Os controlos de capitais conseguiram estancar a sangria de depósitos dos bancos gregos, pelo menos, para já, mas a situação é grave e, mantendo-se o impasse com os credores, os bancos podem não ter capacidade para abrir na terça-feira, segundo fontes do sistema bancário grego ao Observador. O Governo tem dado indicação que os controlos serão levantados após o referendo, mas isso pode não ser possível.

Os bancos gregos estavam a perder depósitos desde dezembro, ainda estava a Nova Democracia de Antonis Samaras à frente do Governo grego, em coligação com o PASOK, mas as últimas semanas têm sido dramáticas. Até meados de junho, o banco norte-americano Citigroup estimava que tivessem saído do sistema bancário grego mais de 40 mil milhões de euros em depósitos. Só no sábado, depois do anúncio do referendo, algumas notícias davam conta de mais de 1,5 mil milhões de euros de depósitos a saírem dos bancos gregos.

Os receios da população com os rumores da imposição de controlos de capitais acabaram por se confirmar, depois de sucessivos desmentidos do Governo grego, e segunda-feira os bancos já não abriram. O resultado? Filas nas caixas para levantamento automático em alguns casos de horas, falta de notas, filas de pensionistas nos bancos para levantarem as suas pensões.

A intenção era estancar a fuga de depósitos. Não resultando totalmente, conseguiu reduzir o valor, como explica uma fonte do sistema bancário grego ao Observador: “O valor dos depósitos a sair do sistema baixou para cerca de 130 milhões de euros. A situação está mais controlada”.

Ainda assim, a situação não será fácil. “Sem um acordo muito rápido, os bancos até podem abrir na segunda-feira, mas na terça-feira já precisam de ajuda. O BCE tem de aumentar a liquidez de emergência, a Europa tem de dar dinheiro para recapitalizar os bancos, nem que seja um qualquer tipo de acordo provisório. Os bancos são solventes, não é como no Chipre. Já foram recapitalizados em 2012, o que é preciso agora é voltar a seguir os planos de recapitalização”, explica.

Outro responsável de um banco grego contactado pelo Observador lembra que o valor da liquidez de emergência para os bancos gregos ficou no nível de sexta-feira da semana passada e que desde ai não há números novos. “A nossa estimativa é de que a almofada de liquidez dos bancos desça para os 800 milhões de euros. O sistema precisa de mais liquidez rapidamente, há poucos depósitos a entrar. As pessoas estão com receio e não podemos deixar que os receios virem pânico”, acrescenta o mesmo responsável.

Louka Katseli, presidente da Associação Grega de Bancos, disse ainda esta sexta-feira isso mesmo. Em declarações aos jornalistas em Atenas, a também antiga ministra do Trabalho admite que na terça-feira possam existir problemas de liquidez com o sistema bancário grego e diz que o BCE tem de aumentar o valor da autorização para que o banco central da Grécia empreste aos bancos comerciais gregos. A almofada de liquidez, diz, deve rondar os mil milhões de euros.

Os bancos só têm portas abertas para os pensionistas, mas na Grécia muitos clientes não têm por hábito usar os cartões bancários, mas sim as agências para levantar o seu dinheiro. Com a imposição de controlos e com as portas fechadas, esse hábito pode estar para mudar: “Já recebemos mais dezenas de milhares de novos pedidos de cartões da parte de quem não usava”, explica o primeiro responsável.

Faltam notas?

Nas filas, muitos se queixam quando as caixas ATM ficam vazias, outros que não conseguem levantar sequer os 60 euros de limite diário, porque as notas mais pequenas se estão a esgotar rapidamente. Do lado dos bancos, dizem que não há problemas de maior.

“Temos um ou outro incidente, mas nada de especial. É normal que com esta afluência as caixas precisem de ser reabastecidas de notas. Estamos em todo o lado a tentar que não faltem notas, mas estes episódios acontecem”, tenta desdramatizar o segundo responsável.

Os clientes não têm a mesma opinião e muitos são os que desesperam nas filas para conseguir o dinheiro, como o Observador já relatou.