A filosofia aplicada às fraldas. A ligação é inesperada, mas é isso que Francisco Bosco faz em Orfeu de Bicicleta (um Pai no Século XXI), o livro recentemente editado pela Tinta da China. Pai de dois filhos pequenos, o filósofo e colunista do Rio de Janeiro pega em conceitos da psicanálise e da sociologia, e em autores como Freud e Lacan, e aplica-os à sua experiência de noites mal dormidas, birras e pelos brancos prematuros na barba.

“O mundo não se divide entre Ocidente e Oriente, religiosos e tradicionalistas, mas entre pais de crianças pequenas e o restante da humanidade”, começa por escrever o autor, para quem esta classe faz parte da “categoria dos chatos provisórios”, formada por três tipos: “o bêbado, o apaixonado e os pais de recém-nascido. Só os suporta quem está no mesmo estado.” (pág. 37)

Tudo menos chato, o carioca que preside à Fundação Nacional de Artes do Brasil, e cuja tese de doutoramento envolveu uma dissertação sobre Roland Barthes, encontrou uma forma de falar nos velhos temas da paternidade em jeito de ensaio, sendo que esse ensaio é dividido em mais de 80 pequenos textos onde o choro de um bebé é considerado “um prodígio de polissemia” ou é possível encontrar Hegel no quarto dos brinquedos. Porque, afinal, “todos os fenómenos e todas as experiências podem ou não ser filosóficas”, como diz o autor numa entrevista por e-mail ao Observador. “O que torna um objeto filosófico é, justamente, transformá-lo em questão: isto é, desnaturalizá-lo, identificar a espessura de significados que ele contém, e revelá-los. Pode-se lidar com o choro de uma criança à noite apenas oferecendo uma mamadeira [biberão] para aplacá-lo. Mas também se pode perguntar por que chora uma criança à noite. E quando começamos a fazer essas perguntas, perguntas sobre o sentido, já estamos nos aproximando da filosofia.”

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Quando é que sentiu que escrever sobre os seus filhos era tão importante ou interessante como fazer uma dissertação sobre Roland Barthes? 
Bem, eu suponho que Barthes teria escrito sobre os seus filhos se os tivesse tido. Ele costumava dizer, justamente, que a écriture não faz acepção da futilidade. Ou seja, não é o objeto o que determina o valor ou interesse de uma escrita, e sim aquilo que uma escrita é capaz de fazer com um objeto. Lembremos que é Barthes o autor de ensaios como Structure du fait-divers ou do conhecido texto sobre o tele-catch, para não falar do projeto das mitologias como um todo. De minha parte, o meu ensaísmo tem uma relação forte com a vida, com a experiência concreta. Costumo escrever sobre o que me afeta e transforma (os meus primeiros livros, ingénuos ao ponto do embaraço, são de poesia, e penso que, de certo modo, nunca deixei de ser poeta). Assim, é para mim natural que viria a escrever sobre a experiência da paternidade.

O que pensava sobre a paternidade confirmou-se quando teve filhos ou, pelo contrário, foi pelos ares?
Eu tinha sobretudo ideias morais sobre a paternidade: julgava-me apto a ser pai porque julgava-me apto a educar, ou seja, transmitir um sentido de responsabilidade social, instruir a criança nos labirintos da nossa vida moderna, etc. E, entretanto, hoje penso que a responsabilidade requerida pela paternidade é antes de tudo aquela que toda a relação amorosa requer, só que numa intensidade muito maior: abrir a vida para o outro e reduzir drasticamente o individualismo. Isso é facilitado pelos mecanismos narcísicos que os filhos mobilizam nos pais. Há uma complementaridade perfeita: os egos dos filhos, incipientes ainda, dependem dos dos seus pais; os egos dos pais, assombrados pela sua inconsistência, de repente se sentem plenamente justificados pela dependência dos egos dos seus filhos. Por outras palavras, essa quase perfeição narcísica faz os pais suportarem todos os sacrifícios demandados pelas crianças-majestades de hoje.

“Uma conhecida boutade diz que os bebés nascem rechonchudos para serem amortecidos quando os jogarmos na parede, por exaustão. O que nos impede de os atirar na parede é o enamoramento que, como observou Freud, parte do nosso próprio narcisismo, isto é, o facto de amarmos o seu eu como amamos o nosso próprio eu.” (Orfeu de Bicicleta, pág. 36)

Um filho pode ser a resposta para a velha questão filosófica do sentido da vida?
Sim, sem dúvida. E essa velha questão nunca foi tão aguda como na nossa época moderna, desencantada, órfã de Deus (para muitos). Freud tem um texto bonito sobre isso onde usa a expressão “sua majestade o bebé” (creio que é Narcisismo: uma introdução, de 1914). Penso a coisa nos termos de uma ilusória completude imaginária: não é tanto que um filho sobreviverá ao pai, dando-lhe continuidade, e sim que um filho pequeno depende fundamentalmente do pai, dando a esse a sensação ilusória – e provisória, infelizmente – de uma plenitude ontológica, tapando seu buraco, por outras palavras.

