Nos anos 90 éramos um país de “Oliveiras Figueiras”, que competíamos com gregos na aldrabice. Dois anos mais tarde, o mesmo espírito de vendedor da personagem do Tintin, fazia do povo português um bando de “deslumbrados”, capazes de trocar os símbolos da soberania – a “bandeira ou o Parlamento” – por meia dúzia de tostões que jorrassem de Bruxelas. As palavras são de um jornalista, na altura diretor de um jornal, que já aí mostrava conhecimento da personagem de banda desenhada e o usava para descrever a atitude dos portugueses. Mas para Paulo Portas, ser um Oliveira da Figueira era tudo menos prestigiante. Vinte anos depois, foi o próprio que disse sentir-se na pele de Oliveira da Figueira – e com muito orgulho – com uma pasta debaixo do braço.

Rewind. Estamos em 1990, os anos em que a discussão para o Tratado de Maastricht estava ao rubro. Portas, já se sabe era eurocético e o Tratado de Maastricht era mais um “tramado”, como chegou a titular uma primeira página. Mas o resto do país, na visão do então diretor d’ O Independente, andava “deslumbrado” com o dinheiro da CEE e, na altura, para Portas, o país competia com outro bem debaixo dos holofotes também por estes dias. “Em Portugal, a história do debate sobre a Europa é uma velha trapaça. O país gosta é de fundos: como somos uma terra de Oliveiras Figueiras, só devemos competir com os gregos na aldrabice institucional”, escreveu numa crónica de 1990 em que criticava a posição dos socialistas e do Governo (então de Cavaco Silva) na Europa e defendia que não havia pressa para o federalismo europeu.

Dois anos mais tarde, o diretor do semanário regressou à personagem das histórias do Tintin. E não regressou para elogiar os portugueses. O objetivo era o de atacar Cavaco Silva e a defesa do Tratado. E aí, classificou o país como um “país de Oliveiras da Figueira” a quem brilhavam os olhos pelos dinheiros da Europa:

“Durante um ano, o primeiro-ministro e todo o coro oficial venderam ao país inteiro uma equação oportunista: Maastricht é dinheiro. Justiça seja feita aos federalistas, porque esses não precisavam do pagamento em moeda para se convencerem da Europa em que acreditam. Mas o Portugal dos Oliveiras da Figueira, esse, deslumbrou-se. Chegou-se a tal ponto que muita gente não se importava de trocar a bandeira ou o Parlamento se lhe dessem mais um quilómetro de estrada. O primeiro-ministro foi o teórico desta barganha em que Portugal exportava soberania e perdia democracia recebendo fundos consideráveis na volta”

Recorrer à personagem do Tintin voltou a ser visto com bons olhos mais de 20 anos depois. O ano passado, à revista Sábado, Portas já tinha vestido na pele do vendedor: “Às vezes, nas missões de promoção de exportações, sinto-me um pouco como o Oliveira da Figueira, um português das aventuras do Tintin, que aparecia a tentar vender aquela mala cheia de toda a sorte de produtos”, disse.

E esta semana, o vice-primeiro-ministro voltou à comparação com a personagem dos livros de Hergé. “Senti-me uma espécie de Oliveira da Figueira. Lembram-se de uma personagem do Tintin que vendia tudo nos mercados externos, tinha uma pasta e vendia uma série de produtos. Eu lembro-me do azeite português”, disse, a propósito da promoção das empresas e de produtos portugueses no estrangeiro – uma área sob a sua responsabilidade enquanto vice-primeiro-ministro.

Mais de vinte anos depois, a personagem mal-amada passou a herói. O vendedor que tudo vendia apenas com o poder de persuasão passou a ser visto com bons olhos e Portas vestiu-lhe a pele. Logo de seguida, o número dois do Governo acrescentou que, “sem ironia, ajudar a vender marcas portuguesas e bens portugueses é fazer um serviço à economia portuguesa”.