João Pedro Plácido estreia esta quinta-feira, nos cinemas, o documentário “Volta à terra”, o primeiro e último filme que realiza.

Em entrevista à agência Lusa, João Pedro Plácido disse que está correta a descrição de que é um realizador de um filme só: este “Volta à terra”, que o fez regressar à aldeia de Uz, onde o avô e a mãe nasceram, na fronteira entre o Minho e Trás-os-Montes.

Eleito o melhor filme português do DocLisboa 2014, “Volta à terra” é o retrato de um lugar a 20 quilómetros de Cabeceiras de Basto, onde os habitantes vivem de e para o trabalho, com a terra e o gado.

João Pedro Plácido, nascido em 1979, em Lisboa, tem “um sentimento de pertença ao local” e quis fazer este filme desde a adolescência, quando soube que queria estar ligado ao cinema. “Eu queria mesmo partilhar isto desde há muito tempo”, disse, elencando os temas que o motivam: a ruralidade, o sentido de comunidade, a perda de identidade cultural.

“Tenho uma preocupação genuína com isso. E eu não tenho mais nada que queira partilhar e que eu acho que possa fazer de uma forma diferente. (…) Isto é uma estreia e uma conclusão. Eu não pretendo continuar a realizar. A minha profissão é ser diretor de fotografia e os meus projetos são os projetos dos outros realizadores”, explicou.

Produzido pel’O Som e a Fúria, “Volta à terra” foi rodado entre dezembro de 2011 e janeiro de 2013, com várias viagens do realizador a Uz para registar o quotidiano da aldeia, em momentos diferentes do ano, no rigor do inverno e no pico do verão.

O filme centra-se em dois habitantes da aldeia, de gerações diferentes – António, mais velho, e Daniel, mais novo – que espelham aquelas características do mundo rural que João Pedro Plácido queria filmar.

“O que encontramos ali são valores muito humanos. Quero acreditar que é um microcosmos do que de melhor têm os portugueses. Há uma enorme alegria de viver, a crise ultrapassa-as. Ali existe um empenho e uma determinação e um humor que eu não encontro em Lisboa e espalhado por esse Portugal que vem nas notícias. Há uma certa sabedoria e sensibilidade que o homem da cidade perdeu e que permanece no homem do campo”, descreveu.

A aldeia tem pouco mais de 50 habitantes. Alguns foram ver o filme numa exibição, no ano passado, no Porto, no festival Post Doc. “Foi uma experiência cinemática incrível. As pessoas estavam a falar para a tela e reagiam umas com as outras e riam-se”, recordou o realizador, que pretende fazer uma exibição em agosto, em Cabeceira de Bastos, perto de Uz.

João Pedro Plácido quis fazer cinema aos 14 ou 15 anos, depois de ter visto “E a vida continua”, de Abbas Kiarostami. Com uma câmara, fez pequenos filmes em Uz e só mais tarde é que aprendeu a técnica. Hoje diz que a profissão dele é a direção de fotografia. “Tenho um enorme prazer em ajudar esses bons realizadores a entrar nas imagens justas para as histórias deles. É aí que eu quero estar”.

“Volta à terra”, exibido em maio no âmbito do Festival de Cinema de Cannes, deverá estrear-se nos cinemas, em França e na Suíça, em 2016.