Esqueça o Algarve com as suas praias a abarrotar de gente que quer ver e ser vista na imprensa cor-de-rosa. Esqueça os rooftops dos hotéis e os seus bebedores de gin e as esplanadas à beira-mar com preços para turista rico. Este verão, o melhor destino de férias é Marte. O quarto planeta do Sistema Solar é um sonho humano que contraria o espírito gregário e precário dos algares, e que produziu ciência, livros, filmes, música e banda-desenhada. Um desejo escapista, uma utopia, uma fonte de ficções sem fim que acorda em nós o desejo de risco e aventura, é agora revisitado por Nuno Galopim no livro Os Marcianos Somos Nós. Uma obra que se lê como um romance mas é divulgação científica. E da boa. Daquela que faz tanta falta em Portugal.

Os Marcianos Somos Nós, uma viagem de Nuno Galopim pela história do planeta Marte

“Os Marcianos Somos Nós”, uma viagem de Nuno Galopim pela história da nossa relação com o planeta Marte

Quem cresceu nos anos 80, lembra-se certamente da voz interestelar de Carl Sagan e da série Cosmos que durante anos alimentou o fascínio de crianças e adultos pelo que existia para lá da Terra. Era assim que começavam as tardes de sábado, ao som dos acordes de Heaven And Hell de Vangelis numa caminhada sem fim pelo conhecimento que durante milénios os Homens acumularam sobre o espaço sideral: “imaginem que no universo há mais estrelas do que grãos de areia em todas as praias do planeta terra”, dizia Sagan e nós, esmagados pela força de tanto imaginar o impossível, ficávamos ali, em frente à televisão que excitava em nó o desejo de aprender. Nessa década, a ficção científica estava na moda, e por isso pudemos sonhar também com o Espaço 1999, a Galáctica, Buck Rogers no Século XXVCaptain Powers and The Soldiers of The Future e V, a Batalha Final

Imagem do genérico da série Cosmos que passou na RTP 1 nos anos 80

Imagem do genérico da série Cosmos que passou na RTP 1 nos anos 80

A partir dos anos 90, o mais próximo que estivemos da ficção científica foi com João Baião aos saltos com um macaco no Big Show Sic e o descalabro começou. Os portugueses, que nunca foram dados a escrever histórias sobre outros planetas ou viagens intergalácticas, também são pouco dados a publicá-las. Hoje, em plena cavalgada pelo século XXI adentro, temos apenas uma editora a publicar livros de divulgação científica, a Gradiva, e raramente acontece haver outras chancelas a traduzirem e publicarem ficções ou ensaios sobre esta temática. Dir-se-ia que pouco nos ficou da herança de Carl Sagan, ou que os leitores deste género se habituaram a lê-lo em inglês.

O livro do jornalista Nuno Galopim é, por isso, um ovni neste verão de 2015, em que o ciberespaço passou a ocupar mais a nossa atenção que o espaço sideral, planetas, estrelas e cometas. Será que estes mundos virtuais vão acabar com os nossos sonhos de vida extraterrena? Ou vão apenas engendrar novas formas de escapar desta Terra que sempre foi pequena demais ou cruel de mais para os sonhos da Humanidade?

Os Marcianos Somos Nós oferece-nos pois a possibilidade de uma viagem pelos milénios de imaginação, engenho e arte humanas para chegar ao quarto planeta do sistema solar: Marte, o mundo vermelho. Como escreve no prefácio o jornalista e crítico de cinema Eurico de Barros, este livro “concretiza aquela ideia de Carl Sagan segundo a qual a história de Marte não é apenas a história do seu estudo e exploração, mas também a das ficções a que deu origem”. Mas é também uma obra” sobre todas as coisas marcianas, reais ou imaginadas, que se dirige aos convertidos mas que também pretende fazer proselitismo, que quer informar, divulgar, explicar e cativar, com arrumação, clareza, conhecimento de causa (e amor à mesma) e entusiasmo sem tiques nerdy, complicações culturalistas ou jargões de laboratório. Se Marte tivesse vida inteligente, de certeza que Os Marcianos Somos Nós se venderia lá como pãezinhos quentes…”

