Proprietários de pequenas e médias explorações agrícolas do distrito de Aveiro promoveram esta sexta-feira uma marcha lenta de tratores, apelando à regulação urgente da produção de leite e carne para evitar o fim da “soberania alimentar portuguesa”.

Organizado pela ALDA – Associação de Lavoura do Distrito de Aveiro, o protesto teve início em Ovar com cerca de 20 veículos e terminou com perto de 40 em Aveiro, onde os manifestantes entregaram à Direção Regional de Agricultura e Pescas do Centro uma carta-aberta alertando para as consequências negativas do fim das quotas leiteiras.

“Na marcha do ano passado o preço do lei estava a uns 37 cêntimos por litro e agora já está a 27”, realçou Albino Silva, presidente da ALDA. “Ao consumidor final o preço até aumentou, mas para nós, descontados os custos de produção, este preço já começa é a dar prejuízo”, afirmou.

Lembrando que desde a adesão à União Europeia, Portugal passou de 35.000 explorações leiteiras para as atuais 1.500, Albino Silva realçou que o que está em causa atualmente é assim “a própria soberania alimentar portuguesa”.

Contestando que a reforma da Política Agrícola Comum tenha sido um sucesso, este responsável defendeu que o programa “foi é uma desgraça que visou a liquidação de milhares de explorações leiteiras”.

“Como é que podem dizer que correu bem quando, ao preço a que nos pagam, o leite está mais barato do que a água?”, questionou o agricultor Domingo Dias. “Está mais barato do que a água com a diferença de que não sai das fontes”, ironizou.

O eurodeputado da CDU Miguel Viegas, que integra a Comissão da Agricultura do Parlamento Europeu, acompanhou o protesto e notou que ao problema do fim das quotas acresce o do embargo da Rússia aos produtos europeus, o que vem diminuindo as exportações de leite.

“O embargo russo foi uma medida política e os agricultores não têm que pagar por isso”, explicou. “A situação já era difícil o suficiente com o fim das quotas leiteiras, que, ao liberalizar a produção, vai esmagar ainda mais os pequenos e médios produtores, portanto é preciso adotar medidas imediatas para compensação do embargo russo e pensar em mecanismos alternativos de regulação da oferta”, declarou.

No mesmo contexto, Albino Silva argumentou que a falha das políticas europeias foi “não terem acautelado a realidade de cada país”. E acrescentou: “A própria Comissão Europeia veio dar-nos razão, ao dizer que não tinham sido acautelados os interesses de todos os produtores e que não se podia permitir preços abaixo do custo de produção”.

José Lobato, presidente da Associação Portuguesa de Produtores de Leite e Carne, também aderiu ao protesto da ALDA, anunciando o lançamento de uma campanha de sensibilização do consumidor final, que diariamente adquire leite sem o devido conhecimento das dificuldades associadas ao seu processo de produção e comercialização.

“A situação vai ser para piorar”, antecipou. “Começaram por arrasar a produção no interior do país, depois acabaram as pequenas explorações e agora são as médias. A seguir vão desaparecer as grandes, que até eram viáveis, mas vão ser ‘comidas’ pelas grandes empresas de outros países”, concluiu.

Na carta que a ALDA dirigiu à Direção Regional de Agricultura e também à Presidência da República, ao Ministério da Agricultura e ao Parlamento, os agricultores reivindicam “a regulação pública urgente da produção do leite, o fim da especulação relativa ao preço dos fatores de produção, mais apoio na sanidade animal (…) e o fim da ditadura comercial dos hipermercados, para mais segurança e melhores preços no escoamento dos produtos”.