“Quem é o Martial?!”

Wayne Rooney é o capitão do Manchester United. Rooney custou 37 milhões de euros aos red devils, vindo do Everton em 2003. Tinha 18 anos. Mas até ele se surpreendeu quando em Inglaterra se começou a falar do interesse do Manchester United num miúdo francês, um tal de Anthony Martial, que viajaria do Mónaco para Old Trafford. E mais surpreendido ficou quando soube que o United iria pagar 50 milhões de euros pelo avançado de apenas 19 anos, numa transferência que pode chegar ascender aos 80 milhões — para isso bastará que Martial, nos próximos anos, faça uns quantos jogos aqui, outros quantos golos acolá, e o cheque vai-se avolumando cada vez mais e mais.

A pergunta de Rooney — “Quem é o Martial?!” — foi dirigida a Morgan Schneiderlin, o trinco, também ele gaulês, que trocou, no verão, o Southampton pelo Manchester United a troco de 35 milhões de euros. Esta terça-feira, na concentração da seleção francesa (que joga na sexta, dia 4, conta Portugal), Schneiderlin contou o que lhe respondeu na altura. “No domingo, quando estávamos no avião, Rooney veio perguntar-me quem era o Martial, porque tinham começado a sair notícias na comunicação social inglesa. Disse-lhe que se tratava de um grande jogador, com enorme potencial, que tinha feito excelentes jogos pelo Mónaco, forte física e tecnicamente, um pouco à imagem de Thierry Henry”.

VALENCIA, SPAIN - AUGUST 19: Anthony Martial of Monaco looks on during the UEFA Champions League Qualifying Round Play Off First Leg match between Valencia CF and AS Monaco at Mestalla Stadium on August 19, 2015 in Valencia, Spain. (Photo by Manuel Queimadelos Alonso/Getty Images)

Este é que é o Martial, Rooney… Nunca se pagou tanto por alguém com tão pouca idade. 19 anos, 50 milhões de euros. (Manuel Queimadelos Alonso/Getty Images)

O problema é que Henry, quando trocou a Juventus pelo Arsenal, e mesmo tendo sido campeão do Mundo naquele ano de 1998, não custou, nem de perto nem de longe, o que o Manchester United pagou pelo compatriota. E também não era um teenager como Martial o é. “Quanto ao valor da transferência, o melhor que ele [Martial] tem a fazer é não ligar a isso. A imprensa vai falar muito desse tema e exigir que ele marque muitos golos, mas ele tem é que se manter concentrado nas suas capacidades e jogar como o sabe fazer”, explicou Morgan Schneiderlin.

Martial, na primeira época que fez no principado, em 2013/2014, pouco ou nada jogou, pois tinha à sua frente um tal de Radamel Falcao. Na última temporada, com a saída de Falcao, nem de propósito, para o United, não só ganhou o lugar (também pode atuar como extremo e não só como avançado centro), como fez 12 golos e chegou, já neste começo de época, ao lote dos eleitos de Didier Deschamps na seleção gaulesa. Mas o valor, talvez exagerado, sem dúvida um recorde para um futebolista de apenas 19 anos, tem um nome. Aliás, dois. O primeiro é Dmitry Rybolovlev, o magnaata russo que é proprietário do Mónaco, e que, depois de um divórcio que lhe subtraiu metade da fortuna, está mais vendedor que comprador, e não perde uma oportunidade para recuperar o que perdeu. O outro nome é, naturalmente, Jorge Mendes. Só o empresário português, fazendo uso do seu epíteto de “super empresário”, é que conseguiria vender um futebolista que só teve uma época ao mais alto nível por um valor assim.

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Mas o Manchester United, que também investiu 35 milhões de euros em Schneiderlin e 27,5 milhões em Memphis Depay, o holandês de quem se diz que é um Cristiano Ronaldo em potência, nem foi o mais activo dos clubes de Manchester neste defeso. O rival City, que pretende recuperar o título de campeão da Premier League perdido na última época para o Chelsea, comprou, por exemplo, Kevin de Bruyne (que até foi dispensado por Mourinho quando “penou” por Londres) por 75 milhões de euros, Raheem Sterling ao Liverpool por 62,5 milhões e Otamendi, ao Valência, por 44, 6 milhões. O belga Kevin de Bruyne, vindo do Wolfsburgo, foi mesmo a transferência mais cara do verão, e entrou para o 7.º lugar (a par de Di Maria, quando o argentino trocou o Real Madrid pelo Manchester United, no verão passado) dos futebolistas mais caros da história — uma lista que é encabeçada por Cristiano Ronaldo e Gareth Bale, que custaram, oficialmente, 94 milhões de euros, cada um, ao Real Madrid.

