As mulheres estadunidenses que foram diagnosticadas com carcinoma ductal in situ – uma lesão pré-maligna da mama – têm 1,8 vezes mais probabilidade de morrer de cancro do que as mulheres que nunca receberam este tipo de diagnóstico. A radioterapia realizada após a extração do tumor nas mulheres estudadas não parece ter sido eficaz na redução da taxa de mortalidade. As conclusões são do estudo publicado esta quinta-feira na revista científica JAMA Oncology – The Journal of American Medical Association -, que reuniu dados de mais de 100 mil mulheres entre 1988 e 2011.

“O carcinoma ductal in situ, apesar do nome, não é um cancro”, diz ao Observador Carlos Freire de Oliveira, presidente do Núcleo Regional do Centro da Liga Portuguesa Contra o Cancro. O ginecologista e oncologista acrescenta, no entanto, que este tipo de lesão nos canais que transportam o leite tem um grande potencial de se vir a tornar um carcinoma invasivo – um cancro maligno que pode espalhar-se pelo organismo e causar a morte.

Porém, tendo em conta os resultados apresentados, a equipa de Steven Narod defende que este tipo de carcinoma deve ser admitido como um cancro e não apenas como um marcador preditivo de um possível cancro futuro. Se assim for, Laura Esserman, cirurgiã de cancro da mama na Universidade da Califórnia (Estados Unidos), citada pelo New York Times, defende que devem ser estudados tratamentos hormonais e imunológicos que diminuam as condições propicias ao proliferação das células cancerígenas.

Alguns médicos, citados pelo New York Times, afirmam que podem estar a ser feitas cirurgias em excesso. Mas a verdade é que este estudo não inclui casos suficientes de mulheres que não foram sujeitas a nenhum tratamento para poderem servir de comparação e serem tiradas conclusões sobre esta situação.

Os investigadores do Hospital Universitário Feminino (Women’s College Hospital) de Toronto verificaram que a mortalidade das mulheres que tiveram um diagnóstico de carcinoma ductal in situ (DCIS, na sigla em inglês) era de 1,1% ao fim de 10 anos e 3,3% ao fim de 20 anos, e, como já foi referido, que a mortalidade era 1,8 vezes maior. O objetivo do trabalho era perceber o que influenciava a mortalidade por cancro da mama. A etnicidade e a idade em que foi diagnosticado pela primeira vez parecem ser os fatores mais importantes.

Cancro mama_National Cancer Institute-NIH

A mamografia deve ser realizada de dois em dois anos a partir dos 45 anos, aconselha o ginecologista Carlos Freire de Oliveira – National Cancer Institute/NIH

As mulheres de raça negra mostraram maior probabilidade de morrer de cancro de mama do que as mulheres de raça branca em geral – mais especificamente, 7,0% nas mulheres negras contra 3,0% nas mulheres brancas não-hispânicas. Além disso, a taxa de mortalidade tende a diminuir com o aumento da idade das doentes. As mulheres que foram diagnosticadas com DCIS antes dos 35 anos tinham maior probabilidade de morrer de cancro de mama ao fim de 20 anos do as mulheres que foram cujo diagnóstico veio quando eram mais velhas – 7,8% contra 3,2%. Entre as mulheres incluídas no estudo, apenas 1,2% tinham menos de 35 anos, mas nestas a mortalidade foi 17 vezes maior do que os esperado nos nove anos que se seguiram ao diagnóstico.

A Liga Portuguesa Contra o Cancro começou a fazer os rastreios organizados em Portugal há quase 25 anos. Desde então foi possível detetar muito mais casos de carcinoma ductal in situ antes de evoluírem para carcinomas ductais invasivos (a forma mais frequente de cancro da mama). Carlos Freire de Oliveira explica que, sempre que é detetado este tipo de carcinoma, é aconselhada uma cirurgia que elimine todo o volume da lesão. Dependendo do tamanho da lesão e do tamanho da mama, pode optar-se pelo tratamento conservador da mama (tumorectomia) – que retira apenas a parte afetada – ou uma mastectomia – que implica que a mama seja totalmente removida.

