Quatro leões, seis elefantes, dois leopardos, dois crocodilos, três zebras um lince e um antílope. Em 2013, foram 19 os troféus de caça importados para Portugal. O número é muito inferior ao de países como Espanha ou França, mas mostra que nem os portugueses resistem ao turismo de caça da savana africana.

Em Portugal, à semelhança de todos os outros países que pertencem à Convention on International Trade in Endangered Species (CITE), a importação de troféus de caça é totalmente legal, desde que estes sejam acompanhados das devidas licenças, como explicou ao Observador Ana Zúquete, diretora do Departamento de Recursos Naturais e Conservação da Natureza (ICNF). Estas licenças servem para garantir que o abate dos animais ocorreu de forma legal e sustentável.

O número de troféus importados, registado pelo ICNF desde 1985, tem sido algo instável. Em 1993, foram 33 as peças importadas para Portugal. Em 2003, o número ascendeu para 184 e em 2010 voltou a descer para os 47. Entre 2011 e 2012, foram registadas 97 peças, sendo que oito pertenciam a leões.

Nos últimos dez anos, chegaram a Portugal 1.141 peças, 136 pertenciam a leões. A maioria dos troféus vem até Portugal de avião, disse ao Observador Ana Zúquete. Mesmo assim, os números mais altos não chegam para superar países como Espanha ou os Estados Unidos da América, os principais clientes dos safaris de caça africanos.

Um leão por 25 mil euros e um elefante por 40 mil

Os preços praticados nos safaris africanos variam muito de operadora para operadora, dependendo do pacote escolhido, do tipo de caçada e do tipo de troféu. Estes podem ser consultados com facilidade em qualquer site de safari de caça africano, e costumam vir acompanhados de uma fotogaleria onde é possível ver antigos clientes junto dos seus troféus de caça.

Um pacote completo costuma incluir alojamento, alimentação, transporte e todo o tipo de comodidades, como o apoio de caçadores profissionais, aluguer de armas e preparação dos troféus. Na African Sky Hunting, por exemplo, uma empresa de safaris que opera na África do Sul e no Zimbabué, uma noite de alojamento custa 413,49 euros, enquanto na Phirima Safaris, uma outra operadora, custa 597,26 euros.

A estas taxas são ainda acrescidos os custos dos troféus. Os mais populares são os chamados “big five”, as cinco espécies africanas mais difíceis de caçar. Mas estas são também as mais caras — caçar um rinoceronte, um animal em vias de extinção, pode custar cerca de 321 mil euros, de acordo com dados da CNN, um elefante pode custar por volta de 40 mil euros, um leão até 25 mil, um leopardo e um búfalo 13 mil.

Por norma, um safari nunca dura menos do que sete dias e pode prolongar-se por três semanas. Durante esse período, um caçador mata em média entre dois a dez animais.

Norte-americanos e espanhóis são os principais clientes

Uma estimativa feita pelo Safari Club International (SCI) em 2008 refere que, todos os anos, 18.500 turistas viajam para África exclusivamente para caçar. Isto significa que uma empresa que organize grandes caçadas em África recebe, em média, 14,5 clientes por ano.

A grande maioria dos turistas que procura este tipo de safaris para passar as férias não vive no continente africano. Vêm de fora, de países como Espanha, França ou Estados Unidos da América. Os norte-americanos são os principais clientes, principalmente “em países onde os safaris são mais caros”, refere um relatório da International Union for Conservation of Nature and Natural Resources (IUCN), publicado em 2009.

Na Tanzânia, por exemplo, um dos principais destinos de caça do continente africano, os norte-americanos representam 34% dos clientes. Só entre 2010 e 2013, foram responsáveis pela importação de três mil troféus de caça de África para os Estados Unidos da América.

Beverly Pervan, fundadora da Campaign Against Canned Hunting (CACH), uma organização de defesa dos direitos dos animais que luta pelo fim da caça furtiva, garante que 56% dos caçadores que procuram safaris de caça na África do Sul vêm dos Estados Unidos da América. Cerca de 30% são originários de países europeus e 14% de outras regiões do globo.

De acordo com o relatório da IUCN, os franceses e os espanhóis surgem logo a seguir. Só em 2013, foram importados para Espanha 533 troféus de caça, sendo que 44 pertenciam a leões. Estes números superam largamente os de países como França, Reino Unido e Rússia, alguns dos principais clientes europeus do turismo de caça africano.

“Na África francesa, existem muitos europeus, principalmente caçadores franceses. Isto é ainda mais pronunciado na África Oriental. A seguir aos franceses, os espanhóis representam o segundo maior grupo”, pode ler-se no documento da IUCN.

600 leões morrem todos os anos

Todos os anos, milhares de animais morrem às mãos de caçadores furtivos. Apesar do apelo das organizações internacionais, os governos africanos não parecem estar inclinados a restringir ou a impedir a caça de animais de grande porte, como os leões ou os elefantes. Em África, a caça é mais do que um desporto — é um negócio que gera anualmente várias centenas de milhões de euros.

A maioria dos países ainda permite a chamada caça grossa, que inclui espécies de grande porte que não estão em vias de extinção, como antílopes, zebras ou javalis, e animais que são geralmente considerados perigosos, como leões, rinocerontes, leopardos ou hipopótamos. As caçadas acontecem, geralmente, em espaços criados exclusivamente para o efeito — em grandes concessões de área florestal ou de savana, exploradas por uma empresa.

Em 2009, o relatório da IUCN estimava que existiam cerca de 1.300 empresas de safaris em todo o continente africano. A maioria encontra-se na África do Sul, onde o turismo de caça gera anualmente cerca de 92 milhões de euros.

