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Quénia

Barack Obama. “Não há espaço para a opressão das mulheres no século XXI”

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Num discurso em que fez questão de recordar as suas raízes quenianas, Barack Obama deixou uma mensagem em nome da defesa dos direitos das mulheres.

“No mundo, há uma tradição de oprimir as mulheres. Não há espaço para isso no século XXI”

AFP/Getty Images

Autores
  • Miguel Santos Carrapatoso
  • Agência Lusa

Barack Obama é, por estes dias, uma verdadeira estrela em Nairobi. Depois de no sábado – e contra todas as recomendações dos seus conselheiros – ter feito um discurso onde criticou as leis contra homossexuais no Quénia e no resto do continente africano, este domingo, o Presidente norte-americano voltou-se para a defesa da igualdade de direitos das mulheres africanas. “As mulheres não podem continuar a ser tratadas como cidadãs de segunda”, afirmou.

Num discurso marcado pelas referências às suas raízes quenianas, o líder norte-americano começou por defender que no século XXI “não há espaço” para aquelas tradições que, em muitas partes do mundo, continuam a “oprimir as mulheres” e a tratá-las como “cidadãs de segunda”. Obama apelou, ainda, para que fossem banidas as práticas que violam os direitos da mulher em todo o mundo. “No mundo, há uma tradição de oprimir as mulheres. Não há espaço para isso no século XXI”, apontou o chefe de Estado norte-americano.

A violação dos direitos das mulheres com práticas tão abusivas como a mutilação genital ou os abusos, são praticadas no Quénia e em numerosos países africanos, onde Obama considera necessário lutar pela igualdade de género.

“Cada país e cada cultura têm tradições que são únicas e que ajudam a tornar esse país o que ele é. Mas só porque [uma tradição] faz parte do passado do país, não faz dela uma tradição correta, não significa que possa definir o futuro do país. Maridos que batem nas mulheres, crianças que não vão à escola, casamentos forçados… são tradições. [Assim como], considerar as mulheres cidadãs de segunda. [Mas] são tradições que precisam de mudar”, insistiu.

Perante uma plateia de 5 mil pessoas, que aplaudiam efusivamente o Presidente norte-americano a cada frase em nome da defesa das mulheres e dos jovens quenianos, Barack Obama deixou bem claro que “não há nenhuma desculpa para justificar a agressão sexual ou a violência doméstica”, nem “nenhuma razão” para a “mutilação genital” de milhares de jovens africanas todos os anos. “Numa sociedade civilizada” não há lugar para isto nem para “o casamento precoce ou forçado de crianças”, continuou o norte-americano. “Estas tradições podem ser seculares, mas não têm lugar no século XXI. São questões de ‘certo’ e ‘errado’ em qualquer cultura”.

A história do avô paterno que era obrigado a servir os colonos britânicos

As raízes quenianas do Presidente norte-americano acabaram por marcar, também, grande parte do seu discurso. Esta é a primeira visita do líder dos EUA ao Quénia, país de origem do pai, desde que venceu as eleições em 2009, e Barack Obama não quis deixar os créditos por mãos alheias.

“Sinto-me orgulhoso de ser o primeiro Presidente norte-americano a visitar o Quénia e, claro, por ser o primeiro Presidente queniano-americano a chegar a Presidente dos Estados Unidos da América”, começou por dizer Obama antes de ser ovacionado pelos 5 mil quenianos presentes.

Como conta o jornal Guardian, o líder norte-americano aproveitou o discurso para recordar a sua primeira visita ao Quénia, em 1987, onde, pela primeira vez, teve contacto com as suas raízes africanos. Mas a história dessa viagem nem começou da melhor da maneira. Pouco depois de chegar ao aeroporto de Kenyatta, a companhia aérea informou-o que tinha perdido toda a sua bagagem. Quando tentou pedir ajuda a uma funcionária do aeroporto para preencher os formulários, ela viu o seu nome, Barack Hussein Obama II, e perguntou se tinha alguma coisa a ver com Barack Hussein Obama, o pai. “Foi a primeira vez que o meu nome significou alguma coisa [para alguém]”, confessou.

Já no Quénia, Obama, então com 26 anos, conheceu pela primeira vez a história dos seus antepassados. A certa altura, enquanto vasculhava os pertences dos seus antepassados, encontrou um documento de identificação do avô paterno, que fora cozinheiro de uma família de colonos britânicos, onde constava “a idade, a altura, a tribo a que pertencia, o número de dentes que tinha perdido e onde era tratado como ‘rapaz’ [“boy”, em inglês, termo que os colonos brancos chamavam aos escravos negros]”. Um homem passou a sua vida adulta a ser tratado como “rapaz” por causa da cor de pele.

O pai de Obama acabou por contrariar o destino. Depois de lutar pela independência do Quénia, conseguiu ganhar a liberdade e mudar-se para o Havai, onde estudou economia e conheceu a antropóloga Ann Dunham, mãe do futuro Presidente dos Estados Unidos da América. Quando vasculhava nos papéis do avô, Barack Obama encontrou “cartas que o pai havia escrito para 30 universidades norte-americanas onde pedia uma hipótese de seguir o sonho de estudar e obter uma bolsa de estudos”.

“E, finalmente, [alguém lhe] deu essa hipótese. A Universidade do Havai. O meu pai tinha assim a oportunidade de estudar e depois voltar para casa. Tornou-se bem-sucedido como economista e trabalhou com o Governo, mas [nunca ultrapassou] a deceção de não conseguia conciliar as ideias que tinha para o seu jovem país com as duras realidades que o confrontaram”, contou Obama, para lembrar que existem ainda muitas barreiras a quebrar para que o Quénia encontre, finalmente, o caminho do progresso.

Mas o futuro dos jovens quenianos vai ser diferente, acredita. E foi isso que fez questão de dizer no último discurso proferido em solo queniano antes de rumar à Etiópia. “Quando se trata de o povo do Quénia, particularmente os jovens, eu acredito que não há limites. Hoje, um jovem ambicioso não precisa de fazer o que fez o meu avô e servir um mestre estrangeiro. Não tem de deixar a sua casa para conseguir uma boa educação e acesso a oportunidades. Graças ao progresso do Quénia, graças ao seu potencial, os jovens podem construir o seu futuro aqui e agora”, afirmou Barack Obama.

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