“Então, logo joga o Sporting, não é? Uiiiiiii, aquilo lá na Rússia é tramado de se vencer, não é? E os africanos dos gajos – desculpe lá dizê-lo assim, mas é que nem lhes decorei o nome de tão rápidos que são – correm que se fartam lá na frente, não é? Não sei, não sei mesmo… Vamos lá ver, não é?”

O senhor Félix, que me trouxe de táxi de Benfica ao Bairro Alto, ao começo da tarde, tinha as suas dúvidas. É normal. Não ia ser uma noite fácil para os leões em Moscovo. Nunca é fácil jogar na Rússia. Os clubes portugueses já lá jogaram em 22 ocasiões. Perderam 10, empataram sete e só por cinco vezes voltaram para “casa” com a vitória na bagagem. O Sporting só por duas vezes disputou um jogo na Rússia, sempre contra o Spartak, também em Moscovo, e nunca venceu: uma derrota e um empate. E há ainda o treinador, Jorge Jesus, que de todas as vezes que visitou o país, sempre com o Benfica, regressou de lá derrotado. E foram três as visitas.

Certamente que à noite, quando Félix, quarentão, nado e criado em Lisboa, sportinguista dos sete costados, opinador de tudo e de nada, soube que Slimani não ia começar o jogo no onze, que Aquilani ia ser titular na lugar do argelino, logo se abateu sobre ele a maledicência, logo se recordou de dizer que Jesus “inventa demais”. E inventou. No papel, seria um 4-3-3, com Carrilo e Bryan Ruiz nas alas do ataque, Teó Gutiérrez no lugar do ponta-de-lança, e um meio-campo reforçado, não em músculos mas em técnica, com João Mário, Adrien Silva e o italiano que “sentou” Slimani – quando a bola sai dos pés de Aquilani, se se escutar com atenção, muita atenção, quase se escuta uma nota, uma só, de piano; no final do jogo, de tanto passe, com tanta certeza, de tanto que a bola reluz quando lhe sai dos pés, certamente que o novo “6” de Alvalade (começou a carreira mais adiante, mas foi recuando com a idade, como o compatriota Pirlo o fez) escrevinhou uma partitura.

Mas isso é na papel. Só que não no de Jesus. Na prática, com o “Mestre da Táctica”, na hora de pressionar — e o Sporting fazia por incomodar a saída de bola do CSKA desde trás –, João Mário era o “perseguidor” de serviço, o mais adiantado dos leões, Ruiz era o “10”, Carrilo e Téo fechavam mais à lateral, mas não demasiadamente na lateral, Aquilani era o trinco mais puro, mais fixo (peçam-lhe tudo, mas não lhe peçam para fazer correrias doidas), e de Adrien, sempre dois passos à frente do italiano, só se lhe escutava o bafo no cachaço de Tosic e Dzagoev, os “pensadores” do futebol russo.

CSKA: Akinfeev; Mário Fernandes, Ignashevich, Berezutsky e Schennikov; Wernbloom, Tošić, Eremenko e Dzagoev; Musa e Doumbia.
Sporting: Rui Patrício; João Pereira, Paulo Oliveira, Naldo e Jonathan Silva; Aquilani, Adrien Silva, João Mário, Carrillo e Bryan Ruiz; Teó Gutiérrez.

O Sporting começou o jogo calmo, tão calmo, que enervou os russos. Aos de lá, não lhes saia um passe bem, e eram useiros e vezeiros do chutão para a frente, sempre em busca de Musa e Doumbia. Os leões, por sua vez, sem se abeirarem como desejariam da baliza contrária, e estando à frente da eliminatória, recriavam-se com a bola. João Mário fazia-a circular em slalom, Carrillo leva-a a andar de mota, e Aquilani “ensinava-a” a voar. O treinador russo, Leonid Slutsky, tal como em Alvalade, tal como sempre o é, recostava-se no banco, praguejava consigo, agitava-se, para a frente, para trás, para a frente de novo, para trás de novo, praguejava mais um pouco, mas em campo ninguém o escutava. A Jesus sim, escutavam-no, os russos e os portugueses, o que lhe entendem a fala e os que não, pois mesmo com o jogo em ritmo lento, controlado, Jesus nunca se dá por satisfeito. Queria matar um borrego, o seu e o do Sporting, e vencer na Rússia.

Mas para isso a noite teria que ser épica. E o Sporting já teve noites épicas na Europa. Os avós lembram-se do “Cantinho do Morais”, na final da Taças das Taças, em 1964, contra o MTK da Hungria. Os netos lembram-se de Alkmaar, da meia-final contra o AZ, em 2005, e desse golo improvável e fora de horas de Miguel Garcia – também se recordam, ou tentar esquecer, da final que se lhe seguiu, precisamente contra o CSKA, mas isso são contas de outro rosário. Hoje, na Rússia, mesmo antes da bola rolar, só o silêncio se fez escutar, silêncio por Mascarenhas, glória do Sporting que esta semana nos deixou, ele sim, épico: foi o melhor marcador num jogo das prova europeias, com seis golos, no jogo que mais vezes viu o marcador avançar nas provas europeus, 16-1, contra o APOEL do Chipre, em Alvalade, nos idos de 1963.

