O eurodeputado do PSD Paulo Rangel defendeu este sábado na Universidade de Verão do PSD que o Presidente da República deve ter um perfil mais interventivo do que Jorge Sampaio e Cavaco Silva. E que… (“agora vou escandalizar toda a gente”) Mário Soares funcionou bem como chefe de Estado.

A propósito de uma pergunta dos alunos, o eurodeputado fez uma avaliação dos mandatos presidenciais dos últimos 30 anos, concluindo “que funcionou sempre bem o Presidente Mário Soares como Presidente”. “Vou escandalizar toda a gente, mas eu acho que funcionou sempre bem o Presidente Mário Soares como Presidente”, disse, analisando que o antigo líder socialista governou sempre à direita do PS e “meteu o socialismo na gaveta”, apesar de querer ficar para a história como um homem de esquerda.

Admitindo que é defensor de um maior protagonismo do Presidente no sistema português e que mesmo com a atual Constituição o chefe de Estado poderia ter muito mais intervenção, o eurodeputado do PSD considerou que, “na dose certa”, uma certa “competição” entre Governo e Presidente é positiva. “Um candidato com um perfil mais interventivo para mim seria uma coisa que eu veria com interesse”, afirmou Paulo Rangel, na última aula da Universidade de Verão do PSD, que termina domingo em Castelo de Vide.

Ao contrário de Mário Soares, continuou Paulo Rangel, Jorge Sampaio “não quis intervir”, preferiu assumir ao longo de quase todo os seus mandatos um papel “mais neutral” e, mesmo vendo que António Guterres estava a levar o país para o “descalabro orçamental”, apoiou sempre o seu Governo, para no final acabar por ser o único chefe de Estado que usou o poder de dissolução contra uma maioria absoluta.

“É como aqueles pais que deixam sempre os filhos fazer tudo, até que chega uma altura em que já não há correção possível e ou lhes dá uma coça de cinto e expulsa de casa ou então já não conseguem dominar a situação”, ironizou.

Paulo Rangel fez uma análise semelhante aos mandatos de Cavaco Silva, lembrando que no início do Governo Sócrates também achou que se estava a fazer um bom trabalho e, mais tarde, quando chegou ao discurso de tomada de posse do segundo executivo, “desfez o Governo em plena Assembleia da República”.

“Prefiro um Presidente que ponha espinhos no caminho quando tem de pôr e depois não tenha de usar as armas brutais quando o mal já está feito”, disse, insistindo que prefere um chefe de Estado interventivo, que alerta, critica e está presente, porque “um Presidente complacente é um mau Presidente”.

“Embora muitas vezes o doutor Mário Soares tenha sido irritante para o nosso Governo de maioria absoluta, a verdade é que isso puxava que fôssemos melhores”, sublinhou.

Pelo contrário, Jorge Sampaio e Cavaco Silva quiseram-se proteger muito no início e acabaram por se desproteger muito no final. “O Governo precisa de um certo tratamento: de vez em quando é preciso por um pouco os pontos nos ‘i’s’, isso faz-se em privado, mas às vezes também é preciso dar sinais públicos”, acrescentou.

Na sua intervenção, Paulo Rangel antecipou ainda que nas eleições legislativas e “havendo resultados eleitorais pouco claros”, terão que existir “negociações de bastidores”, considerando que nesse cenário o Presidente da República poderá ter um papel a desempenhar.

No final, disse, não é de excluir que se chegue a soluções já ensaiadas noutros países apesar de não ser essa a tradição portuguesa. Por exemplo, “encontrar uma terceira personalidade que possa fazer o pleno entre dois partidos que se queiram coligar”.