Ter alguém tão dependente de você é uma irrefutável justificativa da sua existência. É uma dopamina ontológica.” (Orfeu de Bicicleta, pág. 36)

Um dos textos tem esse título, “sua majestade, a criança”, e na contextualização que abre o livro fala de conceitos como “infantocracia” e overparenting. Como se explica esta importância tão grande das crianças nos nossos dias, pelo menos no mundo ocidental?
Essa é uma longa e interessantíssima história. Basta ir recuando nos séculos para se perceber que não existia a percepção da infância como uma etapa da vida a ser destacada e, menos ainda, valorizada. A descrição do processo de invenção e supervalorização da infância é bastante clara, tem marcos inequívocos – mas o seu sentido não é tão fácil de depreender. Parece-me que a questão demográfica é um ponto decisivo: não havia como valorizar tanto as crianças numa época em que a taxa de mortalidade infantil era altíssima. Mas o início da valorização da infância é anterior às transformações das condições de higiene e da medicina que reduziram radicalmente a mortalidade infantil. Phillipe Ariés, possivelmente o mais importante historiador da infância, aponta outras causas, como o surgimento da família nuclear burguesa (por sua vez ligada à emergência da vida privada) e certos pensadores morais do século XVII, que viram na infância a etapa onde se deveria educar o futuro adulto. Seja como for, é uma história fascinante. No século XVI, nas grandes navegações, os grumetes e pajens eram sodomizados e seviciados nas embarcações. Em casos de naufrágio, as crianças eram preteridas por caixas de biscoitos. Poucos séculos depois e cá estão elas, mimadas e idolatradas.

No livro tão depressa cita o “bico da mamadeira” como Lacan e Freud. Quis fazer um livro mais confessional e quotidiano, ou mais filosófico e conceptual? Ou ambos?
Justamente, o bico da mamadeira é a razão de Freud e Lacan existirem. Deleuze costumava lembrar que um conceito é uma abstração que remonta a um problema concreto. Cunhar um conceito é tentar compreender o que há de comum numa multiplicidade de fenómenos concretos. Um conceito que não nasce de um problema concreto, quotidiano, é uma mera abstração vazia (quem crê que Lacan é isso está muito enganado). Por isso, para mim o conceptual e o quotidiano não são duas coisas apartadas, mas, ao contrário, os dois momentos de um único processo.

“O choro de um bebê é um prodígio de polissemia. Um único significante pode ter inúmeros significados: fome, frio, calor, fralda cheia, cólicas, posição desconfortável, sono, dor (que por sua vez podem ser muitas dores diferentes). Nas primeiras semanas de nossa filha, eu e minha mulher nos comportamos como linguistas atormentados, uma espécie de Bouvard e Pécuchet enlouquecidos com a natureza escorregadia daquele significante.” (Orfeu de Bicicleta, pág. 83)

Estar habituado a pensar filosoficamente implica uma maior clarividência? É que no livro faz afirmações que muitas vezes são tabus para os pais, como admitir que os recém-nascidos são “feinhos” ou que o amor por um filho é algo progressivo. Geralmente só os não-pais é que dizem isso.
Para mim a filosofia é inseparável da pergunta-motor dos gregos antigos: qual a melhor forma de viver, e como agir para obtê-la? Nesse sentido, sim, para mim o gesto filosófico não é apenas o de elucidar os problemas, identificando as suas tensões, descrevendo os seus significados, mas também o de ser capaz de se transformar por meio dessa elucidação, no sentido de ser capaz de viver melhor. Ora, não se vive bem com tabus, que são coágulos de medo e obscurantismo.

Tem uma crónica que remete para o título, Orfeu de Bicicleta, mas poderia explicá-lo melhor?
Como se sabe, no mito, Orfeu não pode olhar diretamente para Eurídice, sob pena de perdê-la. Jennifer Senior, que escreveu um belo livro sobre a experiência parental (da classe média estadunidense) contemporânea, observa que as ciências sociais têm uma grande dificuldade de depreender, nos seus estudos, a dimensão da felicidade parental. Penso que isso se deve a que a felicidade é completa, ela não produz signos, ela não impele à produção. Ao escrever o meu livro, sentia que no fundo do meu relato havia uma dimensão fundamental, que é essa mesma da felicidade, que é tão quotidiana, e que é tão difícil de dizer. E entretanto, andando de bicicleta com a minha filha, cada um com uma ponta do headphone, ouvindo e cantando a mesma música, várias vezes eu colhi no olhar dos outros a melhor tradução para o que eu experimentava. E que contudo permaneço sem poder dizer diretamente. Como Orfeu. Um Orfeu de bicicleta.

Posso descrever uma cena. Enquanto pedalo, minha filha está sentada na cadeirinha, de capacete e cinto. A sua cabeça fica na altura do meu peito. Ela canta, ou observa coisas com avidez, ou exclama coisas incompreensíveis. Posso tentar interpretar minha felicidade: a combinação dos elementos de liberdade, movimento, descoberta, com a sensação geral de segurança e proteção. Talvez eu me sinta ali protegendo a sua liberdade, e a combinação dessas duas palavras, desses dois valores, representa pra mim um ideal moral parental. Pode ser.”(Orfeu de Bicicleta, p.92)

Se conseguir fazer esse exercício, qual foi a maior lição que os seus filhos já lhe ensinaram?
Há na paternidade uma dimensão incómoda, estruturalmente análoga à relação que um analisando tem com o seu analista. É que o modo como nos relacionamos com os nossos filhos é incontornavelmente revelador das nossas estruturas psíquicas, das nossas fantasias mais estruturais. Constato os meus mecanismos todos quando estou agindo com os meus filhos, do mesmo modo como um analista identifica as estruturas da fantasia de um sujeito quando esse as atualiza na relação com ele. É incómodo isso. Percebo o meu autoritarismo de fundo, os meus joguinhos amorosos patéticos, coisas assim. É curioso, mas nas relações amorosas entre adultos isso acontece de forma encoberta, me parece. Aí está um ponto para eu entender melhor.