Há uma nova tese científica que está a deixar os arqueólogos em êxtase: pode ter sido descoberto o misterioso túmulo da rainha egípcia, de beleza lendária, Nefertiti. E os contornos da potencial descoberta são igualmente incríveis: o túmulo pode estar escondido dentro do monumento funerário do lendário Tutankhamon, que lhe sucedeu no trono do Egito. O artigo científico foi publicado pelo reputado arqueólogo britânico Nicholas Reeves no site académico Academia, e pode ser consultado aqui.

Nefertiti, cujo nome significa “a mais bela chegou”, foi rainha do Egito pelo ano 1300 a.C. Governou em conjunto com o seu marido, o faraó Amenófis IV (também conhecido pelo nome de Akhenaton) durante a XVIII dinastia do Antigo Egito. Alguns especialistas defendem que Nefertiti e o faraó teriam introduzido o monoteísmo no Egito, com o culto único do Deus Sol – Aten –, sendo, contudo, apenas acessível a alguns cidadãos.

A investigação começou no ano passado, quando uma equipa de especialistas espanhóis de preservação e arte, a Factum Arte, se deslocou ao túmulo de Tutankhamon para produzir scans detalhados da cripta, localizada no Vale dos Reis – um vale a oeste do Rio Nilo onde foram construídas, durante quase 500 anos, câmaras funerárias para vários faraós e membros da nobreza egípcia do Império Novo (da XVIII até à XX dinastia).

Enquanto analisava as imagens, Nicholas Reeves descobriu o que pensa tratar-se de duas entradas para compartimentos ainda não explorados, dentro do túmulo. “Tenho estado a testar as provas desde então, procurando indícios do que aquilo que pensei que estava a ver”, contou o arqueólogo da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, à BBC. “Mas quanto mais olhava, mais informação encontrava de que parecia estar a ver algo bastante real”.

Tutankhamon, também conhecido por rei Tut, foi uma das figuras mais mediáticas da história do Antigo Egito. Filho de Akhenaton (marido de Nefertiti) nasceu em 1371 a.C. (circa) e faleceu com apenas 19 anos, em 1331 a.C. (circa). O seu reinado durou apenas cerca de 10 anos e iniciou-se quando ainda era criança, com 8 ou 9 anos. Foi rei numa altura em que o Egito atravessava a passagem caótica para o monoteísmo, e apesar de na altura não ter tido um impacto muito significativo, é uma figura fulcral para a compreensão atual do funcionamento do Antigo Egito, já que o monumento onde estava sepultado estava quase intacto dos salteadores de artefactos.

Em 1922, o arqueólogo inglês Howard Carter descobriu o seu túmulo. Surpreendentemente intocado, este monumento funerário tinha uma característica intrigante para muitos arqueólogos: as suas dimensões eram bastante reduzidas em relação ao de outros reis egípcios. Algumas teorias sugerem que tal se devia ao facto de Tut ter falecido quando tinha apenas 19 anos, mas não existe confirmação científica para essa hipótese.

British archaeologists Howard Carter (1874 - 1939) (left) and Arthur Callender (died 1937) carry out the systematic removal of objects from the antechamber of the tomb of Pharaoh Tutankhamen, better known as King Tut, with the assistance of an Egyptian laborer, Valley of the Kings, Thebes, Egypt, 1923. (Photo by Hulton Archive/Getty Images)

O arqueólogo Howard Carter (1874 – 1939) (esquerda) e Arthur Callender (? – 1937) a remover vários objetos do monumento funerário do Rei Tut, em 1923

Agora, Nicholas Reeves pode ter a chave para o mistério da pequena câmara funerária de Tut: no seu artigo, escreve que existem pistas “cumulativas e convincentes” de que o monumento funerário de Tutankhamon é maior do que se pensa e que o seu design corresponde à cripta – não de um rei – mas de uma rainha.

Apenas uma regente feminina do final da Oitava Dinastia terá recebido tal honra [de ter um túmulo]: Nefertiti. E não é por acaso, portanto, que a imagem de Nefertiti pode ser vista numa decoração colocada na parede norte”, escreve Nicholas Reeves na publicação científica.

“Se estiver errado, estou errado”, disse o arqueólogo à BBC. “Mas se estiver correto, as perspetivas são francamente impressionantes. O mundo irá tornar-se num lugar muito mais interessante – pelo menos para os egiptólogos”.

Quando foi aberto em fevereiro de 1923, o túmulo funerário de Tutankhamon guardava no seu interior cerca de 2.000 objetos – que levaram nove anos a serem catalogados. Se a mesma quantidade de objetos forem encontrados nos compartimentos escondidos do monumento, tal representará “um grande feito”, afirmou Nicholas Reeves.

A hipótese de Reeves é “tentadora”, mas arriscada

É bastante tentador acreditar nesta hipótese, mas é preciso ter algum cuidado. O que Reeves faz com muito sucesso – fazendo jus ao seu reconhecido nome – é ir buscar uma série de provas facilmente comprováveis [para corroborar a sua tese]. Contudo, sem mais estudos é algo arriscado dizer que é de facto o túmulo de Nefertiti“, afirma ao Observador Celina Claro, investigadora do Centro de História d’Aquém e d’Além-Mar (CHAM) ligado à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e à Universidade dos Açores.

Uma das questões levantada por Celina Claro é: “Porque será que o túmulo de Nefertiti se iria encontrar no Vale dos Reis e não em Amarna?” A investigadora, que se encontra a terminar uma tese de mestrado sobre o palácio egípcio de Apriés, explicou ao Observador que os túmulos construídos no Vale dos Reis correspondem, sobretudo, àqueles que antecederam o reinado de Akhenaton, e aos construídos após Tut ter tomado o seu lugar. Quando Akhenaton chegou ao poder, quis quebrar totalmente com a tradição politeísta, introduzindo o monoteísmo.

“Foi chamado o rei herético – fugiu à regra de todos os outros – mudou de nome e aboliu todas as divindades egípcias adoradas até à altura, centrando-se exclusivamente no Deus Sol. Para conseguir quebrar por completo com a antiga tradição, construiu uma nova capital: Amarna. Estamos a falar com um faraó que quer quebrar com o passado, que quase construiu uma nova religião e que se faz a ele próprio sepultar em Amarna”, explica Celina Claro.

Desta forma, a investigadora questiona: “Porque será que a sua principal rainha – sendo que Akhenaton se fazia sempre representar junto à sua esposa e família, o que era também invulgar – seria sepultada no Vale dos Reis e não junto a si em Amarna?“.

“Se para o jovem Tut poderia fazer sentido uma sepultura no Vale dos Reis – apesar de ter crescido em Amarna e criado na nova religião –, para Nefertiti o mesmo não faz tanto sentido”, explica Celina. Depois da morte do seu pai (Akhenaton), Tutankhamon assumiu a regência. Nessa altura, sendo ainda muito jovem, fora posteriormente influenciado por sacerdotes de Amon para que se voltasse à antiga ordem politeísta. Perante a pressão, Tut abandonou Amarna e voltou-se novamente para o politeísmo.

Relativamente à possibilidade “tentadora” de se ter encontrado de facto o túmulo de Nefertiti, Celina Claro remata: “Não digo que sim, nem que não. É preciso mais dados”.

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