Paulo Portas falou em direto a sua demissão irrevogável do Governo no verão de 2013 e disse saber que “paga o preço” por ter revogado essa decisão. O vice-primeiro-ministro diz que tem confiança em Passos Coelho, uma relação “bem-humorada” com Maria Luís Albuquerque e um compromisso com o PSD para ganhar as próximas eleições, preferencialmente com maioria absoluta. O líder do CDS diz ainda que o PS devia ser mais “humilde” quando fala dos atuais números do desemprego em Portugal e que tem vários “receios” sobre uma possível governação de Costa.

Na primeira entrevista televisiva do líder do CDS desde 2011, emitida na SIC, Paulo Portas diz que continua a defender os “mais pobres dentro da pobreza portuguesa”, ou seja, os reformados com pensões baixas, dizendo que não aceitou perante a troika – ou “sindicato de credores”, como lhe chama – a acumulação da sobretaxa, a CES e a TSU das pensões. “O Estado falido é o maior inimigo do Estado social. Ganhámos margem de manobra para poder concentrar os próximos quatro anos na questão social”, disse o número dois do Governo.

Num Governo de coligação, Paulo Portas disse que há necessidade de chegar a compromissos e que apesar de a margem de retorno da sobretaxa do IRS acordada entre a coligação ser de 0,5% em 2016 – a eliminação total da sobretaxa de 3,5% deverá acontecer até 2019 -, é “expectável” que as pessoas venham a recuperar já em 2016 “uma parcela significativa da sobretaxa”. “E se as pessoas vierem a recuperar mais de meio ponto? Vamos ver”, disse mesmo o vice-primeiro-ministro, insistindo que esta era a medida “mais injusta” aplicada em Portugal, dando a entender que a culpa da sua implementação era do Tribunal Constitucional, e que a “prioridade absoluta” do Governo é eliminar a sobretaxa.

Quanto à convivência na coligação, nomeadamente a relação com Maria Luís Albuquerque – cuja nomeação para ministra terá causado a demissão do líder do CDS -, Paulo Portas diz que é “diária, muito boa e até bem-humorada”. O vice-primeiro-ministro disse que a sua demissão irrevogável há dois anos teve a ver com o rumo económico do Governo e que este ficou “mais coeso” depois da crise política. “Eu revoguei essa decisão, pago o preço em termos de compreensão por ter feito essa revogação”, disse Paulo Portas.

“Eu tenho confiança em Pedro Passos Coelho e tenho confiança que a política que desenvolvemos permitiu a Portugal poder escolher quatro anos com mais esperança”

Os receios de Portas em relação ao PS

O vice-primeiro-ministro disse que “ninguém sonha o que é governar um país que não tinha como pagar pensões e salários”, pedindo à oposição para não desvalorizar a criação de emprego em Portugal nos últimos quatro anos, pedindo “humildade” ao PS e ao seu líder. Questionado se aceitaria uma coligação com o PS que permitisse uma maioria absoluta, Portas diz que os socialistas não fizeram uma “revisão crítica” sobre o que se passou em 2011, afirma que percebe que pessoas questionem se Costa teria as mesmas atitudes do Syriza na Grécia depois de o líder socialista ter aplaudido a eleição do partido de extrema-esquerda e teme pelo défice. “Vejo o PS a disparar outra vez o défice”, afirmou.

“Estou a lutar por ganhar e por merecer uma maioria para que o país não tenha sarilhos”, afirmou ainda o líder do CDS, garantindo que os próximos anos, com a coligação à frente do país, serão quatro anos em que as atenções vão estar focadas nos assuntos sociais. “Ganhámos margem de manobra, desde que mantenhamos prudência orçamental há margem para que a próxima legislatura tenha foco social”, afirma o centrista.

Quanto à sua sucessão, Portas diz que pretende cumprir o mandato para o qual foi eleito há cerca de um ano. Reconhece que o CDS tem “mulheres e homens com muita qualidade” e que está tranquilo em relação ao futuro do partido.