A noite ia avançada quando a internet começou a ficar inundada com a informação da morte de Satoru Iwata, o CEO da Nintendo. Tantas vezes as redes inventam a morte de uma celebridade que esperei que também desta vez fosse uma mentira, apesar dos notórios problemas de saúde que Iwata demonstrava há mais de um ano. Infelizmente, o comunicado oficial da Nintendo trouxe a confirmação: Satoru Iwata morreu.

Como referi hoje na notícia sobre a sua morte aqui no Observador, há uma personalização ímpar de Satoru Iwata enquanto imagem da companhia que não se repete em concorrente algum. Os seus Nintendo Directs, vídeos onde falava dos lançamentos para as consolas da Nintendo entre outras notícias da empresa, “diretamente” (como gostava de dizer, e que acabou por tornar-se a sua marca registada) para os jogadores.

Um CEO de uma empresa diferente das outras, que ajudou a fazer do mercado dos videojogos o que é hoje e que tinha uma postura tão distante do que imaginamos ser o Presidente de uma companhia bilionária. Sabia do que falava, conhecia o mercado quase desde a sua génese (e fez parte dele desde que terminou a licenciatura) e tinha de gerir (com dificuldade) o equilíbrio entre o gestor que se tornou e o criador que sempre foi. Auto parodiava-se e brincava com a própria empresa nos Nintendo Direct, dos quais o último Digital Event, o da E3 2015 foi um dos mais hilariantes e que o transformou num Marreta, na possível tentativa de mascarar a sua debilidade física crescente.

https://www.youtube.com/watch?v=qZzz1FxXHCM

Como referi na notícia de hoje, Iwata foi o primeiro Presidente da Nintendo que não pertencia ao clã Yamauchi, fundador da empresa, e apenas o quarto líder em 120 anos de existência. E foi indicado diretamente por Hiroshi Yamauchi, o terceiro presidente da história da companhia, pelo seu contributo à Nintendo: pelos anos de trabalho em estúdios intimamente ligados à gigante nipónica, por ter ajudado a criar muitas das figuras emblemáticas da marca, tal como Kirby e Ness (do jogo Mother 2), assim como ter posto em prática a sua genialidade na programação de Pokémon Stadium, Gold & Silver, entre outras dezenas de jogos que fizeram parte do seu portefólio.

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Durante a Game Developers Conference 2005 afirmou que “On my business card, I am a corporate president. In my mind, I am a game developer. But in my heart, I am a gamer.”, o que representa a grande diferença em relação a tantos outros CEOs de tantas outra companhias gigantescas. A sua ascensão progressiva deveu-se à qualidade enquanto criador, mas acredito que a nomeação enquanto líder da Nintendo se deveu, acima de tudo, à sua transparente paixão pelos videojogos.

Quão difícil terá sido para Satoru Iwata, um apaixonado pelos jogos, tornado presidente de uma das maiores empresas do mercado, de convencer os acionistas das decisões que tomou para a companhia? De demonstrar que a visão que tinha para consolas “arriscadas” do ponto de vista de mercado, seriam as apostas para fazer avançar a Nintendo? Ou de calar o jogador e o criador dentro dele e enfrentar a dura realidade dos números que assombram a empresa nos últimos anos?

Iwata representava a humanização das companhias, o culto da imagem positivo de alguém que era, em tudo o que dizia e que fazia, a verdadeira face da Nintendo. Hoje num artigo sobre a sucessão de poder da Nintendo, o Miguel Nogueira relembrou-nos da árdua tarefa de que Iwata teve de assumir ao largar a criança dentro dele para tomar as rédeas de uma empresa com esta dimensão. Depois de Gates e Jobs, Iwata é um dos últimos exemplos de um CEO que de alguma forma humaniza os colossos sem cara que são as empresas multimilionárias.

Mas o que mais podíamos esperar de uma companhia que parece não ter deixado de ser criança, nem deixado de ter uma forma de pensar doméstica que muitas vezes é contraditória com a sua dimensão? Satoru Iwata era o Peter Pan que decidiu dar um passo em frente e crescer um pouco. Mas dentro do seu coração estavam os videojogos, que amava e conhecia como poucos. E isso transparecia e chegava até nós, através das suas palavras, “diretamente”.

Iwata não era um CEO. Iwata era um de nós, um jogador. Não era cinzento pelo peso dos números e das acções, era colorido e divertido como os jogos da Nintendo. “Above all, video games are meant to be just one thing: fun. Fun for everyone.” Disse na GDC 2006, e tinha toda a razão. E em homenagem a essa alegria contagiante e à paixão pelos videojogos que lhe estaremos para sempre gratos. Mas não nos vamos despedir dele. Vamos reencontrá-lo nos muitos jogos onde o seu avatar deambula e vamos relembrar a missão primordial deste mercado: a diversão.

Muito obrigado Iwata-san, e até já.

Ricardo Correia, Rubber Chicken