Aimé Barroyer está de calções e polo, com uma mangueira na mão, a lavar o terraço do seu novo Rambóia, na Costa da Caparica. “Sabes, este é o meu momento zen”, diz com sotaque francês carregado e um sorriso largo no rosto. A expressão resume bem o que o chef procura com este novo projeto. Momentos zen, nem mais, nem menos. Como criticá-lo?

Há uns anos, apostar que o antigo responsável pelas cozinhas do Valle Flor, no Pestana Palace, ou do vetusto Tavares, no Chiado, ainda iria, um dia, abrir um restaurante na Costa da Caparica, a 50 metros da praia, seria coisa para provocar gargalhadas de descrédito em alguns entendidos nesta matéria. Mas a verdade é que Aimé abraçou a Margem Sul — “sinto-me em casa deste lado”, diz — e decidiu torná-la palco de uma rambóia preparada há algum tempo com o sócio e amigo de longa data Roger Branco, responsável pela Hamburgueria do Bairro.

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Rambóia pode ser, por exemplo, uma pavlova servida num pedaço de tronco.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

Uma rambóia? Isso mesmo

A ideia de terem um negócio em conjunto não é nova. Vem dos tempos em que Roger passava horas na cozinha do Valle Flor para aprender a cozinhar com Aimé. A amizade nasceu, cresceu e o chef francês tornou-se uma espécie de conselheiro do empresário, acompanhando Roger a cada passo que este foi dando no mercado. Agora estão juntos, sob um nome que também é um mote: Rambóia. A razão? “A vida é uma rambóia”, responde imediatamente Roger. “Porque queremos estar bem, felizes, e ter espaço para receber os amigos”, acrescenta Aimé.

Rambóia na Caparica

A resposta também sai pronta à million dollar question da localização: mas porquê na Costa da Caparica? “A ponte às vezes parece uma fronteira. Enquanto em Lisboa abrem restaurantes a toda a hora aqui muitas vezes há falta de coisas novas”, explica Roger, que há dois anos trocou a capital, onde viveu toda a vida, pela Aldeia dos Capuchos, perto da Costa da Caparica. Já os argumentos de Aimé estão mais ligados ao paladar. “Aqui até a salada de tomate sabe melhor, porque se for preciso eu vou comprar diretamente ao senhor que tem a horta. O mesmo com a carne ou com o peixe que os pescadores vêm cá trazer.”

E se a primeira intenção de ambos até foi abrir o restaurante no Príncipe Real, parece que o problema com a licença do edifício que impediu que isso acontecesse foi um mal que veio por bem. “A verdade é que a margem Sul das cidades é, historicamente, sempre a mais alternativa, a mais criativa. Lisboa está a massificar-se: se abríssemos lá íamos tentar não ser mais um restaurante mas íamos acabar sempre por ser mais um restaurante”, justifica Roger.

O sol quando nasce é para todos. O Rambóia também

Apesar do chef de nomeada, apesar das mesas bem postas, apesar de tudo, este não é um restaurante convencional. “Não temos horas de refeição, quem quer comer um tacho às 16h pode vir, mas quem quiser vir só beber café, também.”, garantem os responsáveis. Ou seja, não há discriminação: todos são bem-vindos mesmo que apareçam só para beber um copo ou comer um dos gelados fornecidos pela Pintado, a mais clássica das geladarias da Costa da Caparica.

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Rambóia também pode ser haver uma mesa de família para juntar pessoas que não são da mesma família. (foto: © Tiago Pais / Observador)

Não quer isto dizer, contudo, que não se deva encarar a ementa do Rambóia com seriedade. Deve. Até porque ela é longa, versátil e criativa. Divide-se em várias secções: Tiro de Partida; É no Pão, Talheres para Quê?; É de Lamber os Dedos; Traga o Tacho, Partilhar é que é Bom; Há Sopas, Saladas e Bife Tártaro; No Rambóia o Final é Sempre Doce. Trocando por miúdos: entradas, sandes, petiscos, comida de tacho, sopas e saladas, sobremesas.

O que se come?

De tremoços com piri-piri a chips de batata-doce, de choco frito a moelada de frango com chouriço, de manta desfiada à moda da Bairrada a guisadinho de borrego, batata-doce e hortelã, a escolha é vasta e ainda inclui uma tosta, um hambúrguer e uma francesinha. Sim, francesinha, porque quem comanda a cozinha é um homem do norte, o jovem chef Tomás Pires, braço direito de Aimé Barroyer há vários anos.

E o futuro?

Abrir um restaurante em Lisboa para, como dizem, “fazer uma ponte com este” continua a ser um objetivo da dupla. Mas por enquanto o foco está mesmo neste novo espaço, e no espírito que pretendem transmitir com ele. “Descontração acima de tudo”, não se cansa de repetir Roger. Aimé não podia concordar mais. Este é mesmo o seu momento zen.

Nome: Rambóia
Morada: Avenida General Humberto Delgado, 7D (Costa da Caparica), Almada
Telefone: 21 405 9612
Horário: Todos os dias, das 12h à 00h
Reservas: Aceitam
Preço Médio: 20€