O Liverpool, que nem sempre gasta bem, mas que gasta sempre muito, viu chegar a Anfield Road o belga Benteke por 46,5 milhões de euros e Firmino, um brasileiro que veio do Hoffenheim, por 41 milhões. O outro candidato ao título inglês, o Arsenal, ameaçou que ia comprar tudo e todos, que ia comprar Benzema primeiro, Cavani depois, mas a verdade é que Wenger não viu chegar nenhum ponta-de-lança, e o único reforço que teve foi mesmo um guarda-redes: Petr Cech, do Chelsea. E por falar em Chelsea, Mourinho pediu Pedro Rodríguez, do Barcelona, a Roman Abramovich, e o russo acedeu, pagando 27 milhões pelo avançado catalão. Mas o Special One queria mais, queria John Stones e Paul Pogba, mas o Evertou pediu 56 milhões de euros pelo central inglês (o Chelsea acabou por comprar o senegalês Papy Djilobodji por tuta e meia ao Nantes) e a Juventus não vendia o médio francês por menos de 100 milhões. Ficou-se por Pedro no que toca a contratações dispendiosas.

Nenhum campeonato do chamado “big five”, ou seja, os campeonatos inglês, espanhol, italiano, alemão e francês, gastou tanto quanto a Premier League: ao todo foram 1,18 mil milhões de euros, muito por causa do custo inflacionado de transferências como a de Martial e companhia. O Championship, quem é como quem diz, a segunda divisão de Inglaterra, surpreendentemente (mas só é surpresa para quem não acompanha o fenómeno futebolístico no Reino Unido, com estádios sempre apinhados de adeptos e receitas televisivas repartidas de modo equitativo por todos os clubes), é a 6.ª liga que mais investiu: quase 119 milhões de euros.

Só Inglaterra ultrapassa os mil milhões de euros. E os outros?

Em Itália, os clubes investiram 576, 45 milhões de euros. Mas nada de se cometerem loucuras como por terras de sua majestade. A Juventus contratou o fenómeno argentino Paulo Dybala por 32 milhões de euros, o Milan comprou o goleador colombiano Carlos Bacca por 30 milhões ao Sevilha, e o rival da cidade, o Inter, também pagou igual valor pelo todo-o-terreno Geoffrey Kondogbia. Nenhuma destas tranferências figura sequer nas dez mais caras do verão.

Aqui ao lado, em Espanha, gastou-se um pouco menos: 572,95 milhões de euros. O Real Madrid comprou o trinco Kovacic ao Inter de Milão por 35 milhões de euros e o lateral Danilo ao Futebol Clube do Porto por 31,5 milhões. Mas quem Florentino Pérez queria mesmo para reforçar o Real Madrid era David De Gea, aquele que considera ser o sucessor natural de Casillas no clube e na seleção de nuestros hermanos. O problema é que, depois de um longo namoro de verão, quando o Real e o Manchester United iam consumar (finalmente) o romance por 30 milhões de euros (mais o passe de Keylor Navas, o actual guarda-redes do Real Madrid), o United enviou tardiamente, mesmo em cima da meia-noite em Espanha (01h00 em Inglaterra), os documentos necessários à inscrição de De Gea, e a transferência abortou. O problema é que agora, tanto De Gea no United, como Navas em Madrid, sabem que não contam, permanecendo nos respectivos clubes tão somente por causa de um maldito documento que se perdeu na viagem.

O Barcelona não pode inscrever ninguém até janeiro, fruto de uma penalização da FIFA, que acusou o Barça de irregularidades na contratação de dez jogadores menores de idade. Ainda assim, o Barcelona contratou, sem sequer “sair de casa”, Arda Turan ao Atlético de Madrid por 34 milhões de euros e Aleix Vidal ao Sevilha por 10 milhões. O Atlético Madrid, por sua vez, pescou em Portugal, e os 35 milhões de euros que pagaram ao Futebol Clube do Porto por Jackson Martínez são o máximo que os colchoneres investiram esta temporada num só jogador.

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A Alemanha (411,43 milhões de euros) e a França (308,5 milhões) fecham o top cinco das ligas mais gastadoras. Em França, Ángel Di María custou 63 milhões ao Paris Saint Germain, e Layvin Kurzawa, 25 milhões. Se há quem invista em França, e agora que o Mónaco está com a carteira mais leve, é o milionário saudita Nasser Al-Khelaïfi, que comprou o PSG, fez dele um crónico campeão em França, mas quer mais: quer a Liga dos Campeões.