Carlos Freire de Oliveira diz que se pode fazer uma tumorectomia num carcinoma ductal in situ de dois ou três centímetros numa mama de tamanho normal. Mas uma lesão deste tipo pode já ser demasiado grande se a mama for pequena, obrigando a uma mastectomia. Ou uma mama grande pode fazer uma tumorectomia de uma lesão de cinco centímetros. A avaliação é feita caso a caso, porque a “tumorectomia tem como objetivo manter o aspeto estético da mama”, lembra o oncologista.

Monica Morrow, cirurgiã chefe de cancro da mama no Memorial Sloan Kettering Cancer Center (Estados Unidos), citada pelo New York Times, questiona-se se as mulheres que foram tratadas e que acabaram por morrer não terão sido mal-diagnosticadas. Por vezes, refere a médica, os patologistas olham apenas para uma pequena parte do tumor e escapa-lhes as partes invasivas do carcinoma. O médico confirma que a remoção da lesão é importante porque só o estudo histológico (a análise dos tecidos do carcinoma) vão confirmar se é mesmo um DCIS ou se, pelo contrário, é um carcinoma invasivo. A biopsia incial, como retira apenas pequenos grupos de células, podem não detetar as células malignas.

4.0.4

A mulher deve aproveitar o auto-exame mensal para detetar qualquer alteração nas mamas e mamilos – National Cancer Institute/NIH

Tanto no caso da mastectomia como no caso do tratamento conservador da mama, a mulher terá sempre de fazer radioterapia. Segundo o estudo publicado na JAMA Oncology, a radioterapia diminui a probabilidade de aparecimento de carcinoma invasivo em 10 anos – 2,5% mulheres sujeitas a radioterapia desenvolveram carcinoma invasivo, contra 4,9% das mulheres que não fizeram radioterapia. No entanto, a radioterapia não parece eficaz na diminuição da taxa de mortalidade a 10 anos. Os investigadores acrescentam que as mulheres que realizaram mastectomia têm menos probabilidade de desenvolver cancro nessa mama, do que as mulheres que realizaram tumorectomia.

Carlos Freire de Oliveira lembra que tanto o carcinoma ductal in situ, como o invasivo, são pouco frequentes em mulheres antes dos 40 anos e mais frequentes depois da menopausa. O rastreio promovido pela Liga Portuguesa Contra o Cancro está, portanto, focado sobretudo nas mulheres entre os 45 e os 69 anos, embora não excluam mulheres até aos 74 anos que também procurem rastreio. No entanto, todas as mulheres podem sempre solicitar uma mamografia ou ecografia ao médico ginecologista ou médico assistente.

Um rastreio e acompanhamento precoce, a partir dos 25 anos, é recomendado no caso das mulheres que tenham um historial familiar de cancro da mama – quando as familiares diretas, como mãe, avós ou tias, tiveram a doença. Nestes casos deve ser feito um estudo genético e a mulher deve fazer mamografias e ressonâncias magnéticas todos os anos, entre os 25 e os 35 anos. Caso a mulher tenha uma mutação nos gene BRCA1 ou BRCA2, a probabilidade de desenvolver cancro da mama é de 70%, refere Carlos Freire de Oliveira. Por isso é aconselhada a mastectomia profilativa bilateral (remover as duas mamas preventivamente) a partir dos 35 anos e, em alguns casos, tambem os ovários. Se for o pai a ter cancro da mama, o oncologista aconselha que tanto o homem como os filhos façam estudo um estudo genético para determinar a hereditariedade desse cancro.

As mulheres são aconselhadas a fazer um auto-exame (palpação) das mamas depois da menstruação para detetarem qualquer alteração. A presença dos ditos “caroços” não são, por si só, razão de preocupação, mas vale a pena vigiar. Carlos Freire de Oliveira diz que podem ser quistos mamários ou fibroadenomas – lesões benignas. Os quistos mamários são bolsas de líquido que tendem a desaparecer com a idade e que não aparecem depois da menopausa, portanto não é há razões para preocupação de tiverem até 2-2,5 centímetros. No caso dos fibroadenomas, tumores sólidos benignos, se tiverem menos de 1,5 centímetros não há motivo para preocupação, se tiverem cerca de dois centímetros podem justificar uma biópsia e se forem maiores que três centímetros podem ser retirados.