O ativista e jornalista angolano Rafael Marques disse hoje à AFP em Joanesburgo, África do Sul, que as autoridades de Luanda utilizam meios de repressão que “recordam o ‘apartheid'”.

“Alguns métodos do regime angolano recordam aqueles que eram empregues aqui na África do Sul durante o ‘apartheid’ contra a maioria da população. Recordam também algumas velhas táticas do regime colonial e fascista português contra os povos colonizados”, afirmou Rafael Marques numa entrevista à AFP.

Rafael Marques, 43 anos, jornalista e ativista de direitos humanos, autor do livro “Diamantes de Sangue”, foi condenado a seis meses de prisão, em regime de pena suspensa, por “denúncia caluniosa”, num processo que ainda decorre em Luanda.

Rafael Marques referiu-se também aos 15 jovens angolanos, presos de consciência segundo a Amnistia Internacional, e que se encontram detidos em Luanda desde o dia 21 de junho por “rebelião contra o Estado”.

O ativista e jornalista angolano recordou ainda que participou, este mês, na manifestação em Luanda em que estiveram presentes as mães dos jovens que se encontram detidos.

A manifestação foi reprimida pelas forças de segurança, que utilizaram cães, e que “confiscaram” a câmara fotográfica de Rafael Marques.

“Estas são as novas atitudes do Governo nos esforços para reprimir a liberdade de expressão no país. A elite dirigente detesta o seu próprio povo”, acrescentou Rafael Marques, que se referiu também à crise económica angolana provocada pela baixa do preço do petróleo.

“Em 2017, se o preço do barril de petróleo continuar a baixar, o regime vai enfrentar o maior défice de sempre. A insatisfação vai aumentar e a população vai colocar-se contra o Governo que usa a repressão para se manter no poder”, previu Rafael Marques na mesma entrevista.

“O Governo tenta esconder a crise económica aumentado a repressão porque a ‘política do bastão e da cenoura’ deu resultados durante muitos anos em Angola. Mas agora, o Governo só tem o bastão e, por isso, há um aumento da violência política”, disse Rafael Marques acrescentando que o país encontra-se “numa encruzilhada”.

De acordo com a AFP, os lucros do petróleo só beneficiam uma pequena elite política “muito rica” em Angola.

Apesar do crescimento económico, a maior parte dos angolanos vive com menos de dois dólares por dia.

Angola é um dos países com a maior taxa de mortalidade infantil: 161 por 1000 nascimentos.