Paulo Portas falou diretamente para os indecisos, “aqueles que legitimamente ainda não fizeram a sua escolha”, para a classe média, que reina em Lisboa e “que é ao mesmo tempo o pilar do desenvolvimento económico e a mais prejudicada pelo anos de resgate”, e também para os aposentados, “que sabem que connosco a CES não voltará”. Pedro Passos Coelho falou diretamente para “todos os portugueses” que no dia 4 de outubro vão às urnas votar. Passos no geral, Portas no particular, assim se distribuiu o jogo. Mas a ideia foi sempre a mesma, apelar ao voto de todos e de cada um, unindo esforços no sentido de descolar dos socialistas e conseguir uma vitória governável.

No dia em que a coligação Portugal à Frente apresentou os seus candidatos por Lisboa, onde Passos é o número um e Portas o número dois, primeiro-ministro e vice-primeiro-ministro deram em uníssono, e afinados, o mote para a campanha: os portugueses conhecem os resultados da atual governação e, por isso, desta vez, a coligação “não tem de fazer o caminho para as legislativas com demagogia”, disse Passos. É o jogar o certo em vez do incerto. “Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”, resumiu Portas.

O trunfo da coligação está à vista e será essa a fórmula que PSD e CDS acreditam poder levá-los à vitória. As comparações entre uma governação com “resultados à vista” e a “incerteza a e risco” das propostas da oposição esteve presente em toda a linha de ambas as intervenções. Sem pedir maioria absoluta ou maioria “inequívoca”, como já fez noutras alturas, Passos falou de “humildade democrática” e em “tolerância” porque a ida às urnas no próximo dia 4 “não é um jogo ganho à partida”. “Sabemos que o mundo não acaba no dia das eleições. Mas sabemos de onde vimos e para onde vamos”, resumiu.

Numa sala de um hotel de Lisboa com lotação esgotada para aplaudir um por um os candidatos da coligação pelo círculo eleitoral de Lisboa, o primeiro-ministro e cabeça de lista da coligação quis por isso vincar como a candidatura da coligação é diferente das restantes. Daí ter proposto um desafio à audiência: “Procurem uma outra data no tempo em que os governos tenham baixado a despesa a pensar no futuro dos portugueses. Os eleitores são inteligentes, sabem observar a diferença entre aqueles que aumentam salários e diminuem impostos a pensar nas eleições e aqueles que baixam a despesa”. A resposta surgiu em forma de aplausos.

Sempre na mesma linha de argumentação, Passos admitiu que os portugueses estão “menos recetivos a demagogia fácil” e que, por isso, estas não serão as eleições da demagogia. “Agora que os portugueses conhecem os resultados da governação que realizámos não temos de fazer esse caminho com demagogia”, afirmou.

Objetivo: conquistar a classe média

Antes, já Paulo Portas tinha cantado as mesmas notas. Partindo de três premissas para o futuro do país – “sem financiamento não há crescimento, sem confiança não há investimento, e sem investimento não há emprego” -, o vice-primeiro-ministro e número dois na lista da coligação por Lisboa deixou claro que “a coligação é a que oferece mais garantias enquanto as outras propostas representam mais riscos e perigos”.

O alvo do discurso de Portas foi, primeiro, “os que legitimamente ainda não fizeram a sua opção quanto às eleições de 4 de outubro”, e, depois, os eleitores da classe média, que, considerou, “foi a mais prejudicada pelo resgate e pela recessão que vinha associada ao resgate” e, por isso, uma classe difícil de conquistar. Mas não impossível. Para Portas, a coligação é mesmo a que oferece mais garantias à classe média: “estabilidade”, “contas bem geridas”, “fim da sobretaxa”, “fim da CES”, assim como a reposição de salários da Função Pública. Por outro lado, tem a perder com a “instabilidade, o excesso de guinadas à esquerda e a perda de credibilidade”.

“Nestas eleições a classe média tem alguma coisa a ganhar ou alguma coisa a perder. A classe média não é dada a sentimentos do tipo ‘quanto pior melhor’, ou ‘perdidos por cem, perdidos por mil’. Não, a classe média tem por tradição caminhar com pés seguros e preferir aquilo que é viável àquilo que é utópico. Um pássaro na mão é melhor do que dois a voar”, repetiu, admitindo que o eleitorado de Lisboa se centra fortemente nessa classe.

O tom, quer de Passos quer de Portas, foi de ensinamento para os candidatos por Lisboa que vão estar no terreno a convencer os eleitores a votar na coligação. Está lançado o mote, a coligação já escolheu os seus trunfos e a fórmula para avançar. Agora, apresentados os candidatos e delineada a estratégia, é deixar o jogo começar.