Na Alemanha, o Bayern de Pep Guardiola comprou Arturo Vidal por 37 milhões de euros à vice-campeã europeia Juventus. Com as constantes lesões de Thiago Alcântara e Javi Martínez, a juntar à idade que já pesa nas pernas de Xabi Alonso, tem aqui, Pep, um pau para toda a obra. Por falar em lesões, Ribéry e Robben são feitos de cristal, tão fino quanto a fina classe que têm quando jogam à bola, e para o seu lugar chegou Douglas Costa, brasileiro vindo do frio da Ucrânia, por 30 milhões. Mas a transferência mais surpreendente na Alemanha foi mesmo a de Julian Draxler, que era pretendido pela Juventus, mas que trocou o Schalke 04 pelo Wolfsburgo a troco de 36 milhões de euros.

Assim sendo, e contas feitas, quando tanto se fala de crise e na necessidade de representar o futebol, torná-lo mais sustentável, as cinco principais ligas europeias gastaram qualquer coisa como 2,61 mil milhões de euros. Alguém falou em crise?

Portugal. O Dragão é o despesista e os rivais de Lisboa os poupadinhos

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O último dia de mercado não foi de agitação por demais em Portugal. Os adeptos de Benfica e Sporting, agitou-se-lhes (e muito) o coração até à meia-noite desta segunda-feira, com a possibilidade das suas jóias da coroa, Nico Gaitán e André Carrillo, saírem mesmo com o gongo a ressoar. Ressoou o gongo, ninguém passou o cheque de 35 milhões de euros que Luís Filipe Vieira exigia pelo argentino. Bruno de Carvalho, em Alvalade, teve os ingleses do Leicester a baterem-lhe à porta toda a noite, primeiro com uma oferta de 7 milhões de euros, depois, garantiu a imprensa britânica, com outra de 12 milhões, mas o presidente leonino resistiu a todas as ofertas e Carrillo, pelos menos até janeiro, ficará à disposição de Jorge Jesus.

Até lá, ou Carrillo renova – o Sporting, nesta altura, mais do que convencer o peruano, terá que convencer o seu empresário, Elio Casareto –, ou poderá assinar, logo no começo do ano, por qualquer clube. E fala-se insistentemente, nos bastidores, do interesse de Benfica e Futebol Clube do Porto em acolher, para 2016/2017, Carrilo no plantel.

Quanto a Nico Gaitán, o mercado inglês fechou, nem Manchester United nem Liverpool o contrataram, e a Juventus optou por adquirir Hernanes ao Inter de Milão para a posição “10”. Lá longe, da Turquia, não chegou uma só lira, e da Rússia, cujo mercado também só encerrou esta terça-feira, nem um rublo se viu. O Mónaco e o Valência, clubes ao quais Gaitán até podia ter chegado, tendo Jorge Mendes como intermediário, também não se chegaram à frente. O Mónaco por estar mais vendedor do que gastador, e o Valência por ter o meio-campo sobrepovoado de médios ofensivos de qualidade.

Gaitán ficou, terá provavelmente o contrato revisto em breve por Vieira, e a sair, ou sai em janeiro (se o Benfica, até lá, cair na tabela da I Liga ou sair abruptamente da Liga dos Campeões) ou no final da temporada. É que o dinheiro faz falta — e o Benfica não tem tantos jogadores com o valor de mercado de Gaitán quanto isso.

Aveiro, 23/08/2015 - O Futebol Clube de Arouca recebeu esta noite o Sport Lisboa e Benfica no Estádio Municipal de Aveiro em jogo a contar para a 2º jornada da I Liga 2015/2016. Nico Gaitan (Tony Dias/Global Imagens)

Gaitán esteve quase, quase de saída, mas ficou no Benfica e é o melhor “reforço” de verão que Rui Vitória podia pedir. (Tony Dias/Global Imagens)

O Futebol Clube do Porto, ao contrário dos restantes “grandes”, usou do livro de cheques no último dia de mercado. Não contratou muito, mas contratou caro e contratou bem. Miguel Layún, lateral polivalente (tanto joga à esquerda como à direita da defesa) do México, chegou por empréstimo do Watford, mas com opção de compra. Nem Cissokho nem José Angél saíram, mas com a chegada de Layún, que é mais acutilante no ataque, que é mais raçudo quando o assunto é defender, a vida para Angél (que mal calçou as botas em 2013/2014) e para o lateral francês (que comprometeu na derrota dos dragões na Madeira e nem convocado foi para o jogo seguinte com o Estoril) afigura-se difícil.

