“Aqui está o leão”. É o que diz o primeiro verso da música introdutória do clássico da Disney, “Rei Leão”. É indecifrável para a maior parte dos portugueses porque está cantada em zulu, uma língua africana. E é precisamente nos territórios de África que os leões estão a desaparecer: a perda abrupta de território – 75% do habitat felino já desapareceu – e a caça intensiva e ilegal estão a atirar os reis da selva para a lista de animais em vias de extinção da International Union for the Conservation of Nature (IUCN). Só existem 32 mil animais desta espécie em África. Há cinquenta anos, eram mais do triplo. Agora mataram um dos seus ícones: Cécil, o leão mais fotografado do Botswana, um símbolo que caiu na ponta de uma flecha de 50 mil dólares pagos por um dentista americano.

Caça

Quem normalmente fica com a função da caça é a leoa. O macho – que pode chegar a ter 3,30 metros de comprimento, 250 quilogramas e uma juba de com 24 centímetros – é demasiado pesado para uma prática que envolve agilidade. A fêmea, que pode ter 2,70 metros de comprimento e 190 quilogramas de peso, é mais talhada para a caça. É também a elas que, a cada dois meses e ao fim de 119 dias de gestação, cabe cuidar dos até seis filhotes. Os machos adultos – com especial importância para o alfa, líder da alcateia – costuma acasalar com as fêmeas do grupo, mas apenas depois de testar a sua qualidade genética.

Neste ciclo da vida, caçam camuflados entre as ervas secas, à espera que a presa – normalmente gazelas, girafas ou zebras – se encontrem vulnerável. Depois correm a velocidades estonteantes que podem atingir os 81 km/h, agarram-nas com garras de 8 centímetros mordem-nas com os seis caninos. 

Procriação

Tudo passa (tal como nos humanos, mas com menor importância na tomada de decisão) pelas feromonas. Chama-se reação Flehmen: o leão cheira o território feminino e deteta a sua presença através da urina. Depois fecha as narinas e respira pela boca: é assim leva o odor até ao órgão de Jacobson, onde é analisada a presença de hormonas sexuais. E fica a saber se as fêmeas estão prontas para acasalar.

Mas a escolha não é só do macho. Ao longo dos catorze anos de vida, a juba felina dos leões escurece e torna-se mais atraente para as leoas. O rugido também é importante neste contexto: quanto mais forte for (normalmente pode ouvir-se a nove quilómetros de distância), maior a afirmação que o leão tem no grupo. E as feromonas também são importantes para ela: ao cheirar a urina das outras fêmeas, ela pode sincronizar o seu período fértil e todas podem entrar na fase do cio ao mesmo tempo. E então entram em competição pela atenção sexual leonina.

Qual a razão deste comportamento? Os leões são felinos sociáveis, isto é, vivem em grupo e sobrevivem pela proteção conjunta. Se existissem vários leões prontos a acasalar e apenas uma fêmea disposta a isso, eles teriam de lutar entre si e quem saísse vitorioso teria privilégio sobre a leoa. Os outros ficariam feridos e enfraquecidos, o que prejudicaria o grupo. Com a sincronização das leoas, ficam todos em situação de igualdade. Durante um par de dias, os leões acasalam várias vezes ao dia, em nome da preservação da espécie.

Vida em sociedade

A juba farta e o rugido vigoroso não são as únicas características que tornam um leão dominante. Aquele que primeiro encontrar uma leoa em período fértil é considerado o rei do grupo. O que gera lutas entre machos adultos, a não ser que os dois sejam da mesma família. Nesse caso, a escolha é outra. A prioridade da procriação entre leões é manter os genes “acordados”, isto é, que as gerações vindouras contenham a mesma informação genética. Além disso, precisam de estar unidos para lutar contra leões de um grupo diferente que venham em busca de leoas.

Essa é uma das situações mais agressivas entre leões. Por vezes, leões vindos de outros grupos tentam impor-se em alcateias diferentes através da procriação com leoas. Se conseguirem, diminuem o domínio dos machos adultos do grupo. E não é apenas uma questão de orgulho ferido, mas também de sobrevivência de linhagem: quando um leão “estrangeiro” se apodera de um grupo mata as crias do antigo macho alfa para impedir que estes cresçam e lhe tomem o lugar. É o que pode acontecer aos descendentes de Cécil.

A família ocupa um lugar fulcral na vida em sociedade dos leões. Um exemplo está na infância das crias. É raro que um leão seja renegado do seu grupo e venha ocupar outro (se o fizer pacificamente, os machos do novo grupo não o verão como uma ameaça), por isso normalmente são todos parentes. E é por isso mesmo que as leoas não sentem pudor em amamentar os sobrinhos, além dos filhos. É benéfico para todos, porque todas contribuem para o desenvolvimento das futuras gerações.

Mais uma vantagem da vida em grupo de um leão: a caça é mais eficaz. Não que haja mais alimento para cada um dos membros, mas porque é mais fácil escapar à ameaça das hienas, que em grupo são capazes de afugentar um leão solitário.

Comportamento

Os leões passam 20 horas por dia a dormir, embora a maior parte do tempo seja num sono leve. Estão sempre em alerta, mas ao dormitarem conseguem uma maior eficácia na digestão: o metabolismo corporal absorve os nutrientes dos alimentos ingeridos e os níveis de energia aumentam.

Um pequeno alerta: se algum dia se deparar com um leão enquanto abana a cauda está na hora de fugir. Ao contrário do que acontece com os cães, se um felino gigante abanar a cauda está a demonstrar descontentamento. Se estiver caída, o animal está tranquilo.

O leão é um dos animais mais investigados pela ciência, mas ainda restam algumas dúvidas: porque razão a juba de um leão cresce mais quando está em cativeiro? Porque motivo procriam todos os anos quando não estão no habitat natural? E para que serve a “unha” que os leões têm na ponta da cauda, entre um tufo de pelo?