Não. A maioria dos gregos que, no domingo, acordaram, tomaram banho, comeram qualquer coisa, saíram de casa e só pararam perto de uma urna, optaram pela mesma coisa: disseram que não ao acordo que a troika queria ver a Grécia a assinar. Não é preciso ser bruxo para escrever que, por lá, nas ruas, esquinas, cafés e restaurantes, não se fala de outra coisa — o Nuno André Martins, jornalista do Observador, está em Atenas e tem escrito isso mesmo. E nos balneários, nas corridinhas a meio do treino ou no intervalo de uma peladinha é quase o mesmo, do que se falou? — “Uns queriam sim, outros não, havia aqui malta que estava dividida. Ouvi várias versões. Acabou por ganhar o não e eu pergunto: o que se pode vir a passar?”

Zeca pergunta porque nem ele, nem ninguém, sabe a resposta. A alcunha, que já tinha em Portugal, é de José Carlos Gonçalves Rodrigues, hoje capitão do Panathinaikos. Vai para o quinto ano a jogar à bola na Grécia. Na passada semana falou-se que vários jogadores e empresários bateram à porta da federação helénica de futebol, preocupados com a hipótese de o euro fazer as malas, o país retornar ao dracma e os contratos, puxados pela velha moeda, se desvalorizarem. O receio existe, mas nem tanto por culpa desta hipótese. “O que se fala mais é o medo de que, se isso acontecer mesmo, haverá coisas piores, como os supermercados e as farmácias poderem ficar sem suplementos. Porque depois demoram tempo a repô-los”, resume.

Por isso, o português que está na Holanda, já a correr num estágio para afinar a temporada, preveniu-se. Acabadas as férias, voltou à Grécia e encheu a despensa lá de casa. “Fizemos compras quando cá chegámos. Temos todos os mantimentos para a bebé e a mais velha, está tudo dentro do normal”, garante, ao falar das duas filhas e da “sorte” que tem por estar no Panathinaikos, um dos dois maiores clubes do país. “Até me perguntaram se achava melhor mandar a família para Lisboa durante duas semanas, até a situação estar estabilizada”, conta. Por terem a casa cheia e precavida de “mantimentos”, como lhes chama, decidiram ficar.

Ficaram, também, porque o clube os ajudará se for preciso. Na Grécia, os bancos ditaram que, por dia, cada pessoa apenas possa levantar 60€. “O clube também já se disponibilizou a dar dinheiro à malta que precisa. Já nos tranquilizou e disse que não nos vai faltar nada”, revela, ao explicar o porquê de, para já, não estar muito ralado com o que poderá encontrar quando regressar a Atenas.

THESSAALONIKI,GREECE - SEPTEMBER 18:  Miguel Vitor of PAOK FC  in action during the UEFA Europa League match between Paok Thessaloniki and Dynamo Minsk at the Toumpa Stadium on September 18, 2014 in Thessaloniki,Greece. (Photo by Sakis Mitrolidis/EuroFootball/Getty Images)

Foto: Sakis Mitrolidis/EuroFootball/Getty Images

Já Miguel Vítor está preocupado. Não muito, mas está. Mesmo que o filtro para grego ainda não esteja no seu melhor e ainda lhe custe “a entender quando os gregos falam entre eles”, o defesa português ouve e decifra o que os jogadores do PAOK de Salónica vão dizendo. “Estamos, e estão, preocupados”, confirma. “É normal”, diz-nos, logo a seguir, quando a conversa puxa pelo muito que se tem dito sobre o referendo que, no domingo, pediu aos gregos para votarem. O abandono do euro e o retorno ao dracma, a velha moeda helénica, é uma das preocupações. “No caso de haver uma mudança de moeda, os contratos seriam pagos em dracmas, não sabemos se era uma hipótese ou não, mas claro que nos causa apreensão”, revela quem, há dois anos, trocou o Benfica pelo clube da segunda maior cidade da Grécia.

Mesmo estando longe, também na Holanda, em Dordrecht, onde está a decorrer o estágio de pré-época, Miguel Vítor acompanha o que se vai passando. Tem receio, admite, embora não o sinta muito por saber que “o dono do clube é russo” e tem evitado que o PAOK tenha problemas financeiros. “Tudo tem sido pago a tempo e horas. Isto causa-me apreensão, mas não me passa pela cabeça sair daqui”, assegura, sem tremer.

E o defesa não concorda com a ideia de que quem joga à bola está imune à crise que tem colocado a Grécia a baloiçar na incerteza. “Há dois ou três clubes que pagam bem, os outros nem tanto. Nem toda a gente ganha grandes quantidades de dinheiro. O ano passado, por exemplo, dois clubes [Aris de Salónica e o Paniliakos] estavam na primeira divisão e, a meio da época, deixaram de competir”, lembra, para, depois, dizer que sim — “isto também afeta os jogadores”.

Para já, Zeca e Miguel não pensam em pegar nas malas e fugirem da Grécia. Mesmo preocupados, continuam bem. “Sou otimista”, diz-nos o capitão do Panathinaikos, que acredita estar para breve a altura em que “as coisas vão passar pelo melhor caminho”. O português, que antes estava no Vitória de Setúbal, sente-se “em casa” quando está em Atenas. “As pessoas são boas para mim, eu e a minha família gostamos de estar aqui e já quase me sinto grego. Não temos a ideia de ir embora”, garante. O defesa do PAOK, mesmo dizendo que “ninguém sabe o rumo que tudo isto vai tomar”, também não pensa em sair da Grécia.