O outro reforço que entrou em cima da hora, também ele mexicano, foi o extremo Jesús Corona, que tem nome de cerveja, e a julgar pelo que dele se viu no Twente da Holanda, vai deixar a cabeça a borbulhar aos defesas em Portugal. Corona não chegou por empréstimo como Layún, mas a título definitivo: 10,5 milhões de euros.

O Futebol Clube do Porto, ao longo do verão, foi quem melhor (e mais) vendeu em Portugal, pelo que também foi quem mais investiu. Só Giannelli Imbula custou a módica quantia de 25 milhões de euros, atirando para lá da estratosfera com o anterior recorde em Portugal. E os anteriores máximos também eram portistas, com Hulk (que custou 19 milhões de euros, mas pagos em várias tranches) e Danilo (entretanto vendido ao Real Madrid, mas por quem o clube da Invicta pagou 13 milhões de euros ao Santos do Brasil) a figurarem no anterior pódio. Um pódio que era encerrado por Óscar Cardozo. O Benfica pagou quase 12 milhões de euros pelo Tacuara.

Porto, 29/08/2015 - O Futebol Clube do Porto recebeu esta tarde o Grupo Desportivo Estoril Praia no Est·dio do Drag„o em jogo a contar para a 3∫ jornada da I Liga 2015/2016. Danilo e Imbula (Ivan Del Val/Global Imagens)

Danilo Pereira (à esquerda) e Giannelli Imbula são reforços do FC Porto. O “25” custou, nem propósito, 25 milhões de euros. (Ivan Del Val/Global Imagens)

E por falar de Benfica, neste mercado as águias apostaram mais na prata da casa e promoveram uns quantos miúdos do plantel secundário ao principal. Quanto aos reforços Carcela ou Taarabt, mal se viram no relvado, “entretidos” que andaram pela enfermaria ou pelo ginásio do Seixal. Os outros, como Mitroglou ou Jiménez, ainda pouco se lhes viu, mas já começaram a faturar nos golos. O mexicano, por exemplo, só precisou de dois minutos na estreia contra o Moreirense para agitar as redes.

O Sporting foi às compras com pinças de cirurgião. As contratações tiveram, todas elas, a bênção de Jesus. Não chegaram todos os reforços que o treinador pediu a Bruno de Carvalho, é verdade, os tempos não estão para loucuras e a saída abrupta da Liga dos Campeões (o rombo da derrota com o CSKA foi grande: 12 milhões de euros) deixou marcas. Ainda assim, chegaram alguns. Muitos deles foram diretamente para o onze e têm dado boa conta do recado. Naldo, fruto da lesão de Ewerton, Bryan Ruiz, que não é veloz mas acelera o jogo com a sua qualidade técnica, e Teó Gutiérrez, problemático ou não, a verdade é que faz o que se lhe pede: golos. Já são os três habitué no onze. Aquialani, que não é mais um “10”, mas sim um “6”, não é de correrias, mas mantém toda a visão prodigiosa que fez dele um frequentador assíduo da squadra azzurra. Não é sempre titular, mas quando é, o futebol do Sporting é mais belo.

E quanto é que se gastou em Portugal?

Só à Primeira Liga chegaram 314 novos jogadores (incluindo as transferências internas) e saíram uns quantos mais: 372. O Benfica gastou 15,75 milhões de euros, mas entraram nos cofres da Luz 92,20 milhões. O Futebol Clube do Porto gastou mais do dobro (37 milhões de euros), mas também amealhou mais em transferências: 121,40 milhões de euros. O Sporting, por sua vez, foi o mais poupadinho dos “grandes”: investiu “somente” 12,40 milhões de euros em contratações. Entre entradas e saídas o leão deu lucros, mas pouco, já que a Alvalade só chegaram 13,55 milhões de euros em vendas.

Ao todo gastaram-se pouco mais de 70 milhões de euros em Portugal, mas as vendas ultrapassaram os 288 milhões. Por comparação, em 2014/2015 entrou menos dinheiro (quase 200 milhões de euros), mas os investimentos também foram menos (106,35 milhões). Portugal figura no 8.º lugar das ligas que mais gastaram, atrás, por exemplo da Süper Lig turca, em 7.º, e do Championship, a segunda divisão de Inglaterra, que figura em 6.º lugar.