada/o desde muito cedo em que porta entrar. Nós sabemos em que porta entrar e como agir quando entramos no ‘sítio certo’. Performance tem a ver com pormenores, como a forma como cruzas as pernas ou deixas as pernas abertas. Performance inclui representar algo e depende muito dos ‘guiões sociais’ sobre os quais vivemos”.

Ann Pellegrini escreveu o livro “Love the sin: sexual regulation and the limits of religious tolerance”, em conjunto com Janet R. Jakobsen. Traduzindo, Ann pede-nos para amar o pecado. O pecado não é uma coisa má? “Há uma expressão em inglês que diz ‘ama o pecador, odeia o pecado’. É uma ideia muito cristã e católica. Tu amas a pessoa que está a cometer uma falha, embora condenes aquilo que ela fez”, explica a autora.

“O título ‘Love the sin’ (ama o pecado) é uma resposta para as pessoas perceberem que é preciso criar espaço social para as pessoas serem diferentes. Para serem mulheres, para serem homossexuais, para serem negros. Tens de lhes permitir que eles tenham espaço na sociedade. As mulheres não têm de se conformar com os padrões masculinos de liderança, os negros não têm de agir como se fossem ‘brancos’ para conseguirem aceitação social. O título ‘ama o pecado’ é uma chamada de atenção. É uma sátira a essa ideia católica de condenar o ato que foge da norma, de proclamar que não há lugar para quem age de forma diferente.

Ser diferente é um risco?

“Claro que sim. Normalmente quem é diferente é punido por isso. A diferença assusta as pessoas. Nós não nascemos a saber o que é diferente. Nós nascemos como um conjunto de células, dependentes dos nossos cuidadores (seja família ou outras pessoas muito próximas) e somos depois ensinados a perceber que ‘eu sou uma pessoa diferente daquela pessoa que está ali’. Aprender a diferença é sempre assustador porque envolve perda. Nós percepcionamos a diferença como algo ameaçador que se expõe e que se projeta em corpos, grupos e identidades que marcam a diferença no contexto social. Expõem a vulnerabilidade, expõem o risco, expõem o sentido de perigo enquanto representações da diferença.

Como é que a religião afeta a nossa sexualidade?

“Vamos focar-nos na visão da Igreja Católica sobre a homossexualidade, o sexo fora do casamento ou até mesmo as narrativas bíblicas. Há muito a impressão de que a religião representa lições morais obsoletas, que propaga a ideia de que a sexualidade é ‘uma coisa moderna’ e de que é a religião que afasta as pessoas da liberdade. Mas a religião não tem a ver só com repressão. Há muitas pessoas que pertencem a grupos de fé que apoiam causas feministas ou relacionadas com a comunidade LGBT, ou que são muito ativas em movimentos que lutam pela justiça social. Ou seja, religião e sexualidade não são opostos. Há pessoas que são LGBT e religiosas e até vivem a religião como algo que lhes dá um equilíbrio e lhes permite organizar o seu interior e a sua vida tal como o desejo e a sexualidade. Acho que é possível haver alguma sobreposição, algumas camadas, no que toca à sexualidade e ao género.”

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Então o que é que define a nossa sexualidade?

“Acredito que a nossa sexualidade é construída socialmente. É um produto da cultura e a cultura é muito plural. O significado da sexualidade ou como é que a identidade sexual está dividida são questões diferentes de cultura para cultura. Em Portugal as questões da sexualidade estão estruturadas de uma forma diferente do que nos EUA, por exemplo. As noções ocidentais de sexualidade não são todas iguais. Há especificidades culturais de cada espaço que são parte daquilo que a construção da sexualidade significa. A sociedade define o significado das nossas experiências sexuais. Diz-nos como devemos experienciar aquilo que estamos a fazer com o nosso corpo, como é que isso é entendido.”

Ann Pellegrini conta 51 anos de vida e quase 20 de professora. Num exercício de memória, destaca diferenças daquela altura em que, com vinte e poucos anos, começou a questionar assuntos que não eram habituais. “Eu estudei em Harvard e, na altura, não havia nada relacionado com estudos sobre as mulheres ou sobre a condição feminina. Então decidi organizar aulas onde pudessem participar pessoas ligadas ao feminismo”, conta-nos. E conclui: “na altura, por exemplo, as pessoas nem pensavam em assumir a sua orientação sexual porque tinham um medo terrível de perder o emprego. Hoje já chegámos a um nível de ‘segurança’ que antes não existia”. Até 24 de junho, há Gender Trouble para discutir no Teatro Maria Matos, em Lisboa.