Seis investigadores, três da Universidade de Coimbra (UC) e três da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, estudaram, em colaboração, por mais de um ano, a possibilidade de vir a transformar a luz solar que reflete nas janelas, em energia elétrica. Um estudo que, garantem, pode vir a ser, a curto prazo, mais eficiente e economicamente mais viável que os painéis fotovoltaicos que hoje existem.

Carlos Serpa, químico de 44 anos, foi um dos investigadores que lideraram o estudo. Lisboeta, fez toda a sua formação académica na cidade de Coimbra, tendo, no entretanto, ingressado no California Institute of Technology, o “Caltech”, nos Estados Unidos. Há quatro anos, a par de outros investigadores, criou a LaserLeap Technologies, uma empresa que, explica, “foi criada para aproveitar uma investigação anterior, patenteada, e que, através da tecnologia laser, vem facilitar a entrada de medicamentos através da pele”.

Os compostos de Platina [que vão ser utilizados na janelas] têm uma forte capacidade de absorver grande parte das cores do arco-íris, especialmente a cor vermelha, mais difícil de captar. Esta é uma característica essencial para a transformação eficiente de luz solar em energia elétrica.”

O laser, a tecnologia laser, está presente em quase todas as investigações de Carlos Serpa, e foi também o laser que o trouxe à presente investigação, co-financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. “Foi-nos possível realizar a investigação no âmbito do Laser Lab Europe, que é uma instituição, se quiser, à imagem do CERN, na Suíça, e que agrega os laboratórios de laser de toda a Europa, incluindo o Laser Lab de Coimbra”, explica.

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É num centímetro quadrado de vidro que são realizados os testes no Coimbra Laser Lab.

O Laser Lab de Coimbra, garante Carlos Serpa, “está ao nível dos melhores laboratórios da Europa”, e, aqui, pela primeira vez, foi avaliado o potencial de alguns compostos de Platina, através de um método sensível de calorimetria fotoacústica, uma tecnologia única, desenvolvida em Coimbra. Quanto à investigação, explica que os compostos de Platina estudados “são candidatos promissores para aplicações na conversão da energia solar em eletricidade, tendo como grande vantagem a sua capacidade de intensa absorção no visível – e em parte do espectro do infravermelho próximo”. Na prática, se pensarmos nas cores do arco-íris, “estes compostos de Platina têm uma forte capacidade de absorver grande parte dessas cores, especialmente a cor vermelha, mais difícil de captar. Esta é uma característica essencial para a transformação eficiente de luz solar em energia elétrica”.

Para sair do laboratório e passar à prática, o que falta fazer?

Os resultados deste estudo foram considerados “HOT Article”, tal o seu valor científico, e chegaram à capa da edição de julho da Dalton Transactions, uma importante revista de química britânica, editada pela Royal Society of Chemistry. “Há duas ou três revistas que são de topo. Esta é uma revista, diria, média-alta. O que nós fazemos, para que a investigação seja publicada, é escrever o trabalho em forma de artigo, onde relatamos as experiências, defendemos a relevância dos nossos resultados e apresentamos uma conclusão, enviando-o para a revista. Mas, confesso-lhe, não esperava vir a ser tema de capa. A visibilidade para os nossos pares é maior. O melhor de tudo é que esta revista saiu em julho, que é a altura dos congressos, e a revista vai lá estar, as pessoas pegam nela, o que dá maior visibilidade ao nosso trabalho.”

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A capa da revista da Royal Society of Chemistry, onde a investigação que Carlos Serpa liderou foi tema de capa.

No entanto, a aplicação prática deste estudo não será imediata. Mas sê-lo-á em breve, assim surja um investidor. “O trabalho que foi apresentado é sobretudo um trabalho ‘fundamental’. Quer isto dizer que os resultados não vão ser aplicados de hoje para amanhã. É um trabalho que vem explorar ideias que podem ‘dar frutos’ no campo do fotovoltaico, na utilização do sol, mas que, repito, ainda está numa ‘fase fundamental’. O que foi publicado é a exploração de ideias que podem vir a ser aplicadas nas janelas, nos materiais de construção, como tijolos ou azulejos, e são esses materiais que vão ser os painéis fotovoltaicos do futuro.”

Na eletricidade que consumimos, o mais caro não é a produção, mas o transporte. Se a produzir no sítio onde a consumo, não tenho o custo do transporte. Mesmo se a produzir mais cara — e até pode ser o dobro –, ainda consigo que seja viável.”

As empresas são a chave para que o estudo saia do papel e do laboratório. Um estudo que, por enquanto, ainda tem o tamanho, não de uma janela ou de um azulejo, mas de um centímetro quadrado. “O mais importante é que tem existido nos últimos anos uma vontade, tanto das universidades como das empresas, de trazer coisas novas, patenteadas, para a luz do dia. Patentear é a primeira coisa a fazer. Depois, procurar parceiros. Uma empresa vidreira era um parceiro óbvio. Mas há muitas empresas que podem ser parceiros. O mundo está aqui à porta”, refere Carlos Serpa.

Mas é este um estudo viável? “A conta mais simples de fazer é que na eletricidade que nós consumimos, o mais caro não é a produção, mas o transporte. Se a produzir no sítio onde a consumo, não tenho o custo do transporte. Mesmo se a produzir mais cara, e até pode ser o dobro, ainda consigo que seja viável.”

Contudo, a investigação, entretanto publicada, ainda tem um longo caminho pela frente, e há arestas a limar. “O tempo de vida do composto no estado necessário para a transformação em energia elétrica é muito curto, daí que sejam ainda necessários novos estudos, que passam pela modificação das moléculas que envolvem o átomo de Platina, alterando assim as propriedades do composto para obter as condições mais favoráveis à transformação da luz solar captada, em eletricidade. Por outro lado, às vezes há novos problemas que surgem, que são de engenharia, na adaptação para a grande escala”, explica o investigador.