Dia dois: à chegada sentiu-se menos gente e mais frio. Mas passou depressa. Os Blasted Mechanism abriram o palco principal ainda o Sol ia alto, às seis da tarde havia luz a mais para um espetáculo que, visualmente, merecia luz artificial. Continuam muito energéticos, não pararam de puxar pelo (pouco) público. A banda lisboeta, a celebrar 20 anos de carreira, regressou aos grandes espetáculos para apresentar um disco novo (“Egotronic”) e para quebrar as regras: cantaram em português.

Pouco antes das 19h00, a tenda Heineken recebeu Cold Specs, o nome de palco da canadiana (de origem somali) Ladan Hussein. Uma grande voz, com um tom vincadamente soul, cantou música lenta para gente sentada. Não passou de uma curiosidade, mas o público que descansava as pernas aplaudiu.

19h20 e o palco NOS recebeu um estrondo chamado Marmozets. Desconhecidos do grande público, foram uma aposta ganha pelo NOS Alive, atentos à crítica que eleva a banda britânica à condição de revelação de 2015 (apesar de existirem desde 2007). A vocalista Becca Macintyre foi incansável e uma presença marcante que liderou a máquina de fazer barulho, puxaram pelo público que fez mosh e não se acanharam ao interpretar “Iron Man” dos Black Sabbath. Uma boa (e ruidosa) surpresa deste segundo dia.

Ana Matos Fernandes era uma das presenças mais aguardadas no palco Clubbing. Trouxe consigo a MC Marta Bateira e o rapper Valete também lá esteve, para cantar “Medusa”, o tema título do álbum que veio apresentar este sexta-feira. Capicua entrou em palco às 20h50 e teve de esperar uns bons segundos até que as palmas abrandassem. Agradeceu e lançou-se de imediato ao manifesto, assim a seco, sem suporte. Um “poema” falado com o ritmo da poesia dos tempos modernos. Tenda cheia, braços no ar, letras sabidas de cor e salteado. O papel da mulher, a atitude, a vida cantada, porque “a liberdade é uma coisa que se conquista todos os dias”, disse.

Com o à vontade de uma mulher do Porto, contou que tinha torcido um pé e que por isso passava para o público a tarefa de saltar e dançar. Mas não era preciso pedir. O espetáculo de Capicua revelou o erro estratégico, era preciso uma tenda com o dobro do tamanho para acolher tanta gente.

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No fundo do palco, desenhos feitos à mão (ou antes, com o rato) em tempo real pelo ilustrador Vítor Ferreira, um complemento que deu ainda mais cor e força ao manifesto. “Sereia Louca” foi (e continua a ser) um sucesso, Capicua já selou o nome e a prosa na história do hip hop, e tão bem que fica em português. Como em “Vayorken” (numa versão alternativa mas muito bem conseguida) e “Barulho”, as duas últimas.

Capicua foi um oásis. À mesma hora, os irmãos Sheppard ocupavam o palco principal com pop made in Austrália. Pouca gente a assistir e com pouco interesse. Pouco mais que “Geronimo”. E no Palco Heineken, a folk dos irlandeses Kodaline rebentava pelas costuras.

Às nove da noite já muitos corriam para o palco NOS, para guardar lugar o mais perto possível dos Mumford & Sons. Folk rock certinho para uma casa cheia, desde logo seduzida por “I Will Wait” para ninguém fugir. Mas houve quem acabasse por sair, respondendo ao apelo dos brits The Ting Tings. Katie White foi uma performer ligada à corrente, incansável, a agitação era tanta que lhe era difícil controlar a respiração. Como em “That’s Not My Name”, música alegre e para dançar. Depois foi sem complexos que se lançaram às caixas de ritmos e aos samples de voz, a música venha de onde vier, quere-se bem servida.