A generalidade dos animais é criada em cativeiro exclusivamente para a caça. Só na África do Sul existem pelo menos 200 “quintas de leões”, onde os animais são criados até atingirem a maioridade. Uma vez atingida a idade adulta, estes são libertados em grandes áreas vedadas onde não têm hipótese de escapar. A caçada dura cerca de três dias. “A ‘caça enlatada’ é um grande negócio na África do Sul. Existem cerca de 200 quintas de leões e aproximadamente sete a oito mil leões em cativeiro”, disse ao Observador Beverly Pervan, da Campaign Against Canned Hunting.

“Na África do Sul, é legal criar leões para caçar. Não existe nenhuma política governamental que proteja estes animais”, acrescentou Beverly Pervan.

Todos os anos, morrem cerca de 190 leões no país às mãos de caçadores. A seguir à África do Sul, a maior fatia do negócio encontra-se no Zimbabué, onde Cecil, o famoso leão da reserva de Hwange, foi morto. Aí, a IUCN estimava que existiam 149 operadoras em 2009, com um lucro anual de 15 milhões de euros. Os animais mais procurados são leões e búfalos, à semelhança do que acontece um pouco por todo o continente africano.

No total, a organização internacional estima que, por ano, sejam mortos 105 mil animais, que incluem 640 elefantes, 3.800 búfalos, 600 leões e 800 leopardos. Os defensores da “caça enlatada” estão convencidos de que a prática ajuda a conservar a vida selvagem, uma vez que desencoraja os turistas a caçarem fora das reservas de caça. Apesar disso, não existem evidências de que este tipo de caça realmente faça diminuir a procura por animais selvagens.

Por outro lado, as organizações internacionais de defesa dos animais continuam a argumentar que este tipo de caça é “imoral” e que “não é sustentável”. “Estas quantidades não são razoáveis. Matar 600 leões numa população total de 25 mil, por exemplo, não é sustentável”, refere o relatório da IUCN.

De Moçambique para Portugal

Moçambique é um dos vários países africanos que permite a caça de leões e de outras espécies de grande porte, como elefantes, hienas malhadas, hipopótamos, leopardos, zebras, búfalos e crocodilos. Ao todo, existem 12 coutadas oficiais onde a caça desportiva é permitida. Estas estão localizadas fundamentalmente na zona centro do país, nas províncias de Sofala e Manica, numa área correspondente a 19,6% do território moçambicano.

Existem várias operadoras de turismo de caça a funcionar no território moçambicano. A maioria é estrangeira e, à semelhança do que acontece em outros países, os preços podem variar. Na Zambeze Delta Safaris, por exemplo, um safari com uma duração de dez dias em Moçambique pode custar entre 10.567 euros (búfalos) e 27.107 euros (leopardos).

De acordo com o relatório da IUCN, entre 2007 e 2008 foram mortos 23 leões, um número que correspondente a menos de 20% da quota estabelecida pelo Governo. Segundo dados da CITES, em 2013 foram importados 113 troféus de Moçambique, sendo que 17 pertenciam a leões e 15 a elefantes. Desses 113 troféus, sete tiveram como destino Portugal.

A falta de fiscalização do setor faz com que o país seja alvo frequente de operações criminosas, que têm como alvo a captura de elefantes e rinocerontes. Nos últimos cinco anos, a caça furtiva já dizimou quase metade da população de elefantes de Moçambique. Os últimos rinocerontes foram caçados ilegalmente em 2013.

Douglas Griffitths, embaixador norte-americano em Maputo, considerou no passado mês de junho que as ações das “redes criminosas”, que estão “por detrás de grande parte da caça e tráfico de animais selvagens”, têm vindo a privar as “comunidades locais da riqueza natural e dos meios de subsistência local”.

“Os sindicatos do crime, fortemente armados, estão a dizimar o património natural em troca de dinheiro fácil, explorando os cidadãos locais”, acrescentou o embaixador dos Estados Unidos da América, parceiro de Moçambique em vários projetos de preservação da biodiversidade.

TAP já proíbe transporte de troféus de caça há dois anos

Esta semana, a Delta Air Lines, uma das maiores companhias aéreas norte-americanas responsável por grande parte das ligações entre os Estados Unidos e o continente africano, anunciou a proibição do transporte de troféus de caça nos seus aviões. A Delta junta-se assim a transportadoras como a Air France ou a australiana Qantas que, na semana passada, assinalaram que também iriam banir o transporte de troféus de leões, leopardos, elefantes, rinocerontes e búfalos do continente africano.

Para Beverly Pervan, esta medida é um passo importante no que diz respeito à preservação dos leões e da vida animal em África, uma vez que não existe nenhuma lei que proíba o transporte de troféus para fora de África. “Se o matares, podes levá-lo”, explicou a fundadora da CACH. “Se um caçador não puder levar o seu troféu para casa, então não terá tanta vontade de voltar e matar outro animal. Gostávamos de ver todos os troféus de caça abolidos, uma vez que são uma ameaça à conservação.”

“Os caçadores querem os maiores e os mais fortes. Isso significa que os genes mais fortes estão a ser destruídos e não estão a ser passados às gerações futuras. No caso dos leões que são caçados na natureza, se o líder do grupo for morto — como aconteceu com o Cecil –, o clã entra em declínio. Não existe quem proteja as crias e as fêmeas.”

Em Portugal, a TAP proibiu o transporte de qualquer troféu de caça há pelo menos dois anos, confirmou ao Observador António Monteiro, porta-voz da transportadora. A proibição aplica-se a qualquer rota da companhia aérea, e não apenas em voos entre o continente africano e Portugal.