Esta quinta-feira, cerca de 10% da população está em festa. São aqueles que não conseguem cortar a direito com uma tesoura normal, que têm de pensar duas vezes antes de engrenar uma mudança nos carros tradicionais, que lavar a mão esquerda sempre que acabam de escrever um texto com lápis de carvão porque o mundo não está preparado para eles. O 13 de agosto é dedicado aos canhotos.

Há quem diga que são mais inteligentes e criativos e que têm as capacidades cognitivas mais desenvolvidas que o resto do mundo. Mas também enfrentam dificuldades no dia-a-dia. Eis algumas delas contadas na primeira pessoa por quem as sente na pele:

Maria Moura, 27 anos

“Porque é que um canhoto nunca corta um queijo ou melão a direito? A maioria das facas só tem uma face de corte. Ou seja, quando pegamos numa faca com a mão esquerda, a face de corte fica do lado oposto. E a faca deixa de conseguir cortar. E porque é que preferimos um x-ato ou um corta-unhas a uma tesoura? Apesar de já haver à venda tesouras para canhotos no mercado de massas só existe uma gama desse género para crianças. Uma tesourinha! Enfim até para cortar as unhas é um filme!

Ir a uma conferência ou a uma aula no auditório e levar um caderno e uma caneta é outro problema. As cadeiras dos auditórios têm todas o tampo posicionados para destros. Mais uma vez funcionamos ao contrário. Temos quatro hipóteses: não apontamos nada e aguardamos que alguém ceda apontamentos, vamos para o fundo da sala no canto mais escondido onde há uma única cadeira com o tampo correto, viramos contorcionistas e escrevemos no nosso tampo ou dizemos que o amigo imaginário está sentado ao lado e usamos o tampo da cadeira que se segue à nossa.”

Antonieta Silva, 19 anos, estudante

“Não sinto grandes dificuldades. Claro que há sempre coisas que não são adaptáveis aos canhotos. Por exemplo, aquelas cadeiras das escolas que têm uma tábua do lado direito para poderes tirar apontamentos. Não nos dá muito jeito. Por acaso a tocar guitarra não me fez confusão porque sou destra a tocar. Ou sempre aprendi a tocar assim, não sei.

Mas a minha professora da primária batia-me por ser canhota. Quando entrei para o primeiro ano, a professora explicou que “a mão bonita era a direita e a mão feia era a esquerda”, e que devíamos escrever com a direita. Era ainda daquelas professoras que usava uma régua para bater nas cabeças dos miúdos. Mas quando ela começou a ensinar-nos a escrever, eu fui reparando que me dava mais jeito com a mão esquerda e fui-me escondendo para ela não reparar. Tive de falar com a minha mãe para ser ela a contar. Lá acabou por descobrir e isso valeu-me umas dez reguadas e insultos.”

Eunice Soares, 26 anos, psicóloga

“Tenho dificuldades em quase tudo. Até uma simples mudança de direção. É nas mudanças do carro, no simples ato de meter o cartão na caixa multibanco, ao abrir as portas. Por exemplo, no meu trabalho o computador e o rato e a máquina de tirar bilhetes estão colocados para destros. Nem as canetas são adequadas para canhotos. Às vezes escrevemos com a folha toda torta.”

Ricardo Teixeira, 25 anos, engenheiro do Ambiente

“Já senti dificuldades, sim. Principalmente na primária: era o único canhoto e fui obrigado a escrever com a mão direita. Os problemas continuaram no secundário, a maior parte das vezes nas aulas de Educação Física. Lembro-me da altura em que estávamos a aprender basquetebol. Os percursos de treino eram realizados maioritariamente para destros, os professores não tinham em conta que podiam existir alunos canhotos.

Hoje tenho mais um entrave: aprender kizomba. Não consigo aprender a dançar por nada! Só consigo fazê-lo se tiver a sorte de encontrar um par que também seja canhoto. É por causa da coordenação motora. Experimentem e vão ver a complicação que é.”

Ricardo Oliveira Duarte, 33 anos, jornalista

“As minhas dificuldades eram tesouras e réguas. Na escola era complicado: a única negativa que tive na vida foi Educação Visual e Tecnológica (EVT), no segundo período. Eu não conseguia – ainda não consigo – fazer uma linha direita nem cortar a direito. E escrever também tem os seus quês: as canetas de tinta permanente são para esquecer. Mas pelo menos acabei aquele ano com positiva a EVT.”

Fábio Pinto, 29 anos, editor de vídeo e imagem

“Nunca tive grandes dificuldades porque acabei por me adaptar. Aprendi a usar a tesoura como destro e também toco guitarra como destro. Acho que aconteceu tudo naturalmente. Já não me lembro, mas quando era criança provavelmente reparei que a tesoura não cortava quando a segurava com a mão esquerda, então aprendi a usá-la com a mão direita. Em relação à guitarra, o meu pai ofereceu-me uma ‘normal’ e tive que aprender a tocar assim. E ainda bem porque as guitarras para canhoto são mais raras e caras!

A única ‘dificuldade’ de que me lembro assim de repente foi na escola, quando estava na mesma mesa com um destro. Quando estávamos os dois a escrever, andávamos às cotoveladas. Mas nada de grave.”

Joel Joaquim, 20 anos, desportista 

“Sou canhoto, mas só a comer. Não consigo agarrar a comida com o garfo na mão esquerda. E a faca na mão direita parece que não corta. Não sei explicar, não me lembro de quando comecei a comer com os talheres trocados.”

Joel Ferreira, 24 anos, solicitador 

“Eu não escrevo com a mão esquerda, mas sou canhoto. Quando andava na primária fiquei muitas vezes de castigo no intervalo para o professor me ensinar a escrever com a mão direita. Ele dizia que quando fosse maior ia ter dificuldades por escrever com a mão esquerda, e fui-me habituando. Por isso ficava a desenhar letras e a pintar. Enfim, sobretudo exercícios para conseguir escrever com a outra mão. De resto faço tudo com a mão esquerda, por exemplo se tiver que passar a bola com a mão…”