Um mundo desolado, desértico, onde a população habita em bunkers subterrâneos e há uma industria destinada a fornecer aos trabalhadores formas constantes de entretenimento e de fuga. Nesse planeta, a população segue a vida de um par de bonecos que vivem na Califórnia. São-lhes disponibilizadas imagens do casal, catálogos com acessórios, ruas, restaurantes, cabeleireiros, tudo o que fosse possível para que eles recriassem a vida dos bonecos Perky Pat e Walt. A mesma companhia que fabrica estes bonecos fabrica uma droga chamada Can-D. a droga dá, a quem a toma, a sensação de ser realmente um daqueles bonecos… Faz-lhe lembrar alguma realidade conhecida? Não, esta não é uma descrição do planeta Terra obcecado pela vida das Kardashians, nem de Portugal obcecado pela Quinta das Celebridades. É uma novela passada em Marte que Philip K. Dick, escreveu nos anos 60 e à qual chamou Os Três Estigmas de Palmer Eldricht. Esta é apenas uma das muitas narrativas que a literatura produziu sobre Marte e que é evocada no livro de Galopim.

As paisagens marcianas servem para Philip K. Dick contar histórias surreais sobre o espaço interior, a alienação e o desencanto existencial da sociedade do século XX, como já tinham servido a H.G. Wells, a Edgar Rice Burroughs (o autor que lançou a ideia de os marcianos serem verdes, nas aventuras de John Carter). Das utopias bolcheviques de Alexander Bogdanov aos contos de Ray Bradbury, há uma vasta produção literária que vai sendo recriada à medida dos avanços que vão sendo feitos pela ciência ao longo dos séculos para saber mais sobre Marte.

Aelita, 1927, filme russo de Yakov Protazanov

Aelita, 1927, filme russo de Yakov Protazanov  a partir da ficção de Alexei Tolstoi

E se os contos, romances e novelas alimentavam todo um imaginário à volta deste planeta, a música e o cinema não lhe ficaram atrás. De Gustav Holst, Vangelis, Jeff Wayne, David Bowie, aos Pixies ou a José Cid foram muitos os acordes que perseguiram os mistérios marcianos. Também no cinema Marte foi fonte de histórias e imagens que cruzavam factos científicos com a mais elaborada ficção. Logo em 1910 uma  curta-metragem de animação realizada por Ashley Miller,  A Trip To Mars,  faz soar o toque de uma alvorada onde se ergueram monumentos de cinema fantástico: de Georges Méliès, a Fritz Lang ou Yakov Protazanov, até Stanley Kubrik, Ridley Scott, Tim Burton…

“Para contar a história de Marte é por isso importante juntar os factos que a ciência tem observado e interpretado não só às antigas mitologias mas também às numerosas histórias de ficção que, sobretudo a partir do século XIX, usam este planeta para falar de lugares e seres exóticos, lançar utopias, temer invasores, respirar o fulgor das aventuras, acreditar na força da tecnologia que nos pode lá levar um dia” escreve Nuno Galopim, para concluir “usamos Marte para falar de nós, do nosso mundo dos nossos desejos e medos. Entre a literatura, o cinema e a música inventámos, para além da ciência, um mundo que ainda não visitamos mas que nos habituámos assim a conhecer”.

Life on Mars? pertence ao álbum Hunky Dory de David Bowie, 1971

Life on Mars? pertence ao álbum Hunky Dory de David Bowie, 1971

Este livro que assume, desde logo, ser devedor dessa figura mítica que foi o cientista Carl Sagan, procura e como ele, mostrar como a história do planeta Marte é uma teia de ligações entre o real e o imaginário, entre a ciência e a arte e que só dentro dessa teia pode ser contada. Mais, mostra como a mente humana sempre em busca do desconhecido e de mistérios por desvelar, tem aberto incessantemente caminhos para lá das fronteiras que a cercam. E essa busca do conhecimento é a mais maravilhosa das viagens que podemos empreender e é essa a mensagem subliminar deste livro que nos põe de novo a sonhar com o cosmos

Neste verão quente, nesta Europa desolada, neste Portugal que quer ser só férias na praia, talvez partir em direção a Marte seja afinal o melhor de todos os destinos de férias possíveis.