Eram manhãs, tardes e noites em que horas pareciam minutos. O tempo passava num ápice. Parecia ser acelerado quanto mais os olhos, e a mente, se colavam como lapas no que se ia passando no ecrã do computador. Que jogadores escolher, a tática, o regime de treino, as contratações, a relação com a imprensa. Muitas foram as cabeças que ocuparam o tempo livre com horas e mais horas de Football Manager — do jogo que colocava quem o jogasse a treinar, com um teclado e um rato, uma equipa de futebol. Vício é uma palavra que, ainda hoje, rima com FM, sigla que desde 2005 abrevia o mais conhecido simulador de andar aos pontapés na bola. Mas houve um “antes” para existir o “agora” que, através de um jogo, rouba desde 2005 a atenção de gente em todo o mundo.

E este “antes” até tinha o mesmo nome. Também se chamava Football Manager, apareceu em 1982 e os gráficos até para o Tetris perdiam em sofisticação. Mas não era isso que interessava a Kevin Toms, nem podia. Quando o inglês, então com 25 anos, começou a matutar como iria desenhar um jogo que colocasse quem o jogasse a ser um treinador no mundo da bola, a preocupação era outra. “Para mim não tem nada a ver com conseguir gráficos realistas. O sentido está em conseguir que as emoções sejam reais, sentimentos verdadeiros na tua mente e imaginação. Essa é a principal razão pela qual programo videojogos”, escreveu, num dos emails que trocou com o El Confidencial, jornal que seguiu o rasto dos simuladores de futebol e encontrou o homem que criou o primeiro.

Toms fê-lo numa época em que o Arcade, ou os jogos de arcada, mandavam. Aqueles de vício fácil, que apostavam nos desafios tão simples quanto difíceis de concretizar. Tudo e todos tinham os olhos postos neste tipo de jogo, que puxavam mais pelo instinto do que pela cabeça. Aí, na época em o preço dos primeiros computadores começou a sorrir ao consumidor comum, a programação ficou ao alcance de quem a quisesse experimentar. Kevin quis e, por isso, pegou num Video Genie, um microcomputador produzido em Hong Kong, e arriscou. “Tenho noção de que a ideia foi uma novidade, pois, na altura, o mundo estava voltado para a programação de arcades, mas criar o Football Manager foi, para mim, um processo completamente natural”, admitiu.

É difícil reclamar a originalidade de uma ideia, mas Kevin foi, isso sim, o primeiro a executá-la. Em 1982 começou a ser vendido o Football Manager para a Spectrum 48k, a velhinha consola, em forma de teclado, que se ligava a uma televisão. Os gráficos, novidade das grandes na altura, são, aos olhos atuais, pouco mais de uma junção de poucas cores com letras de geometria computorizada. Até houve direito a resumos dos jogos que, pela lentidão, mais parecia um jogo de xadrez. Mesmo assim, correu bem: em seis meses, o primeiro Football Manager vendeu 10 mil cópias. Até pessoas caídas de amor pelo jogo lhe enviaram cartas com elogios à sua criação.

Kevin Toms até tinha uma imagem de marca — colocava a sua cara barbuda na capa dos jogos, ao lado dos tais elogios que os jogadores lhe enviavam. “Para mim, o segredo estava no delicado equilíbrio da sensação de ter controlo do que se passa, mas não ter a certeza. Ou seja, que nunca saibas realmente o que vai acontecer, que a possibilidade de suceder algo inesperado esteja sempre presente”, explicou, antes de embrulhar tudo numa frase que ainda vale para a versão moderna do FM: “O êxito do jogo não estava garantido por melhor que fosse a estratégia.” É por isso que, desde aí, o Football Manager já tenha queimado pestanas e dado cabelos brancos a muita gente que, por vezes, o leva demasiado a sério.

O programador inglês lançou o jogo através da Addictive Games, produtora que o próprio fundou. A sequela, o Football Manager World Cup, já seria lançada com a Prism Leisure Corporation, à qual vendeu a sua empresa. O sucesso também daria a mão à segunda versão do jogo, algo que não fez à terceira, intitulada Football Manager 3, que já não contou com um Kevin Toms desgastado pela vida que a profissão lhe roubava. Os fãs da saga souberam da sua ausência e torceram o nariz ao facto através das vendas, que caíram a pique. O legado, contudo, estava criado e, em 2005, a Sports Interactive (criadora) e a Sega (distribuidora) lembraram-se dele quando batizaram de Football Manager o jogo que, até aí, era conhecido como Championship Manager.

(O trailer do documentário, lançado em 2014, sobre a versão atual do Football Manager.)

E hoje, onde anda Kevin Toms? Se descurarmos a evolução dos tempos e os pulos que a tecnologia deu nos últimos 30 anos, o inglês está a fazer o mesmo — lançou há tempos um simulador de futebol para smartphones, disponível tanto para iOS e dispositivos Android. Chamou-lhe “Kevin Toms Football”, mesmo com tantos degraus galgados na escada da tecnologia, os gráficos continuam a ser bem simples. Será que este também vicia?