É algo comum para quem sobe a grandes altitudes na América do Sul e o Papa Francisco não escapou ao hábito: enquanto viajava do Equador para a Bolívia, o chefe da Igreja cristã bebeu um chá com folhas de coca, flor de camomila e sementes de anis para amenizar os efeitos das alturas.

Na cultura contemporânea é comum associar as folhas de coca à cocaína, a substância ilícita que domina o narcotráfico e que colocou toda a gente a olhar de lado para a dita planta. Mas na verdade a utilização de folhas de coca remonta a tempos longínquos e está enraizada na cultura de vários povos da América do Sul.

Para encontrar registos das primeiras utilizações das folhas de coca temos de viajar pelo menos 800 anos para trás, até ao vale Nanchoc, no Perú. Para os incas, um dos grandes impérios andinos, a coca era uma planta sagrada, oferecida pelo Deus Sol. Em redor dessa teoria, existiam várias histórias míticas sobre o “ouro verde dos Andes”, como era chamada no século XV.

Uma das lendas leva até Manco Capac, o primeiro inca e filho do Sol que desceu do céu sobre o lago Titicaca para ensinar aos homens arte e agricultura, que incluía o cultivo de coca.

Outra história fala de uma mulher índia, jovem e muito bonita que vivia na aldeia Collasuyu e se chama Coca. Dizia o povo inca que era muito vaidosa e egoísta, seduzia homens com os dotes físicos e depois desprezava-os. Muitos deles fizeram queixa ao imperador inca, que ordenou a morte de Coca numa cerimónia solene. Depois o corpo da mulher foi esquartejado e enterrado por todo o império inca. Mas pouco depois, nasceu um arbusto de folhas verdes em todos os locais onde o corpo de Coca tinha sido enterrado. E a planta passou a chamar-se Mama Coca.

A utilização das folhas de coca passou a ser muito comum. Os desenhos de figuras moldadas pelo povo inca representam quase sempre um homem com uma protuberância na bochecha que sugere que estaria a mastigar as ditas folhas.

Também foram encontradas  folhas de coca em 51 tumbas de três sítios arqueológicos no vale de Azapa, no Chile, que datavam de entre 300 a.C. e 1300 d.C.. No Perú, os arqueólogos investigaram 87 tumbas num cemitério com 149 tumbas: em 56% foram encontradas evidências do consumo de folhas de coca.

Havia também o hábito de colocar folhas de coca em cima do cordão umbilical dos recém-nascidos e guardá-las depois num recipiente de cal. Essas folhas acompanhavam a pessoa durante toda a vida como um talismã e na hora da morte eram enterradas ao lado da múmia.

Todos estes rituais tinham um motivo: o povo inca acreditava que as folhas de coca estimulavam a energia, porque aliviam o cansaço, a sede e a fome, anestesiavam a dor e tinha um efeito mágico nas múmias. Por isso se honravam com folhas de coca ídolos, divindades, montanhas, fontes e outros monumentos de grande importância.

Mas nem toda a gente tinha acesso às folhas de coca: a certa altura, apenas os feiticeiros de Machu Picchu podiam mastigar ou beber em chá as folhas de coca, sempre que preparavam uniões com virgens. De resto, só homens com autorização expressa na nobreza tinham direito a consumir folhas de coca e apenas depois de terem relações sexuais.

As folhas de coca e os incas

Mas como se sabem todos estes pormenores sobre a utilização das folhas de coca? A primeira pessoa a descrever a cultura inca à volta das folhas de coca foi Cristóvão Colombo, em 1492. Um pouco mais tarde, o missionário Ramón Pané descreveu a planta dizendo que se tratava de “uma folha refrescante semelhante ao manjericão mediterrâneo” e que era “uma erva medicinal com presença nos ritos de morte”. Em 1499, o navegador Américo Vespúcio revelou que algumas pessoas mastigavam as folhas de coca com cinzas: assim a folha ganhava “uma ação semelhante a doses elevadas de cocaína, mas sem euforia”.

A colonização e o cristianismo quiseram colocar um ponto final nesta tradição da cultura inca: a Igreja chegou a tentar convencer o povo de que as folhas de coca tinham sido enviadas pelo demónio para destruir os nativos. Mas este argumento não foi suficiente e os incas continuaram a consumir as folhas.

Foi com o rei Filipe II de Espanha que os países colonizadores baixaram a guarda e permitiram aos nativos continuar a utilizar folhas de coca. Como eles não conseguiam realizar o trabalho mais duro sem as ingerirem, o rei admitiu que as folhas de coca eram essenciais à saúde dos nativos e começou a pagar o salário com folhas.

A descoberta da cocaína

E eis que o químico Albert Niemann descobre a cocaína em 1880, quando transformou as folhas de coca num pó branco. A ciência mudou: a medicina conheceu as aplicações da droga e passou a utilizá-la nas cirurgias graças às propriedades anestésicas.

Há um exemplo muito claro da utilização da coca para fins medicinais e que chegou até aos dias de hoje – no nome, mas já não na receita. É a Coca-Cola, que nasceu em 1886 pelas mãos do farmacêutico John Pemberton. A bebida, que começou por ser um remédio, devia ser “estimulante e revigorante” e usaria então folhas de coca.

A crescente procura fomentou muito a economia e a política do Peru, que aumentou a produção dos arbustos de coca para atender às necessidades de exportação. Durante os primeiros quinze a vinte anos do século XX, a comercialização aumentou exponencialmente e a utilização passou a ser também recreativa.

Em 1914, a prosperidade peruana travou. O governo norte-americano deu-se conta dos efeitos secundários da cocaína e depressa os associou à própria folha de coca, que era a matéria-prima. Lançou então a Lei Harrison, que limitava a utilização das folhas de coca e de cocaína para fins medicinais. Oito anos depois, a Lei Jones-Miller rotulou a folha de coca como um narcótico e proibiu todo o consumo da planta e da droga.

A própria classificação da coca estava errada: um narcótico é qualquer produto que cause sonolência. Mas a folha de coca é, na verdade, estimulante. O efeito aditivo que a cocaína tem levou as nações a proibir a utilização das plantas. Os Estados Unidos lideraram a luta contra a utilização da coca e da cocaína e tiveram o apoio da Organização Mundial de Saúde, que em 1952 informou que a folha de coca causava dependência e vício.

Ao longo do tempo, várias instituições continuaram esta luta na tentativa de limitar – e idealmente erradicar – o uso de folhas de coca de qualquer forma. A ONU chegou a propor ao Peru e à Bolívia que os chás de folhas de coca fossem esquecidos e erradicados dos eventos tradicionais por num período de 25 anos.

A proibição fomentou o negócio ilegal. O narcotráfico intensificou-se e continuam a existir campos de cultivo em vários países, para transformação em cocaína que é comercializada ilegalmente. A Bolívia e a Colômbia são os países onde o tráfico de cocaína tem mais expressão.

Mas o hábito de tomar chás à base de folhas de coca, principalmente para aliviar os efeitos das alturas, manteve-se até hoje. A bebida é típica e popular. Aqui a cultura leva mesmo a melhor. Os visitantes entram no espírito, experimentam… e o Papa também.

Texto editado por Filomena Martins