Que ouvir um bebé a chorar pode ser algo assustador – sobretudo para os pais que por vezes não sabem o motivo – não é novidade para ninguém. Mas o que se descobriu agora é que, de facto, os bebés choram para assustar, para alertar, as pessoas. É o que diz um novo estudo.

Vamos por partes. O grito humano é uma das ferramentas mais importantes da comunicação porque garante de sobrevivência, explica o estudo publicado na Current Biology. O que não se sabia até agora era a qualidade sonora que lhe conferia essa importância, nem como era interpretado pelo cérebro. Um psicólogo da Universidade de Nova Iorque, desvendou essas qualidades: os americanos chamam-lhe roughness, os espanhóis dizem que é a dureza. Por cá, podemos dizer que é a severidade ou a austeridade da voz.

A severidade de um grito não só estimula as partes do cérebro responsáveis pelos sinais acústicos e da linguagem, mas também pelas zonas que nos colocam em alerta e nos: “Cuidado, deves proteger-te, há perigo”. Ora, a severidade do pranto de um bebé também tem essas características e por isso pode assustar qualquer um, inclusive um pai confuso.

O tom dos gritos não tem de ser nem muito agudo, nem muito grave. É a sua severidade que lhe confere a particularidade em relação aos outros sons emitidos durante uma comunicação, como explica o El País. Porque o transforma num alerta dentro de um “nicho único e privilegiado no nosso cérebro com uma função biológica e socialmente efetiva”. Através de análises acústicas, experiências psicofísicas e de neuroimagiologia, os investigadores deram-se conta de que “os gritos ocupam um fragmento reservado do espetro acústico”.

Como o descobriram? Por comparação. Mediram a intensidade de um grito com o canto, a fala e também com o barulho emitido pelo apito de um carro. O grito não tinha semelhança acústica nenhuma com o canto ou a fala, mas sim com o apito do automóvel: ambos “acordavam” a parte do cérebro que sinaliza o tal estado de alerta, através de uma variação muito rápida. “O intervalo de intensidade em que se move a linguagem oral é entre 4 e 5 Hz, enquanto os gritos modulam muito mais rápido, entre os 30 e os 150 Hz”. E o pranto de um bebé é dos mais intensos dentro deste intervalo.

Com estudos desta natureza, é possível ajudar os engenheiros a produzir sinais de alarme mais eficazes. Os carros elétricos, que são conhecidos por serem silenciosos, têm esta desvantagem, algo que pode vir a fazer parte do passado. Mas o contrário também é válido: pode diminuir-se a severidade de um som que, na verdade, pode ser mais agradável. E é um bom primeiro passo para entender a linguagem animal: será que os bichos funcionam da mesma maneira?