As férias escolares deixam apeadas as populações de dezenas de aldeias do Nordeste Transmontano que perdem neste período o único transporte público com a paragem das aulas: o autocarro que transporta os estudantes durante o ano letivo. O táxi ou o apoio da freguesia é o que resta a uma população envelhecida, com parcas reformas, obrigada a deslocações para tarefas do quotidiano como uma ida ao médio, aviar receitas ou pagar faturas de serviços essenciais como água e luz.

A Lusa constatou esta realidade nas zonas do Romeu e Avidagos, no concelho de Mirandela, mas comum a outras aldeias do distrito de Bragança. A paragem de autocarros do Romeu serve nesta altura do ano para “passar tempo” a Sebastião Maria e Fernando Martins ou para pedir boleia a amigos quando é necessário ir à sede de concelho, Mirandela.

“Estamos muito mal servidos de transportes. Assim que não há estudantes não há um transporte aqui. Para se ir à cidade tem de se mandar vir uma ambulância”, atira Armando Cepeda, mais abaixo, em Vale de Couço. Antigamente tinham “comboios, automotoras, carreiras, tudo. Agora, o que há menos é transportes”, resumiu à Lusa outro habitante, Celestino Amorim.

O que vale a esta gente é que a junta de freguesia disponibiliza uma carrinha de nove lugares duas vezes por semana, à segunda e quinta-feira de manhã”, para deslocações a Mirandela. Laura Vicêncio guarda tudo para a altura da carrinha. Deixa “passar o prazo da luz, dessas coisas todas”, se for preciso, para aproveitar. E não sabe é como vai fazer para ir à consulta médica dia 31, à tarde, uma sexta-feira. “Tenho de alugar, se calhar um carro para ir”, apontou, fazendo contas aos 25 euros que terá de pagar.

Alberto Almeida e a mulher tiveram de ir fazer análise, na última terça-feira, e valeu-lhes a filha que perdeu duras horas de trabalho para os levar a Mirandela.

O presidente da junta, Bernardino Pereira, disponibilizou a carrinha de nove lugares porque viu que “as pessoas precisavam”. “Têm necessidade de ir ao médico, de ir resolver situações aos serviços públicos e as reformas são muito pequenas, 200, 250 euros e o dinheiro não chega a nada, nem lhes dá para os medicamentos”, observou.

Em Avidagos, o que vale à população é o táxi que cobra seis euros por transporte partilhado e 25 individual, se for para Mirandela. Muito mais, 100 euros, teve de pagar de táxi Diamantina da Conceição nas duas deslocações mensais que faz a Bragança para consultas e tratamentos. Só há um mês, teve direito ao transporte de doentes não urgentes numa ambulância. A ida aos médicos a Mirandela é “a caminhada, a rotina desta gente”, como observou Lídia Rodrigues que teve onze filhos e está sozinha. Estão todos emigrados e quando precisa de se deslocar recorre ao táxi.

O presidente da Câmara de Mirandela, António Branco, reclama uma alteração urgente da legislação nacional, falada há mais de uma década, que permita a criação de uma rede de transportes e que “tenha em conta as realidades locais destes territórios de baixa densidade”. O autarca social-democrata lembra que a concentração de serviços públicos, nomeadamente nas áreas da Saúde e Justiça, obriga as populações a deslocações sem uma rede de transportes públicos capaz de dar resposta.

O mesmo se aplica ao estudantes de Ensino Superior, disponível em Mirandela e Bragança, mas que não podem deslocar-se diariamente para as escolas por falta de transporte público, o que os obriga a radicar-se na localidade do curso ou a trocarem a região pelo litoral.

Mirandela gasta anualmente 800 mil euros em transportes escolares e o presidente afiançou que com esse dinheiro seria capaz de criar circuitos adequados às necessidades do concelho.

Porém, a atual legislação não permite transportar o resto da população em alguns circuitos de transportes escolares e há carreiras concessionadas a operadores privados que suspenderam a operação por falta de rentabilidade e onde ninguém pode operar por continuarem a ser detentores da concessão.

A Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes está a preparar um plano de mobilidade para os nove concelhos que a compõem para dar uma resposta integrada às necessidades das populações, dependente das alterações à lei.