E assim foi, eram onze e meia da noite. Os norte-americanos Future Islands aterraram em Algés vindos de outro planeta. Começaram com “A Dream of You and Me” do último álbum, chama-se “Singles” e é na verdade uma coleção de canções pop que quase parece um “best of”. E logo de início se revelou a estranheza do trio (quarteto, ao vivo) da Carolina do Norte, são figuras que não casam com a música, como quando vemos pela primeira vez a cara daquela voz de que gostamos na rádio. O exemplo mais flagrante é o do vocalista Samuel Herring, um contorcionista que dá a volta ao estereótipo da estrela pop de pose atrevida. Mal comparado, é como se encontrássemos o nosso pacato vizinho do lado numa discoteca a fazer algo que nunca pensávamos possível naquela pessoa. Não bate a bota com a perdigota, banda e música, mas toda a gente se divertiu, apesar da bizarria e do som demasiado alto.

Os Future Islands deram uma lição de “keep it simple”: voz, guitarra, baixo e bateria, o que basta para produzir pop/rock com muitas estrelas. Estranho mas surpreendente, ninguém ficou indiferente àquela figura que é a antítese de uma pop star.

00h30, os espetaculares The Prodigy puxaram a multidão para o palco principal. Cabeça de cartaz, a banda britânica desfilou eletropunk com muitos “fuck” pelo meio. Logo ao início, algures no centro da massa humana um “firestarter” fez a triste figura de acender uma tocha, um “divertimento” irresponsável que felizmente se ficou por ali.

tosha prodigy alive 2015

E também assim foi a atuação dos The Prodigy, banda com 25 anos de carreira, mais um nome certeiro para um espetáculo saudosista. Mantêm a atitude rebelde (fuck fuck fuck), bem trabalhada pelo sistema de som e pelo jogo de luzes que revela silhuetas. Ao contrário dos Muse, na primeira noite, não foram o motivo mas apenas uma curiosidade revivalista.

E tanto assim foi que meia hora bastou para que várias centenas de pessoas mudassem de eletrónica, a caminho do palco Heineken, foi lá que se sentou James Blake, o bem-amado cantor e compositor londrino. Os portugueses gostam dele porque têm bom gosto e porque são bem tratados. James Blake disse gostar muito de estar por cá outra vez e fez questão de dizer que ia tocar “um pouco de tudo”. Percebeu-se com o andar do set que se mantém agudo, afinado e experimental. E que gosta de brincar com a distorção dos graves, de fazer passar para o corpo uma vibração desconfortável. Fazer do ruído música não é para todos, como também não é previsível a escolha de cada alinhamento. Ele dá as voltas que bem entende, numa experiência bem ensaiada para produzir o choque (no bom sentido) da alternância entre o quase silêncio e o grave distorcido.

Sempre muito aplaudido a cada passagem, o público já conhece os acordes de cor, não foi preciso mais de um segundo para reconhecer “Limit To Your Love”, por exemplo. Como também James Blake não teve problema nenhum em reconhecer que o tema estava fora do tom, “no, no, no…”, vamos recomeçar. Aplausos. É um jovem talento sem medo de arriscar, tem sempre a capacidade de surpreender ao ponto de pregar as pessoas ao chão.

À hora combinada, o português Moullinex entra em cena com mais seis músicos, a fórmula que conhecemos no Lux na apresentação do novo “Elsewhere”. Os sete instrumentos em palco dão ao disco a robustez instrumental, a componente gráfica foi simples, de cores vivas e de viva voz a promessa de música para continuar dançar. E assim teria sido, não fosse o desconforto. A qualidade do músico, compositor, DJ e produtor é inegável, mas a vocal é um calcanhar de Aquiles ainda a precisar de afinação.

A fechar a noite (2h45), Róisín Murphy trouxe de volta o espírito dos Moloko. Por muito que se esforce, é difícil apagar aquela voz da velha referência. Abriu com “Golden Era”, uma injeção de adrenalina que se foi desvanecendo, à medida que entrou pelos temas do último “Hairless Toys”.

Foi um dia musicalmente interessante, onde o que melhor se viu e ouviu aconteceu fora do palco principal. Este sábado, último dia do NOS Alive 2015, o cartaz promete ser mais equilibrado. Haja pernas. Nós vamos andando também pelo Twitter. Até logo.