Afinal, e depois de tanto furor nas redes sociais, por acaso o SMS não foi de Passos Coelho, mas a aritmética pode ter sido. Quem o disse, numa entrevista conduzida por diferentes meios de comunicação, foi o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk. Segundo Tusk, quem enviou o SMS com a ideia de utilizar o fundo de privatizações para a recapitalização da banca grega foi do primeiro-ministro holandês, Mark Rutte. No entanto “a aritmética” que suportava a proposta terá sido portuguesa, isto é, de Passos Coelho.

“O primeiro sinal de que algo como isso pudesse ser aceite foi um SMS do primeiro-ministro holandês, [Mark] Rutte. Quando lhes mostrei a proposta de Rutte — que 12.5 mil milhões do fundo fossem usados para pagar a dívida e [outros] 12.5 [fossem usados] em investimentos –, ninguém pareceu particularmente impressionado, mas a partir desse momento [a ideia] estava em cima da mesa”, disse Donald Tusk.

A entrevista em questão foi feita em conjunto por sete jornais líderes do velho continente — o grego Kathimerini incluído. Nela, o presidente do Conselho Europeu detalhou as horas e os momentos críticos que antecederam o acordo prévio sobre a Grécia, negociações que envolveram a participação de Alexis Tsipras, François Hollande e Angela Merkel. Durante a longa entrevista não há qualquer referência à intervenção (ou ao nome) de Passos Coelho.

Recorde-se que Passos Coelho defendeu, perante os jornalistas, que Portugal não só não bloqueou um acordo com os gregos, como teve um papel de destaque face ao desbloqueio do acordo: “Até tivemos, por acaso, uma intervenção que ajudou a desbloquear o problema”, disse.

Passos explicou, à data, que foi sua a ideia de utilizar o fundo de privatizações para a recapitalização da banca: “Devo dizer até que, curiosamente, a solução que acabou por desbloquear o último problema em aberto – que era justamente a solução quanto à utilização do fundo – partiu de uma ideia que eu próprio sugeri. Até tivemos por acaso uma intervenção que ajudou a desbloquear o problema”.

Uma ideia que, segundo o próprio, acabou por ser utilizada pela troika — em causa está a sugestão de utilizar 25 mil milhões de euros, dos 50 mil milhões disponíveis, na recapitalização privada da banca.

Que se passou então? A resposta parece estar num tweet do editor de temas europeus do Guardian, Ian Traynor, onde este dava conta que “uma mensagem do PM holandês com aritmética portuguesa eram responsáveis pela fórmula final face ao respetivo fundo”:

Ou seja, Passos terá feito a sugestão sobre uma forma de dividir os 50 mil milhões disponíveis, mas foi Rutte que a enviou por SMS para dentro da reunião mais restrita onde Tusk estava a negociar apenas com Tsipras, Hollande e Merkel.

O certo é que as declarações de Passos acabariam por dar origem a uma onda de paródia nas redes sociais, através da hashtag #poracasofoiideiaminha.