A secretária-geral ibero-americana, Rebeca Grynspan, considera que Portugal e Espanha deveriam ser mais “parceiros” como “porta de entrada da América Latina na Europa” do que concorrentes, atuando como um bloco ibérico económico.

“A mim parece-me que [Portugal e Espanha] deveriam ser sócios nessa porta de entrada na Europa. Acredito sinceramente que a internacionalização dos negócios latinoamericanos que passa por Europa prefere Espanha e Portugal como porta. Pois isso traz investimentos a Espanha e a Portugal. Acho que em vez de concorrerem um com o outro, deveriam ver-se como um bloco de entrada na Europa”, considerou Rebeca Grynspan em entrevista à agência Lusa em Madrid, cidade que acolhe a sede da Secretaria Geral Ibero-americana (SEGIB).

A responsável da SEGIB – responsável pela parte da organização da Conferência Iberoamericana, que congrega 22 países, entre os quais Portugal, Brasil e Espanha – acrescentou que já é assim, como um bloco ibérico, que a América Latina vê ambos os países.

Rebecca Grynspan também advoga que a própria Conferência Iberoamericana deveria mudar o nome para Comunidade Iberoamericana, para afastar a ideia de dois blocos de países, um de cada lado do Atlântico.

“A ideia agora não é dois blocos de países – 19 num lado do Atlântico e três do outro. A ideia é a de uma relação de comunidade de 22 países que se relacionam muito mais simetricamente entre si. Esse é o mundo iberoamericano que vivemos hoje e isso tem de se refletir adequadamente no que fazemos. Essa é a proposta para a próxima Cimeira iberoamericana, em 2016”, declarou.

Rebeca Grynspan destacou ainda a subida de influência do Brasil no seio da Conferência Iberoamericana, dando como exemplo a entrada em funções de uma nova secretária-geral adjunta proveniente precisamente daquele país e o facto de o Brasil participar em todos os programas conjuntos da entidade.

“Foi eleita por unanimidade uma brasileira, uma diplomata de grande trajetória e estamos muito contentes. Mas há um dado que muita gente não sabe: o Brasil participa em todos os programas iberoamericanos. A plataforma de cooperação iberoamericana é voluntária, os países não têm qualquer obrigação de o fazer. E quando se associam, pagam para se manter nesses programas. O Brasil está em todos e é um dos parceiros mais ativos”, sublinhou.

O crescimento da influência latinoamericana na Conferência também trouxe alterações nos contributos financeiros para o fuincionamento da organização. Quando nasceu, em 1991, 70 por cento do orçamento era suportado pelos países ibéricos – principalmente Espanha e também Portugal. No entanto, na última Cimeira em 2014, Portugal foi o único dos 22 países a baixar a sua contribuição.

Em 2014, a contribuição de Portugal para a Secretaria Geral Iberoamericana – o braço de organização da Conferência – era de 639 mil euros, ou seja 9,05% do total. Este ano a contribuição desceu para 346 mil euros (4,9% do total), enquanto o Brasil aumentou e contribui agora com 10% do total (710 mil euros). A Espanha aporta a grande maioria do orçamento (4,3 milhões de euros).

Rebeca Grynspan, economista e antiga vice-presidente da Costa Rica, acredita que a diminuição do contributo financeiro de Portugal é temporária, que se justifica pela crise económica e financeira, e que tal não se traduz em perda de influência portuguesa na organização.

“Espero que a voltem a subir, quando estejam melhor. Sei o difícil que é estar na situação financeira em que esteve Portugal. Os sócios são para estar nos bons e nos maus momentos. Não se pode esperar o mesmo dos países em todos os ciclos económicos. A participação de Portugal continua a ser importante. Oxalá que, com a recuperação, possa chegar ao nível de contribuição do passado”, concluiu.