Um pé de cada lado da linha e os visitantes do Royal Observatory, no Reino Unido, acreditam estar a tocar simultaneamente em cada metade do planeta que o meridiano de Greenwich divide. Mas a linha imaginária que vai do polo norte ao polo sul, o grau zero que define todos os outros meridianos e todos os fusos horários no mundo, afinal não fica exatamente naquele sítio, como confirma um estudo publicado este mês na revista científica Journal of Geodesy.

Se mesmo assim pensar ir a este marco turístico na ilha britânica, basta que ande 102 metros para leste para que o GPS que leva na mão marque finalmente zero graus de longitude, refere a equipa norte-americana que conduziu o estudo. Esta discrepância já é conhecida desde os anos 1960, mas afinal o que aconteceu para que o meridiano “mudasse” de sítio?

Quando o meridiano de Greenwich foi estabelecido como linha de referência para a definição dos restantes meridianos e fuso horários, em 1884, os cálculos foram baseados em “estrelas relógio” – estrelas que pela proximidade a um dos polos nunca desaparecem no horizonte -, num reservatório de mercúrio que mantinha o telescópio que observava as estrelas na vertical e também na gravidade local. Apesar de o cálculo até ser bastante preciso naquela altura, é bastante menos que os sistemas de posicionamento global (GPS) alimentados pelos dados recolhidos pelos satélites hoje em dia.

LONDON, ENGLAND - MARCH 26:  A member of the public stands astride the 'Prime Meridian of the World' at Longitude 0º at the Royal Observatory in Greenwich on March 26, 2012 in London, England. The Royal Observatory, Greenwich encompasses Flamsteed House, the original Observatory building which was designed by Sir Christopher Wren in 1675, as well as the Peter Harrison Planetarium, the Prime Meridian of the World, the Harrison timekeepers and the UK's largest refracting telescope.  (Photo by Oli Scarff/Getty Images)

Um pé de cada lado da linha que identifica o meridiano de Greenwich estabelecido em 1884 – Oli Scarff/Getty Images

As formas tradicionais de medir a longitude, baseadas em medições à superfície, alimentaram variações ou erros, dependendo dos sítios específicos onde as medições eram feitas, refere o comunicado de imprensa da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos. Por um lado, porque a Terra não é perfeitamente redonda, por outro, porque a variedade dos tipos de terreno e elevações condicionam a força da gravidade. Com o GPS as medidas são feitas na vertical, em linha reta em relação ao centro da Terra, eliminando os efeitos gravitacionais das montanhas ou de outros alterações no terreno, referiu no mesmo comunicado de imprensa Ken Seidelmann, astrónomo naquela universidade e co-autor do estudo.

Os autores do estudo foram mais longe. Não se limitando a encontrar a diferença entre a linha que define o meridiano em Greenwich e o “verdadeiro” meridiano de longitude zero, os investigadores encontraram outras discrepâncias entre linhas marcadas em vários países e os meridianos que realmente definem. A maior diferença foi encontrada no Chile, como reforça o site IFLScience, porque o marco está localizado bem alto nas montanhas, logo a variação na força da gravidade é ainda mais evidente.

O meridiano de Greenwich marca o início de cada dia, de cada ano e de cada milénio. A explicação agora apresentada para a diferença entre a medição astronómica (baseada nas estrelas) e a medição geodésica (baseada nas dimensões da Terra) não tem implicações na investigação científica nem nas medidas de posicionamento, mas talvez fosse interessante ter um novo marco em Greenwich que identificasse a localização correta.

“Acho que ter um marco no parque seria brilhante para atualizar a história do meridiano de Greenwich no século XXI”, disse Marek Kukula, astrónomo no Royal Observatory, citado pelo The Independent. “Neste momento, o mais próximo que temos de um marco é um caixote do lixo.”