É errado e não se deve fazer. As etiquetas caem a mal a toda a gente, ainda para mais quando elas se colam apenas por culpa do que os olhos veem. Quando se tem Kevin Anderson à frente, vê-se um grandalhão, mais com corpo de lutador do que de tenista, que um dia decidiu ser jogador com uma raquete na mão. A altura (2,03m) e o peso (89kg) dão pistas para o que o sul-africano mostra cada vez que entra num court: bate na bola com força, é um ás nas pancadas de direita, multiplica os ases no serviço e os ângulos das suas pancadas são tão abertos como a envergadura dos seus braços.

Mas, olhando para ele, sem o conhecer, a etiqueta que lhe podem colocar é a de um tenista tosco, com um tamanho impraticável para o ténis, que compensa em força o pouco que tem em jeito para pancadas de mestre. Nada disso. Kevin serve com força e é amigalhaço do serviço, sim — consegue 30 ases em, mais ou menos, duas horas –, mas também sai do fundo do court, cola-se à rede e mostra que tem destreza e suavidade nos pulsos. O adversário mal pode com isto e, durante muito tempo, encolhe-se. Novak Djokovic perde dois sets seguidos.

Sim, o campeão em título de Wimbledon, o sérvio que já ganhou oito torneios do Grand Slam (cinco Opens da Austrália, dois torneios de Wimbledon e um US Open), o líder do ranking mundial, fica à rasca nos dois primeiros sets. Não por jogar mal, nada disso. Djokovic corre, devolve bolas, estica-se todo para dar mais centímetros ao alcance da raquete e dá trabalho a Kevin Anderson, número 12 do ranking. Mas o sul-africano dá-lhe muito mais trabalho a ele. O gigante conquista os dois primeiros sets no tie-break — 6-7(6), 6-7(6) — e o sérvio parece que não se consegue adaptar ao que vem do outro lado da rede: 22 ases, 38 winners e 17 pontos ganhos em 27 subidas à rede.

Toca o alarme de emergência. Djoker (alcunha pela qual Novak é conhecido no circuito), por isso, concentra-se e puxa pela cabeça para transformar a derrota nos dois sets em lições por aprender. Assim parte em busca da reviravolta. Começa a consegui-la quando percebe como anular as subidas à rede de Anderson (muitas bolas batidas para os pés do sul-africano) e a obrigá-lo a correr mais no fundo do court. As pancadas puxadas e colocadas aparecem e o sul-africano sofre. Djokovic demora 24 minutos a fechar o terceiro set, em 6-1. No quarto, o sérvio continua a pressionar Anderson e, embora com menos quebras de serviço, também vence por 6-4.

O sérvio renasce, está lançado e Anderson parece mirrar em energia e confiança. O embalo, agora, é de Djokovic, mas o sérvio tem que o guardar até esta terça-feira. Porque tudo o que até agora foi escrito aconteceu no dia anterior — quando Novak empatou o encontro eram já 21h em Wimbledon e court nº1 do complexo não tinha luz artificial. A organização do torneio não quis jogar o set que faltava no court central à noite. “Não havia urgência em terminar o jogo nesse dia”, justificou, no Twitter. Por isso, o encontro foi retomado esta tarde enquanto o restante quadro masculino tinha direito a um dia de descanso.

Tudo estava marcado para recomeçar às 13h, mas o jogo atrasou porque os chuviscos também apareceram à hora marcada. Quando deixaram de cair, o último set do encontro arrancou e o equilíbrio notou-se. O serviço de Anderson ainda atropelava Djokovic como camião a alta velocidade e, quando era Novak a servir, Kevin andava a sprintar no fundo do court. Só quando o campeão de Wimbledon fez o 6-5 é que se viu um break, o tal que empurrou o sérvio até à vitória.

Assim que o sul-africano atirou a última bola para fora do court, Djokovic olhou para o céu, levantou os braços e prolongou um suspiro cheio de alívio. “Foi talvez o jogo mais complicado da minha carreira aqui em Wimbledon. Tinha sido merecido se o Kevin tivesse vencido”, admitiu, no final, o sérvio, que agora vai defrontar o croata Marin Cilic, vencedor da última edição do US Open, nos quartos-de-final. Lutar, lutar e lutar, só assim Novak Djokovic se conseguiu manter vivo na relva de Wimbledon.