António Gaio, que morreu ontem aos 90 anos, não foi apenas o dinâmico e incansável director do Cinanima-Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho durante 35 anos, que transformou no mais importante da especialidade em Portugal, e num dos festivais de referência absolutamente obrigatória no plano internacional, criando novos públicos para o cinema animado e contribuindo para combater a ideia feita segundo a qual este é um género menor e destina-se apenas ao público infantil.

Cinéfilo ávido desde muito pequeno, bem como coleccionador de banda desenhada, António Gaio fica também como o autor de um livro pioneiro, fundamental para o entendimento do cinema animado português e das suas origens, “História do Cinema Português de Animação-Contributos”, editado em 2000. E foi precisamente ao escrever este livro que Gaio identificou os 159 desenhos e as oito legendas que deram origem ao primeiro filme português de animação, “O Pesadelo do António Maria”, com dois minutos e meio de duração, realizado por Joaquim Guerreiro em 1923, uma sátira ao político da I República António Maria da Silva, maçon e carbonário, e então presidente do ministério.

Os desenhos foram então encaminhados pelo director do Cinanima para Paulo Cambraia,  produtor e realizador. Este reconstruiu “O Pesadelo do António Maria”, digitalizando-os e fazendo uma montagem que seguia o mais de perto possível a sequência original do filme, para o que ajudou o facto das imagens estarem todas numeradas. E assim, o nome de António Gaio ficou também ligado à descoberta, ao restauro e à “nova vida” desta obra pioneira do cinema animado nacional, apresentada em 2001 no Cinanima.

“O Pesadelo do António Maria”

https://youtu.be/EDGlMg7RxBk

Natural de Espinho e bancário de profissão, António Gaio ocupou, após o 25 de Abril, vários cargos na Câmara Municipal desta cidade, incluindo o de vereador da Cultura em 1977. Esteve ligado ao jornalismo, tendo sido, nomeadamente, fundador do jornal “Maré Viva”. Foi dirigente do Sporting Clube de Espinho e da Associação Académica de Espinho e colaborou ainda com o Cineclube de Espinho.  A Cooperativa Nascente, de que foi co-fundador pouco depois da revolução de Abril, está na origem do Cinanima. O funeral de António Gaio realiza-se no domingo, às 10h30, saindo da Igreja Matriz de Espinho.