O CSKA é um daqueles amigos que, quando à noite lá por casa é noite de jogatana de futebol na consola, se agarram ao comando, e não fazem um só passe. Chutam, chutam lá para a frente, é um vê se te avias na defesa, e tentam pôr a bola, sempre!, no jogador mais rápido que tiverem em campo. Quando “ele” a apanha, corre, corre que se desalma, e, volta e meia, até faz golo. É um amigo chato. O CSKA é desses “amigos”. Tão chato que a primeira oportunidade de golo até foi dos russos, aos 23′. Os grandalhões do centro da defesa russa, Sergey Ignashevich e Vasili Berezutski, chutavam para Ahmed Musa ou Seydou Doumbia, os velocistas de serviço, que atormentavam, sempre que podiam, a defesa leonina. Musa recebeu uma dessas bolas, recebeu-a no meio, Jonathan Silva aproximou-se demasiado de Naldo ao centro, Bryan Ruiz não fechou o flanco como deveria, Mário Fernandes, o lateral do CSKA, veio por ali acima, Musa deu-lhe a bola, ele centrou, e adivinhe lá quem é surgiu, mais veloz que os centrais, para desviar para golo? Sim, Doumbia. O que vale é que a bola lhe pululou à frente mais do que deveria, e o remate, de primeira, na passada, saiu ligeiramente ao lado.

João Mário é o “menino bonito” do Sporting. Jesus prometeu, no começo da época, que William Carvalho jogaria o dobro consigo, mas quem dobrou de rendimento foi João Mário, que não é mais um “8” com pés de lã, mas é um médio por inteiro, certeiro no passe, afoito na decisão de avançar ou recuar com a bola, e líder, cada vez mais um líder — só ao líder se lhe passa a bola quando é hora de aperto e a redondinha queima nos pés da “malta”. Mas se este João é tudo isso, o outro João, o Pereira, é o “patinho feio”. Não tem a velocidade (que nunca foi estonteante, diga-se) de outrora. Mas nem com o avançar do calendário, já trintão que é, João Pereira aprende como se defende o flanco diante de um adversário mais rápido que ele. As costas eram sempre de Musa. E a frente também. Numa ou noutra situação, não fosse Paulo Oliveira nas dobras, e o Sporting estava em apuros. Olha como o miúdo o faz, João!

Mas até foi de João Pereira que nasceu o golo do Sporting — atacar é com ele. Subiu no terreno, não na ala, mas no centro, viu Teó a desmarcar-se, à direita, a chegar-a à área, e deu-lhe um passe a rascar, os veteranos centrais do CSKA foram mais lentos que o colombiano, e este, à saída de Akinfeev, picou-lhe a bola quando o russo se fez à relva, e marcou o 1-1. Estás perdoado, João.

O Sporting regressou do intervalo como para lá saiu: sereno, com vontade de ter a bola, mas em sobressalto quando esta caía em Musa ou em Dombia. A eliminatória, com um 2-1 vindo de Alvalade, e com golo de Téo no estádio Arena Khimki, estava bem encaminhada. Estava, se a defesa não começasse a comprometer tudo aos 49′. O golo do CSKA é, no mínimo, um golo caricato. Dzagoev marca um canto da esquerda, curto, fraco, mas a bola vai tocar em Adrien, que, sem querer, a corta para trás, para a pequena área. O “sem querer” não se ficou por aqui no desenrolar da jogada. É que o passe involuntário de Adrien vai ter com Doumbia, que tenta desviá-lo de Patrício, a bola toca nas pernas do guarda-redes leonino, ressalta, e, sem querer, lá toca de novo em Doumbia, para, caprichosamente, ir para a baliza. 1-1.

O CSKA motivou-se. Não tinha um futebol rendilhado, mas tinha um futebol objectivo. E, objectivamente, se a bola sair de Tosic ou de Dzagoev para Musa e Doumbia, vai causar “estragos” na defesa do Sporting. E causou, de novo, aos 72′. Dzagoev recuperou uma bola a Aquilani numa zona onde Aquilani não pode ver a bola escapar-lhe tão facilmente, o russo deixou-a em Roman Eremenko na esquerda, que rapidamente a fez chegar a Musa, nas costas de João Pereira. Musa centrou, Doumbia atacou a bola, e fez o 2-1.

Era tudo? Não. Aos 86′ o CSKA viraria a eliminatória a seu favor. Mas já lá vamos. Antes, aos 82′, o Sporting marca, Octávio Machado pula do banco, festeja como se não houvesse amanhã, mas logo a seguir esbraceja, esbraceja muito, não de euforia mas de revolta. O árbitro invalidou um golo em que Slimani salta sozinho, mais alto que todos, na área, e empata o jogo. Falta não houve. O que o árbitro Pavel Královec viu foi a bola, batida em arco, sair do campo na marcação do canto, mesmo antes de chegar a Slimani. Mas adiante. Quatro muitos depois, e ainda Octávio protestava no banco, Tosic pára um passe na canhota, toca a bola para Dzagoev no centro, à entrada da área, e o “10” russo desmarca Musa, sempre ele!, para que o nigeriano, à saída de Patrício, o contorne e “mate” o jogo. 3-1.

O Sporting está fora da Liga dos Campeões. E voltou a não vencer na Rússia — Jesus também não. Os verde e brancos “desperdiçaram” 12 milhões de euros. E logo contra um adversário que não lhes foi superior nos dois jogos que ambos disputaram, que não é melhor que o Sporting com a bola a rolar, mas que o Sporting não soube travar. Era simples? Não. Uma jogada, sempre a mesma, em Alvalade e em Moscovo, uma jogada que os russos sabem de trás para a frente, atirou com o Sporting para a Liga Europa: a de pôr a bola em Musa ou Doumbia e deixá-los correr com ela — até que com ela façam o golo. E fizeram três esta noite.

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“Então, logo joga o Sporting, não é? Uiiiiiii, aquilo lá na Rússia é tramado de se vencer, não é? E os africanos dos gajos – desculpe lá dizê-lo assim, não é ofensa, mas é que nem lhes decorrei o nome de tão rápidos que são – correm que se fartam lá na frente, não é? Não sei, não sei mesmo… Vamos lá ver, não é?”

Félix talvez não devesse ser taxista. É que a “bandeirada” dos videntes até é melhor…